Lítio em alta: osteoporose, demência e ganho ponderal

Dr. Sivan Mauer

Notificação

5 de maio de 2022

Neste artigo

1. Tratamento com lítio e risco de osteoporose no transtorno bipolar

A osteoporose é uma doença esquelética sistêmica crônica associada a morbidade e mortalidade substanciais. Embora a idade avançada e o sexo feminino sejam os principais fatores de risco de osteoporose em nível populacional, existem vários fatores adicionais em nível individual. Evidências recentes sugerem que transtorno bipolar seja um deles.

Uma metanálise recente sugeriu que indivíduos com transtorno bipolar tenham risco elevado de fraturas. Dois pequenos estudos transversais constataram que 61 pacientes recém-diagnosticados com transtorno bipolar, ainda sem tratamento, apresentavam menor densidade mineral óssea do que os controles saudáveis; e que 16 idosos com diagnóstico de transtorno bipolar internados apresentavam alta prevalência de osteopenia (50%) e osteoporose (12,5%). No entanto, há uma falta de estudos longitudinais com poder estatístico adequado para avaliar as associações entre o transtorno bipolar, os respectivos tratamentos farmacológicos e a osteoporose.

O lítio, um marco na farmacologia do tratamento do transtorno bipolar desde a década de 1950, e que permanece amplamente utilizado, é de interesse neste contexto. Embora alguns pequenos estudos observacionais indiquem que o tratamento com lítio esteja associado a redução do risco de fraturas, outros apontam efeitos negativos ou neutros do lítio na densidade de massa óssea. O potencial efeito benéfico do lítio na estrutura óssea é embasado por estudos em animais demonstrando que a substância estimula a formação óssea por meio da ativação da β-catenina via inibição da enzima glicogênio sintase quinase 3 beta. Se o lítio também estimular a formação óssea de forma substancial em humanos, poderá proteger da osteoporose os indivíduos com transtorno bipolar em uso do medicamento.

Para esclarecer as associações entre transtorno bipolar, tratamento farmacológico, risco de osteoporose e o potencial efeito protetor do lítio contra a osteoporose, foi projetado um estudo longitudinal nacional baseado em registros abordando as seguintes questões de pesquisa sequenciais:

  • Indivíduos com transtorno bipolar têm mais risco de osteoporose do que indivíduos da mesma idade e sexo da população geral?

  • O tratamento do transtorno bipolar com lítio está associado a diminuição do risco de osteoporose?

O estudo de coorte retrospectivo incluiu 22.912 adultos com diagnóstico inicial de transtorno bipolar entre 1º de janeiro de 1996 e 1º de janeiro de 2019 inscritos no Registro Central de Pesquisa Psiquiátrica Dinamarquesa. Para cada paciente com transtorno bipolar, cinco controles, pareados por idade e sexo, foram selecionados aleatoriamente da população geral. Dos 114.560 controles incluídos, 300 foram diagnosticados com transtorno bipolar durante o acompanhamento e consequentemente excluídos do grupo de controle a partir da data do diagnóstico.

A mediana de idade do grupo com transtorno bipolar era de 50,4 anos, e 56,6% eram mulheres. O grupo de controle apresentou a exata mesma mediana de idade e porcentagem de mulheres.

Foram acompanhados por 1.213.695 pessoas-ano (mediana: 7,68 [3,72 a 13,24] anos). A incidência de osteoporose por 1.000 pessoas-ano foi de 8,70 (intervalo de confiança [IC] de 95% de 8,28 a 9,14) entre os pacientes e 7,90 (IC 95% de 7,73 a 8,07) entre o grupo de controle, resultando em uma taxa de risco de 1,14 (IC 95 % de 1,08 a 1,20).

Entre os pacientes com transtorno bipolar, 8.750 (38,2%) receberam lítio, 16.864 (73,6%) receberam um antipsicótico, 3.853 (16,8%) receberam valproato e 7.588 (33,1%) receberam lamotrigina (não mutuamente exclusivos). Os pacientes com transtorno bipolar tratados com lítio tiveram menos risco de osteoporose (razão de risco de 0,62; IC 95% de 0,53 a 0,72) do que os pacientes que não receberam lítio.

Para lembrar:

Este estudo é de grande importância, pois apresenta mais um benéfico do lítio para os pacientes com transtorno bipolar. Estes pacientes parecem apresentar um risco maior para osteoporose. Novos estudos precisam replicar este resultado para que possamos entender ainda mais a função protetora do lítio em relação a osteoporose.

Referência:
Köhler-Forsberg, O., Rohde, C., Nierenberg, A. A. & Østergaard, S. D. Association of Lithium Treatment With the Risk of Osteoporosis in Patients With Bipolar Disorder. JAMA Psychiatry 1–10 (2022). doi:10.1001/jamapsychiatry.2022.0337

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