Jovens precisam de melhor transição para cuidados de adultos, dizem pediatras

Carolyn Crist

Notificação

5 de maio de 2022

Pediatras e clínicos que tratam de adultos, assim como médicos de família e agentes comunitários, devem colaborar para conduzir melhor a transição de cuidados pediátricos para cuidados de adultos entre jovens com necessidades médicas complexas, de acordo com um novo posicionamento da Canadian Paediatric Society.

Para ajudar os pacientes, os médicos precisam, em especial, de estratégias sistematizadas, como treinamento especializado em questões de cuidados de transição e recomendações de transferência com base no estágio de desenvolvimento de cada paciente.

“Há uma séria falta de integração dos atendimentos entre vários setores, especialmente assistência primária e terciária ou especializada, e isso tem um impacto negativo na adesão dos jovens e potencialmente compromete seus resultados de saúde como adultos jovens”, disse ao Medscape a primeira autora, Dra. Alene Toulany, médica especialista em medicina do adolescente no Hospital for Sick Children e professora assistente da University of Toronto, no Canadá.

“Precisamos abordar essas barreiras para melhorar a qualidade do atendimento e a experiência durante a transição para os jovens e seus familiares”, disse a Dra. Alene.

A declaração de posicionamento foi publicada on-line em 13 de abril.

Quatro etapas propostas

No Canadá, os financiadores provinciais e territoriais exigem que os jovens façam a transição de cuidados pediátricos para adultos entre 16 e 19 anos. A configuração atual dos serviços pediátricos e adultos muitas vezes leva a cuidados fragmentados, o que pode criar barreiras para a continuidade dos tratamentos, principalmente para adultos jovens com problemas complexos de saúde física, de desenvolvimento ou mental.

A Dra. Alene, juntamente com o Comitê de Saúde do Adolescente da Canadian Paediatric Society, redigiu a declaração de posicionamento para chamar a atenção para uma abordagem que seja mais fundamentada no sistema para melhorar o atendimento. O Dr. Jan Willem Gorter, Ph.D., médico e professor de pediatria da McMaster University, e a Dra. Megan Harrison, médica e professora associada de pediatria da University of Ottawa, são membros do comitê.

“Apesar de nosso vasto conhecimento sobre os desafios associados à transição para os cuidados de adultos, não fizemos avanços significativos na melhora dos resultados para os jovens nos últimos 20 anos”, disse a Dra. Alene.

Na declaração de posicionamento, os autores delinearam quatro etapas principais de uma transição bem-sucedida, enfatizando que cada componente deve ser centrado na juventude, baseado em pontos fortes e apropriado para o desenvolvimento.

Na primeira etapa, os profissionais devem iniciar o planejamento da transição precocemente, avaliando regularmente o preparo para a transição com os pacientes e seus cuidadores. Os médicos devem compreender o potencial e os objetivos de cada jovem adulto no que se refere a atividade, educação, recreação e vocação.

Na segunda etapa, os profissionais devem criar um plano de transição individual e identificar um “líder” de transição ou um clínico que coordene os vários profissionais e busque a opinião do paciente e de seus cuidadores, abordando as falhas no preparo, na autonomia e na confiança dos jovens, quando necessário.

Na terceira etapa, os médicos devem fornecer suporte antes da transição, oferecendo orientação e apoio de pares para os pacientes e seus cuidadores. Esta etapa pode incluir uma abordagem gradual, para aumentar a independência na condução do cuidado, e um resumo abrangente do prontuário de transferência, com base nas prioridades da família.

Na quarta etapa, os médicos devem fornecer apoio contínuo após a transição, garantindo que os pacientes compareçam às consultas e monitorando sua adesão aos serviços para adultos. Esta etapa poderia continuar a incluir os cuidadores com base nas preferências do paciente, com desmame gradual ao longo do tempo.

Os objetivos gerais são aumentar o nível de responsabilidade do paciente jovem pelos cuidados com sua própria saúde, fortalecer sua compreensão sobre suas doenças crônicas e desenvolver suas habilidades para transitar no complexo sistema de saúde adulto.

“Como clínico-cientista, pude ver em primeira mão como os jovens com doenças crônicas e seus familiares travam batalhas e, muitas vezes, se sentem sozinhos”, disse o Dr. Jan ao Medscape.

“Somente juntos podemos aprender uns com os outros e conceber soluções realistas e intervenções de saúde que terão impacto direto nos pacientes, seus familiares e nos profissionais que trabalham no sistema de saúde”, continuou.

Evitando desfechos ruins

A transição de jovens com necessidades de saúde complexas envolve mais do que a transferência médica em si, escreveram os autores. Os pacientes, seus cuidadores e vários médicos devem ser envolvidos. Sem uma transição adequada, desfechos de saúde ruins geralmente ocorrem quando os jovens adultos são transferidos aos serviços para adultos.

Por exemplo, em um estudo realizado em Ontário, a taxa de internações hospitalares relacionadas ao diabetes aumentou significativamente nos dois anos após a transição para cuidados de adultos, escreveram os autores. Em outro estudo, quase metade dos jovens de Ontário tiveram uma pausa de mais de 12 meses em seus cuidados com o diabetes durante a transição para os cuidados de adultos. Outros estudos no Canadá observaram complicações para jovens com fibrose cística, doenças cardíacas congênitas e transplantes de órgãos.

Além disso, a adolescência e a juventude trazem outras grandes mudanças físicas, psicossociais e de desenvolvimento, que podem afetar ainda mais os desfechos de saúde. Durante esse período, os jovens precisam de apoio para desenvolver habilidades de autogestão, lidar com novos relacionamentos e se adaptar às mudanças na educação, carreira, moradia e circunstâncias pessoais, escreveram os autores. Com todas essas mudanças, os jovens adultos podem não considerar a saúde tão importante quanto outras áreas de transição em sua vida.

“Junto com outras transições de vida que ocorrem ao mesmo tempo que a transição dos cuidados de saúde, esta é uma fase desafiadora da vida”, explicou ao Medscape o Dr. Andrew Mackie, médico especialista em doenças cardíacas congênitas do Stollery Children's Hospital e professor de pediatria da University of Alberta. Ele não participou da elaboração da declaração de posicionamento.

“Que oportunidade perdida seria para os profissionais de saúde investir tantos recursos para salvar vidas na infância, apenas para deixar a peteca cair na adolescência e juventude à medida que os pacientes crescem e deixam os cuidados pediátricos”, disse o professor.

Ajustando a transição

As intervenções de transição devem ser cuidadosamente adaptadas, programadas e integradas ao sistema de saúde mais amplo, segundo os autores. As evidências são limitadas e não embasam qualquer intervenção em particular devido à natureza complexa das doenças crônicas, bem como das comorbidades físicas e mentais. Isso significa que a flexibilidade nos cuidados de transição é essencial, escreveram.

Cortes por idade mais flexíveis, em vez de um requisito de idade cronológica, podem refletir melhor a fase de desenvolvimento e o preparo para a transição, observaram os autores. De acordo com esse modelo, os jovens receberiam níveis crescentes de informação e de responsabilidade à medida que avançam pelos estágios de desenvolvimento da adolescência, em seu próprio ritmo. Os modelos de financiamento e pagamento de programas poderiam subsidiar os cuidados contínuos, compartilhados e integrados entre os serviços de saúde pediátricos e adultos.

Os líderes do sistema de saúde também devem reconhecer grupos específicos de alto risco para garantir o acesso equitativo aos serviços de saúde. Crianças com necessidades complexas de cuidados de saúde que vivem em regiões rurais ou remotas, por exemplo, podem precisar de um apoio de transição mais amplo, bem como aquelas que enfrentam marginalização econômica, educacional ou cultural.

As equipes de atenção primária e os serviços comunitários devem estar envolvidos em uma “abordagem holística” durante a transição, disseram os autores, e os determinantes sociais da saúde, como moradia, escola, emprego e serviços sociais, devem ser integrados para atender às necessidades dos jovens “onde eles vivem”.

“A transição para a idade adulta pode ser desgastante, e todos sabemos que é difícil mudar as condutas”, disse o Dr. Jan. “Começa com a ação. Todos podem fazer alguma coisa, e as pequenas coisas podem fazer uma grande diferença."

A declaração de posicionamento foi revisada pelos Comitês de Bioética, Pediatria Comunitária e Saúde Mental e Transtornos do Desenvolvimento da Canadian Paediatric Society (CPS), assim como pela Sessão Executiva de Pediatria Hospitalar da CPS. Também foi revisada pela Pediatric Chairs of Canada e por membros do Comitê Consultivo de Medicina de Família do College of Family Physicians of Canada, e foi revisada e endossada pela Children's Healthcare Canada. A Dra. Alene Toulany, o Dr. Jan Willem Gorter e a Dra. Megan Harrison informaram não ter conflitos de interesses.

Canadian Paediatric Society. Publicado on-line em 13 de abril de 2022. Texto completo

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....