Hipotireoidismo subtratado pode piorar desfechos hospitalares

Miriam E. Tucker

Notificação

4 de maio de 2022

O tratamento insuficiente do hipotireoidismo primário pode aumentar o risco de piores desfechos hospitalares, sugere uma nova pesquisa.

Os riscos, entre eles maior tempo de permanência hospitalar e maiores taxas de reinternação, não foram observados em pacientes com hipotireoidismo tratado adequadamente e, na verdade, esses pacientes pareceram até melhores do que aqueles sem hipotireoidismo.

"Infelizmente, o tratamento insuficiente é comum na população de pacientes com hipotireoidismo", escreveram o médico Dr. Matthew D. Ettleson, do departamento de endocrinologia, diabetes e metabolismo da University of Chicago, nos Estados Unidos, e colaboradores.

"É importante tanto para os pacientes quanto para os médicos saberem que manter o tratamento adequado com reposição de hormônio tireoidiano é importante para minimizar a duração de internações hospitalares e a reinternação. É especialmente importante no caso de internações planejadas, em que a reposição de hormônio tireoidiano pode ser ajustada antes da admissão, se necessário", disse o Dr. Matthew em um comunicado da Endocrine Society à imprensa.

Mais evidências de efeitos adversos do tratamento insuficiente

Os achados, coletados de uma grande base de dados de seguros de saúde dos Estados Unidos, "somaram-se ao crescente corpo de evidências demostrando os graves efeitos adversos de curto e longo prazo sobre a saúde associados ao tratamento insuficiente do hipotireoidismo", escreveram os autores no artigo, publicado on-line em 26 de abril no periódico Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism. O Dr. Matthew também irá apresentar os dados em 11 de junho no encontro anual ENDO 2022.

A terapia de reposição do hormônio tireoidiano – geralmente a levotiroxina – é feita no hipotireoidismo primário com o objetivo de manter o hormônio estimulante da tireoide (TSH, do inglês thyroid-stimulating hormone) dentro dos valores referência.

O TSH é inversamente relacionado ao nível de hormônio tireoidiano circulante, portanto baixos níveis de TSH indicam excesso de tratamento do hipotireoidismo e altos níveis indicam subtratamento.

Desfechos hospitalares piores associados ao TSH alto 

No estudo, o Dr. Matthew e colaboradores examinaram retrospectivamente registros da base de dados IBM MarketScan de 43.478 pacientes com seguros de saúde privados com menos de 65 anos e hospitalizados por motivos clínicos ou cirúrgicos entre 2008 e 2015.

Desses pacientes, 8.873 atenderam aos critérios de hipotireoidismo primário com base em prescrições de levotiroxina pré-internação, TSH maior que 10 mUI/L, diagnóstico confirmado de hipotireoidismo durante a hospitalização ou tireoidite linfocítica crônica. Dos pacientes que cumpriram os critérios, 4.770 (53,8%) já tinham uma receita de levotiroxina.  

Os pacientes que atenderam aos critérios clínicos de hipotireoidismo foram divididos em quatro subgrupos com base no nível de TSH pré-internação: baixo (menor que 0,40 mUI/L), normal (entre 0,40 e 4,50 mUI/L), intermediário (entre 4,51 e 10 mUI/L) e alto (maior que 10 mUI/L).

A mediana do período entre a coleta do TSH e a internação hospitalar foi de 56 dias no grupo com hipotireoidismo e de 63 dias no grupo controle.

Não houve diferenças nos desfechos hospitalares entre os pacientes com e sem hipotireoidismo, nos indivíduos com níveis de TSH baixos ou intermediários, em uma análise multivariada que utilizou pareamento por escore de propensão.

Nos pacientes com níveis de TSH normais, aqueles com hipotireoidismo, surpreendentemente, apresentaram risco menor de morte intra-hospitalar (razão de riscos, RR, de 0,46; P = 0,004) e de reinternação em 90 dias (RR de 0,92; P = 0,02) do que os controles.

Os pacientes no subgrupo de níveis altos de TSH tiveram maior tempo de permanência (+ 1,2 dia; P = 0,003) e maior risco de reinternação em 30 dias (RR de 1,49; P < 0,001) e de reinternação em 90 dias (RR de 1,43; P < 0,001) comparados com controles equilibrados.

Esforço em saúde pública é necessário para melhorar a qualidade do cuidado

Existem múltiplas razões pelas quais os pacientes com hipotireoidismo subtratado ou não diagnosticado podem ter piores desfechos hospitalares, disseram os autores.

O que é um tanto intrigante é por qual motivo os pacientes com hipotireoidismo bem controlado aparentemente se saíram melhores do que aqueles sem hipotireoidismo, visto que a reposição de hormônio tireoidiano provavelmente não fornece nenhuma vantagem sobre a produção endógena normal do hormônio.

O Dr. Matthew e colaboradores especularam que os valores de TSH dentro do intervalo de referência possam ser um indicador indireto de assistência médica regular e adesão ao tratamento médico, o que provavelmente levaria a melhores desfechos hospitalares.

"Os efeitos adversos de curto e longo prazo sobre a saúde associados ao tratamento inadequado do hipotireoidismo, juntamente com a alta frequência desse tratamento inadequado nos milhões de pacientes nos Estados Unidos que utilizam hormônio tireoidiano, sugerem ser necessário um esforço em saúde pública para melhorar a qualidade do cuidado no hipotireoidismo", escreveram o Dr. Matthew e colaboradores.

Entretanto, eles observaram que atualmente não existe uma medida qualitativa referente ao tratamento adequado do hipotireoidismo dentro sistema de pagamento de incentivos por mérito dos Centers for Medicare & Medicaid Services.

"Apenas a existência de diretrizes pode não ser suficiente, como demonstrado pela aplicação inadequada das diretrizes para o uso de levotiroxina no tratamento do câncer de tireoide, uma doença grave, porém menos comum do que o hipotireoidismo clínico", acrescentaram os autores.

O estudo foi apoiado pelo National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases, parte dos National Institutes of Health. O Dr. Matthew D. Ettleson informou não ter conflitos de interesses relevantes.

J Clin Endocrinol Metab. Publicado on-line em 26 de abril de 2022. Abstract

Miriam E. Tucker é jornalista freelancer, mora na região de Washington, DC, nos EUA e é colaboradora regular do Medscape. Outros trabalhos seus foram publicados em Washington PostNPR's Shots e Diabetes Forecast. Acompanhe seu trabalho no Twitter: @MiriamETucker. 

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