Exame de sangue no segundo trimestre gestacional prevê parto prematuro

Will Pass

Notificação

3 de maio de 2022

Um novo exame de sangue realizado no segundo trimestre gestacional pode ajudar a identificar gestações com risco de parto prematuro espontâneo precoce e muito precoce, de acordo com um estudo de coorte prospectivo.

A ferramenta de perfil de ARN acelular pode orientar a tomada de decisões por pacientes e profissionais, enquanto as pesquisas elucidam os caminhos biológicos que podem facilitar novas intervenções, relataram o autor principal Dr. Joan Camunas-Soler, Ph.D., da empresa Mirvie, dos Estados Unidos, e colaboradores.

“Dada a complexa etiologia dessa síndrome heterogênea, seria vantajoso desenvolver exames preditivos que fornecessem informações sobre a fisiopatologia específica que leva ao parto prematuro para cada gestação em particular”, escreveram o Dr. Joan e colaboradores no periódico American Journal of Obstetrics and Gynecology . “Tal abordagem poderia auxiliar a criação de tratamentos preventivos e de terapias direcionadas que atualmente não estão disponíveis ou são difíceis de ser implementados devido à etiologia heterogênea do parto prematuro espontâneo.”

Atualmente, o melhor preditor de parto prematuro espontâneo é uma história anterior de parto prematuro espontâneo, de acordo com os pesquisadores. Embora uma abordagem combinada que incorpore comprimento cervical e fibronectina fetal no líquido cervicovaginal seja “útil”, eles observaram que “esta não é a rotina padrão nos EUA nem é recomendada pelo American College of Obstetricians and Gynecologists ou pela Society for Maternal-Fetal Medicine”. Os exames moleculares existentes carecem de dados clínicos e podem ser imprecisos em diversas populações de pacientes, acrescentaram.

O estudo em pauta teve como objetivo abordar essas deficiências, criando um exame de sangue a ser feito no segundo trimestre gestacional para prever o parto prematuro espontâneo. Para identificar biomarcadores relevantes, os pesquisadores compararam perfis de ARN que foram diferencialmente expressos em três tipos de casos: parto a termo, parto prematuro espontâneo precoce e parto prematuro espontâneo muito precoce.

Entre 242 pacientes que contribuíram com amostras de sangue do segundo trimestre para análise, 194 tiveram parto a termo. Das 48 mulheres restantes que deram à luz espontaneamente antes de 35 semanas de gestação, 32 deram à luz entre 25 e 35 semanas (parto prematuro espontâneo precoce), enquanto 16 deram à luz antes de 25 semanas de gestação (parto prematuro espontâneo muito precoce). Pouco mais da metade das pacientes eram brancas, cerca de um terço eram negras, aproximadamente 10% eram asiáticas e o restante era de raça/etnia desconhecida. Casos de pré-eclâmpsia foram excluídos.

O processo de descoberta e modelagem de genes revelou 25 genes distintos que foram significativamente associados ao parto prematuro espontâneo precoce, oferecendo um modelo de risco com sensibilidade de 76% e especificidade de 72% (área sob a curva de 0,80; intervalo de confiança, IC, de 95% de 0,72 a 0,87). O parto prematuro espontâneo muito precoce foi associado a um conjunto de 39 genes, resultando em um modelo com sensibilidade de 64% e especificidade de 80% (área sob a curva de 0,76; IC 95% de 0,63 a 0,87).

A caracterização dos dois perfis de ARN forneceu uma ideia dos processos biológicos subjacentes que conduzem ao parto prematuro. Os genes que predizem o parto prematuro espontâneo precoce são amplamente responsáveis pela degradação e remodelação da matriz extracelular, o que poderia, “em termos de mecanismo, refletir processos contínuos associados ao encurtamento cervical, uma característica frequentemente detectada algumas semanas antes do parto prematuro espontâneo”, escreveram os pesquisadores. Por outro lado, os genes associados ao parto prematuro espontâneo muito precoce estão ligados ao transporte do fator de crescimento semelhante à insulina, que promove o crescimento fetal e a placentação. Esses achados podem levar ao desenvolvimento de intervenções específicas para essas vias, sugeriram o Dr. Joan e colaboradores.

De acordo com a coautora Dra. Michal A. Elovitz, médica, professora distinta da cadeira Hilarie L. Morgan e Mitchell L. Morgan da disciplina de saúde da mulher na University of Pennsylvania, nos EUA, e consultora clínica chefe da Mirvie, a plataforma exclusiva de ARN vai além “de fatores clínicos não confiáveis e, às vezes, tendenciosos, como raça, índice de massa corporal (IMC) e idade materna” para oferecer uma “abordagem baseada em precisão para a saúde gestacional”.

A exclusão de fatores de risco tradicionais também “promete um cuidado mais equitativo do que o uso de amplos fatores sociodemográficos que muitas vezes resultam em viés”, acrescentou, observando que isso pode ajudar a abordar a maior taxa de complicações obstétricas entre pacientes negras.

Quando questionada sobre o potencial de resultados falso-positivos, considerando as taxas de especificidade relatadas de 72% a 80%, a Dra. Michal sugeriu que tais preocupações entre as gestantes são um “infeliz equívoco”.

“Isso não reflete o que as pacientes querem em relação ao conhecimento sobre a saúde de sua gestação”, disse ela em um comentário por escrito. “Em vez de serem deixadas às escuras, elas querem estar preparadas para o que está por vir na sua jornada gestacional.”

Para corroborar essa afirmação, a Dra. Michal citou um estudo recente com pacientes com pré-eclâmpsia e outros transtornos hipertensivos na gestação. Um questionário mostrou que elas apreciavam os modelos de risco gestacional na tomada de decisões e relataram que ficariam mais tranquilas se tais exames estivessem disponíveis.

A Dra. Laura Jelliffe-Pawlowski, Ph.D., da University of California San Francisco e da California Preterm Birth Initiative, nos EUA, concordou com o ponto de vista da Dra. Michal.

“Se você conversar com pacientes que tiveram um parto pré-termo, a maioria (mas não todas) dirá que elas gostariam de saber seu risco para que pudessem estar mais bem preparadas”, disse ela em um comentário por escrito. “Acho que precisamos mudar a narrativa para o empoderamento, longe do medo.”

A Dra. Laura, que detém uma patente para um outro exame que prevê parto prematuro, disse que a plataforma de ARN da Mirvie é “promissora”, embora tenha expressado preocupação de que a exclusão de pacientes com pré-eclâmpsia – representando aproximadamente 4% das gestações nos Estados Unidos – poderia obscurecer a precisão dos resultados.

“O que não está claro é como o exame funcionaria de forma mais geral quando uma amostra de todas as gestações fosse incluída”, disse ela. “Sem essa informação, é difícil comparar seus achados com outros modelos preditivos sem tais exclusões.”

Independentemente do modelo utilizado, a Dra. Laura disse que são necessárias mais pesquisas para determinar as melhores respostas clínicas quando o risco de parto prematuro espontâneo é elevado.

“Em última análise, queremos conectar ação com resultados”, disse ela. “Certo, então uma paciente tem alto risco de parto prematuro – e agora? Há muito potencial inexplorado quando nos concentramos nas pacientes que sabidamente têm uma alta probabilidade de parto prematuro.”

O estudo recebeu apoio da Mirvie, da Tommy's Charity e do National Institute for Health and Care Research (NIHR) Biomedical Research Centre (BRC). Os pesquisadores informaram relações financeiras com a Mirvie, inclusive participação societária e/ou direitos de propriedade intelectual. Os colaboradores da coorte foram remunerados pela coleta de amostras e/ou serviços de postagem. A Dra. Laura Jelliffe-Pawlowski tem uma patente para outro exame de sangue para previsão de parto prematuro. Suas pesquisas anteriores também contribuíram para a criação da plataforma de ARN em pauta.

Este conteúdo foi originalmente publicado em MDedge.com Medscape Professional Network.

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