Traços da personalidade podem prever declínio cognitivo?

Batya Swift Yasgur

Notificação

3 de maio de 2022

Traços de personalidade como extroversão e disciplina são associados a uma probabilidade mais baixa de declínio cognitivo no futuro em nova pesquisa. Por outro lado, os resultados indicam que o neuroticismo aumente essa chance.

Os pesquisadores analisaram dados de quase 2.000 participantes inscritos no Rush Memory and Aging Project (MAP), um estudo longitudinal com idosos que moram na região metropolitana de Chicago e no nordeste de Illinois (Estados Unidos), cujo recrutamento começou em 1997 e continua em andamento. Os participantes passaram por uma avaliação da personalidade e, anualmente, têm suas capacidades cognitivas avaliadas.

Os participantes com alta pontuação nas medidas de conscienciosidade tiveram uma probabilidade significativamente menor de evoluir da cognição normal para o comprometimento cognitivo leve durante o estudo. Na verdade, pontuar mais de um desvio padrão na escala de conscienciosidade foi associado a risco 22% menor de transição da ausência de comprometimento cognitivo para o comprometimento cognitivo leve. Por outro lado, pontuar mais de um desvio padrão na escala de neuroticismo foi associado a 12% de aumento do risco de transição para o comprometimento cognitivo leve.

Os participantes com alta pontuação na avaliação da extroversão, bem como os que tiveram pontuação alta na conscienciosidade ou baixa no neuroticismo, tenderam a preservar o funcionamento cognitivo normal por mais tempo do que os demais.

"As características da personalidade refletem padrões relativamente permanentes de pensamento e comportamento, o que pode cumulativamente influenciar o engajamento em comportamentos e padrões de pensamento saudáveis e deletérios ao longo da vida", afirmou a primeira autora, a médica Dra. Tomiko Yoneda, Ph.D., pós-doutoranda no Departamento de Ciências Médicas Sociais, Northwestern University, Estados Unidos.

"O acúmulo de experiências ao longo da vida pode, então, contribuir para a suscetibilidade a determinadas doenças ou transtornos, como comprometimento cognitivo leve, ou contribuir para diferenças específicas na capacidade de lidar com as alterações neurológicas relacionadas com a idade", acrescentou a pesquisadora.

O estudo foi publicado on-line em 11 de abril no periódico Journal of Personality and Social Psychology.

Fatores de risco modificáveis

Os traços da personalidade "refletem os padrões recorrentes de pensar, sentir e agir de uma pessoa", disse Dra. Tomiko.

"Por exemplo, a conscienciosidade é caraterizada por competência, senso de responsabilidade e disciplina, enquanto o neuroticismo é caraterizado por ansiedade, sintomas depressivos e instabilidade emocional. Da mesma forma, pessoas muito extrovertidas tendem a ser entusiasmadas, gregárias, loquazes e assertivas", acrescentou a pesquisadora.

Pesquisas anteriores "sugerem que baixa conscienciosidade e alto neuroticismo estejam associados a aumento do risco de comprometimento cognitivo", continuou. No entanto, "há também aumento do risco de morte na meia-idade, ou seja, esses desfechos são 'fatores de risco concorrentes’".

A Dra. Tomiko disse que sua equipe pretendia "examinar a influência dos traços de personalidade no risco simultâneo de transição para comprometimento cognitivo leve, demência e morte".

Para o estudo, os pesquisadores analisaram os dados de 1.954 participantes do Rush Memory and Aging Project (média de idade ao início do estudo de 80 anos; 73,7% do sexo feminino; 86,8% de brancos), que passaram por avaliação da personalidade e avaliações anuais de suas capacidades cognitivas.

Para avaliar as características de personalidade (em particular, conscienciosidade, neuroticismo e extroversão), os pesquisadores utilizaram o NEO Five Factor Inventory (NEO-FFI). Também utilizaram modelagem multiestados no contexto de dados da potencial associação entre esses traços e as transições de uma categoria de estado cognitivo para outra (ausência de comprometimento cognitivo, comprometimento cognitivo leve e demência) e para a morte.

Vida útil da cognição

Ao final do estudo, mais da metade dos participantes (54%) tinha morrido.

A maioria das transições mostrou "estabilidade relativa do estado cognitivo em diferentes ocasiões de avaliação".

  • Ausência de comprometimento cognitivo sem alteração (n = 7.368)

  • Comprometimento cognitivo leve sem alteração (n = 1.244)

  • Demência sem alteração (n = 876)

Houve 725 "transições retrógradas" de comprometimento cognitivo leve para a ausência de comprometimento cognitivo, que podem refletir melhora, variação pessoal do funcionamento cognitivo ou efeitos de aprendizado", observaram os autores.

Houve apenas 114 "transições retrógradas" da demência para comprometimento cognitivo leve e apenas 12 da demência para ausência de comprometimento cognitivo", sugerindo que a melhora do estado cognitivo seja relativamente rara, especialmente quando a pessoa evolui para a demência.

Após o ajuste por demografia, sinais e sintomas depressivos e alelo da apolipoproteína (APOE) ε4, os pesquisadores descobriram que os traços de personalidade foram os fatores mais importantes na transição da ausência de comprometimento cognitivo para comprometimento cognitivo leve.

Maior conscienciosidade foi associada a uma redução do risco de transição da ausência de comprometimento cognitivo para o comprometimento cognitivo leve (razão de risco [RR] 0,78; intervalo de confiança [IC] de 95% de 0,72 a 0,85). Por outro lado, maior grau de neuroticismo foi associado a aumento do risco de transição da ausência de comprometimento cognitivo para comprometimento cognitivo leve (RR: 1,12; IC 95% de 1,04 a 1,21) e a uma probabilidade significativamente menor de transição do comprometimento cognitivo leve para a ausência de comprometimento cognitivo (RR: 0,90; IC 95% de 0,81 a 1,00).

Fazer por volta de seis pontos em uma escala de 0 a 48 sobre conscienciosidade (ou seja, 1 desvio padrão da escala) foi significativamente associado a um risco cerca de 22% menor de transição da ausência de comprometimento cognitivo para comprometimento cognitivo leve, enquanto fazer aproximadamente sete pontos em uma escala de neuroticismo (1 desvio padrão) foi significativamente associado a um risco aproximadamente 12% maior de transição da ausência de comprometimento cognitivo para o comprometimento cognitivo leve.

Maior extroversão foi associada a maior probabilidade de transição do comprometimento cognitivo leve de volta para a ausência de comprometimento cognitivo (RR: 1,12; IC 95% de 1,03 a 1,22); e, embora a extroversão não tenha sido associada a um tempo de vida maior, os participantes que tiveram alta pontuação em extroversão, bem como aqueles que tiveram alta conscienciosidade ou baixo neuroticismo, mantiveram a função cognitiva normal por mais tempo do que os demais.

"Nossos resultados sugerem que a alta conscienciosidade e o baixo neuroticismo possam proteger as pessoas do comprometimento cognitivo leve", disse a autora.

Vale ressaltar que as pessoas com mais conscienciosidade, mais extrovertidas ou com menos neuroticismo tiveram mais anos de "vida útil da cognição", isto é, mais anos sem comprometimento cognitivo", acrescentou a Dra. Tomiko.

Além disso, "as pessoas com menos neuroticismo e mais extrovertidas foram mais propensas a se recuperar após um diagnóstico de comprometimento cognitivo leve, sugerindo que esses traços possam ser protetores mesmo depois de a pessoa ter iniciado a evolução para a demência", disse Dra. Tomiko.

Os autores observaram que o estudo se concentrou em apenas três dos cinco principais traços da personalidade, enquanto os outros dois (abertura a novas experiências e amabilidade) também podem estar associados a processos cognitivos de envelhecimento e morte.

No entanto, diante dos resultados atuais, junto com extensivas pesquisas no campo da personalidade visando aumentar a conscienciosidade por meio de mudanças comportamentais contínuas, é uma potencial estratégia para promover um envelhecimento cognitivo saudável, disse a pesquisadora.

"Janela inestimável"

Convidado a comentar o estudo para o Medscape, o Dr. Brent Roberts, Ph.D., professor de psicologia na University of Illinois Urbana-Champaign, nos EUA, disse que o estudo fornece uma "janela inestimável para como a personalidade influencia o processo de declínio ou o acelera, como no papel do neuroticismo, ou o desacelera, como no papel da conscienciosidade ".

"Acho que a descoberta mais fascinante foi o fato de a extroversão estar relacionada com a transição do comprometimento cognitivo leve de volta para a ausência de comprometimento cognitivo. Estes tipos de transição simplesmente não fizeram parte das pesquisas prévias, e trazem ideias e oportunidades totalmente únicas para intervenções que podem realmente ajudar as pessoas a se recuperarem de um declínio", disse o Dr. Brent, que não participou da pesquisa.

Também comentando para o Medscape, a Dra. Claire Sexton, Ph.D., diretora da Associação de Alzheimer de programas científicos e divulgação, disse que o artigo é "inovador" por ter investigado as transições entre a cognição normal e o comprometimento cognitivo leve, e entre o comprometimento cognitivo leve e a demência.

A Dra. Claire, que participou da equipe de pesquisa, chamou atenção para o fato de o estudo ser observacional, "de modo que pode esclarecer associações ou correlações, mas não causalidade. Como resultado, não podemos dizer com certeza quais são os mecanismos por trás dessas potenciais conexões entre a personalidade e a cognição, sendo necessário realizar mais pesquisas".

A pesquisa foi apoiada pelo Alzheimer Society Research Program, Social Sciences and Humanities Research Council e pelo National Institute on Aging do National Institutes of Health dos EUA. A Dra. Tomiko Yoneda e os coautores, o Dr. Brent Roberts e a Dr. Claire Sexton informaram não ter conflitos de interesses relevantes.

J Pers SOC Psychol. Publicado on-line em 11 de abril de 2022. Texto completo

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