COMENTÁRIO

4 linhas de atuação na medicina para refletir a respeito

Dra. Samanta Dall’Agnese

28 de abril de 2022

Colaboração Editorial

Medscape &

As notícias apontam que aproximadamente 3 a cada 10 profissionais da saúde têm intenção de desistir de suas carreiras. Os motivos são diversos, mas podemos apontar alguns dos principais: dificuldades na prática privada e perda de autonomia, aumento da demanda nos últimos anos, desgaste emocional, falta de equilíbrio entre vida pessoal e profissional, e sentimento de desvalorização do trabalho.

Também sabemos que o desapontamento com a profissão é acompanhado de queda na qualidade de vida e transtornos psiquiátricos, com números impactantes. Uma pesquisa realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em julho de 2020 apontou que 8,3% dos profissionais da saúde que atuavam na assistência a pacientes infectados pela covid-19 indicaram “sensação negativa do futuro/pensamento negativo, suicida” como a alteração mais comum em seu cotidiano, e 15,8% citaram “perturbação do sono”.

Porém, é fato que a medicina avançou muito na direção da digitalização e transformação digital na saúde, inclusive com o surgimento de novas carreiras, como abordado no artigo sobre novas carreiras em saúde publicado em 14 de abril no Medscape em português. Se combinado com a voz ativa do médico, este movimento pode devolver à profissão o protagonismo na área da saúde, pois a perspectiva deste profissional sobre as reais dificuldades do cotidiano e seu impulso por gerar impactos na saúde das pessoas são únicos.

Para expandir a nossa visão sobre a carreira médica, trago abaixo quatro grandes cenários de atuação médica e as principais características de cada um. É válido dizer que não são excludentes, e que trabalhos ainda mais específicos podem ser criados dentro de cada área.

1. Atuação médica tradicional

Apesar de este ser o grande foco do nosso aprendizado na faculdade de medicina, existem inúmeras decisões que o médico precisa tomar para exercer a sua profissão – e a sensação, muitas vezes, é de que elas só aumentam.

A primeira decisão é seguir um caminho de especialização ou não. Em caso positivo, a próxima escolha diz respeito à especialização ou residência: com qual a pessoa mais se identifica? Para esta decisão, vários fatores devem ser considerados, como o grau de interação com os pacientes e a preferência por área cirúrgica ou clínica.

Depois disso, vem a escolha do ambiente de trabalho: montar consultório, atuar em hospital, trabalhar em um coworking?

Igualmente importante é o conhecimento financeiro mínimo, como planejamento de fluxo de caixa e impostos a serem recolhidos. Afinal de contas, sua atuação, seja no consultório ou num hospital, deve ser encarada como sua empresa, sua fonte de renda.

O relacionamento com os colegas e saber como atrair e se relacionar com os pacientes são responsabilidades também indispensáveis.

A boa notícia é que as novas tecnologias têm ajudado a reduzir as tarefas repetitivas e burocráticas, levando a mudanças no dia a dia e nas prioridades do profissional da saúde. E talvez a mudança que mais cause impacto para o médico hoje seja exercer sua atividade, ainda que parcialmente, no mundo digital, usando serviços em nuvem que se conectam e permitem que o profissional estabeleça o relacionamento com o paciente por meio da telemedicina, inclusive com uso de dispositivos médicos para exame físico e monitoramento remoto, como relógios e sensores. Isso tem sido também chamado de concierge médico. Outra área que deve crescer muito em atuação no mundo digital é o médico das áreas básicas da medicina ou de Saúde da Família.

2. Pesquisa ou consultoria técnica em startups

Nesta categoria, podemos incluir tanto os profissionais que escolhem a pesquisa acadêmico-científica, trilhando caminhos como mestrado e doutorado, como os que trabalham em projetos na indústria farmacêutica, empresas de biotecnologia ou ainda em organizações dedicadas à pesquisa clínica, as chamadas Contract Research Organizations (CRO). Menos tradicional, a carreira de consultoria técnica em startups tem crescido e merece ser destacada pelo mercado bastante promissor.

Ambos são cargos que exigem muito conhecimento técnico: saber como se posicionar no mercado e buscar os melhores cursos para se atualizar é um grande diferencial para o profissional que escolhe essa linha.

3. Empreendedorismo

O médico que escolhe essa carreira desbrava cenários para os quais muitas vezes não existe preparação. Para isso, uma das definições mais importantes que ele precisa ter é onde mais contribui e qual pode ser sua participação na empresa. Pode ser que o médico contribua principalmente com seu conhecimento técnico. Ainda assim, seja fazendo parte de um time ou fundando sua própria empresa, essa escolha vai exigir que busque um conhecimento amplo em variadas questões como as trabalhistas, tributárias e financeiras, para não se ver num pesadelo.

O valor do médico nestas empresas tem sido cada vez mais reconhecido, pois aporta a experiência do cotidiano de um profissional da saúde e dos seus pacientes.

É importante lembrar que nem tudo é sucesso e, muitas vezes, os melhores empreendedores são aqueles que já falharam em experiências anteriores.

4. Administração ou coordenação de pesquisa em grandes empresas

Esta carreira pode ser considerada mais tradicional em outras profissões. Existem aqui vários ramos de atuação, que vão desde clínicas, hospitais, planos de saúde até órgãos do governo. Aliás, a administração ou coordenação de pesquisa em grandes empresas é outra área para a qual os profissionais de saúde têm sido cada vez mais solicitados, por sua vivência na área e conhecimento dos reais problemas do segmento.

Para ter visibilidade, fazer bons relacionamentos e ter uma apresentação muito boa são fatores indispensáveis. Capacitar-se para o ambiente corporativo por meio de estágios, pequenos projetos, bem como de cursos profissionalizantes (p. ex.: pós-graduação em gestão ou MBA) também é válido.

Além disso, conversar com colegas que já fizeram este movimento na carreira pode trazer valiosas lições de aprendizado e dicas práticas de como trilhar o caminho com maior facilidade. Afinal, o mais importante é a experiência (learn by doing).

Num mundo em constante evolução, ter curiosidade para explorar novas possibilidades pode ser uma grande vantagem. Sem contar que, independentemente da escolha a ser feita, analisar tendências de mercado em relação à profissão é um movimento prudente e uma forma de planejar o futuro. Fazer pesquisas, entrevistas e mesmo vivenciar por um tempo outras formas de exercer a profissão é saudável e evita criar expectativas desalinhadas da realidade. Outro ponto importante é o autoconhecimento, já que é a partir dele que se pode fazer escolhas mais assertivas para alcançar a carreira desejada.

A Dra. Samanta Dall’Agnese é graduada em medicina pela UFPR e já atuou junto a alguns dos maiores servidores de saúde do país. É VP de Inteligência Clínica na Prontmed.

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