Do inglês médico ao português: alopecia areata

Dra. Carla Vorsatz

Notificação

27 de abril de 2022

Esta é a terceira publicação de trechos inéditos do “Dicionário de dúvidas e dificuldades da tradução do inglês médico para o português”, da Dra. Carla Vorsatz, cujo lançamento está previsto para 14 de maio de 2022. Isto significa que chegamos à metade do caminho: serão apenas mais três artigos inéditos antes do lançamento do dicionário. Aproveite.

Conheça a obra

Mais conhecido como “Libro rojo”, o “Diccionario de dudas y dificultades de traducción del inglés médico” foi concebido e elaborado pelo consagrado lexicógrafo, farmacologista e tradutor médico, Dr. Fernando A. Navarro. A primeira edição foi publicada em 2000 (editora McGraw-Hill Interamericana) como livro físico e, em 2015, o dicionário foi disponibilizado no site Cosnautas – Essential resources for medical translators and writers , passando a ser exclusivamente digital.

Agora, a Dra. Carla Vorsatz, médica com especialização em doenças infecciosas e parasitárias, graduada e pós-graduada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), tradutora médica e CEO da XSTZ | Medical Texts , traz a versão brasileira da obra, com a tradução das entradas originais do “Libro Rojo” e o acréscimo de termos regionais específicos. O texto foi adaptado pela autora à realidade da prática e, claro, da linguagem médica no Brasil .

Referência para a tradução médica em todos os países de língua espanhola, o “Diccionario de dudas y dificultades de traducción del inglés médico” é um precioso recurso para estudantes de medicina e médicos que se interessam pela linguagem médica. A obra contempla desde termos extremamente técnicos até problemáticas cotidianas na vida do médico e, sobretudo, do tradutor médico.

Hoje, o trecho inédito compartilhado aqui no Medscape em português fala sobre terminologia dermatológica, o tema é alopecia areata .

Quadro A4 [alopecia areata]

O labirinto terminológico da alopecia areata

Este latinismo coloca importantes problemas para o tradutor:

  • 1. A situação atual em inglês

A nomenclatura da alopecia areata é confusa em inglês. Em relação às três fases tradicionais desta doença, alguns autores falam de alopecia circumscripta (ou simplesmente alopecia areata)para se referir à fase inicial, com placas delimitadas e bem definidas de alopecia; alopecia totalis, para se referir à fase de alopecia total do couro cabeludo (porém com conservação do pelo nas pestanas, nas sobrancelhas, na barba, no oco axilar, na região púbica e no resto do corpo); e alopecia universalis, para se referir à fase da alopecia total de todas as zonas pilosas do corpo. Outros autores, provavelmente para reforçar a unidade essencial de todo o processo patológico, preferem chamar estas três fases de alopecia areata circumscripta (ou patchy alopecia areata), alopecia areata totalis e alopecia areata universalis, respectivamente.

  • 2. A situação atual em português

Em português, à confusão original do inglês acrescentamos a confusão derivada de decalcar no português a terminologia inglesa sem atentar para os problemas de tradução.

  1. Os dermatologistas que fazem o calco da primeira classificação inglesa e traduzem alopecia circumscripta por "alopecia circunscrita", alopecia totalis por "alopecia total" e alopecia universalis por "alopecia universal", esquecem um fato importantíssimo: que os dermatologistas de língua inglesa diferenciam claramente entre circumscript alopecia (qualquer alopecia que acometa uma região limitada do couro cabeludo; p. ex.: pseudopelada de Brocq, tricotilomania, alopecia cicatricial secundária ao líquen, etc.) e alopecia circumscripta (forma circunscrita da alopecia areata); entre total alopecia (em referência à atriquia congênita ou outras causas de alopecia total do couro cabeludo) e alopecia totalis (alopecia total do couro cabeludo como evolução da alopecia areata); e entre universal alopecia (qualquer alopecia corporal total) e alopecia universalis (alopecia corporal total como evolução da alopecia areata). Se, como é habitual inclusive nos tratados de dermatologia mais prestigiados traduzidos do inglês, tanto total alopecia como alopecia totalis são traduzidos para o português como "alopecia total", é fácil imaginar a confusão reinante no nosso idioma.

  2. Porém, se optarmos por fazer o decalque da segunda classificação inglesa e traduzirmos alopecia areata circumscripta (ou patchy alopecia areata) por "alopecia areata circunscrita" (ou "alopecia areata em placas"); alopecia areata totalis, por "alopecia areata total" e alopecia areata universalis por "alopecia areata universal", incorremos em uma terminologia incongruente. E isso porque, em português, não é possível associar dois adjetivos mutuamente excludentes, como "areata" e "total" ou "areata" e "universal" (chamar uma alopecia total do couro cabeludo que começou de forma circunscrita de "alopecia areata total" seria algo assim como dizer *infecção localizada generalizada* de uma sepse cujo foco inicial foi um furúnculo perinasal).

A isso se deve acrescentar os problemas derivados de decalcar os adjetivos totalis e universalis, utilizados em inglês para diferenciar as duas variantes mais avançadas de alopecia areata. Em português, não pode haver uma alopecia mais extensa que a "total" (adjetivo este definido no dicionário Aulete, por exemplo, como: "Que abrange todos os elementos ou partes de um todo; COMPLETO; INTEIRO"). Este problema deriva diretamente de uma dificuldade peculiar do inglês: sua incapacidade de diferenciar entre hair no sentido de "cabelo", hair no sentido de "penugem" e hair no sentido de "pelo", que em português diferenciamos sem a menor dificuldade (→ hair). Dado que nosso adjetivo "capilar" faz referência exclusivamente aos cabelos, ou pelos da cabeça, e nosso adjetivo "piloso" faz referência a todos os pelos do corpo, englobando tanto a penugem como o cabelo, parece claro que não teríamos grande necessidade de sair buscando equivalentes esdrúxulos para traduzir esse totalis e universalis do inglês.

  • 3. Possíveis soluções

A melhor maneira de resolver todos estes problemas passa, do nosso ponto de vista, pela recuperação do galicismo "pelada" (muito usado até poucos anos em dermatologia, porém hoje em franco retrocesso diante da pressão do inglês). Dado que o vocábulo "pelada" não pressupõe em si nenhuma limitação de extensão, seria perfeitamente factível utilizar "pelada" simplesmente em sentido genérico para traduzir o inglês alopecia areata (em sentido amplo), e recorrer a qualificativos claros e descritivos para descrever suas três formas principais de evolução: "pelada circunscrita" para traduzir o inglês alopecia circumscripta (ou patchy alopecia areata); "pelada total do couro cabeludo" ou "pelada capilar total", para traduzir o inglês alopecia totalis (ou alopecia areata totalis) e "pelada corporal total" ou "pelada pilosa total" para traduzir o inglês alopecia universalis (ou alopecia areata universalis).

A única coisa que falta agora é convencer os médicos e dermatologistas a usarem esta terminologia. Porque a verdade é que, devido à pressão do inglês, os dermatologistas de língua portuguesa usam predominantemente os decalques *alopecia areata* (ou *alopecia areata em placas*), *alopecia total* (ou *alopecia areata total*) e *alopecia universal* (ou *alopecia areata universal*), apesar dos problemas comentados nos parágrafos anteriores.

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