Temas mais buscados em abril de 2022: Psicodélicos

Ryan Syrek

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22 de abril de 2022

Ao final de cada semana nós identificamos o tema mais buscado no site do Medscape, procuramos compreender o que motivou a tendência e então compartilhamos um breve resumo sobre o tema acompanhado de um infográfico. Dúvidas ou sugestões? Entre em contato conosco pelo Twitter ou pelo Facebook

Pesquisas sobre como os psicodélicos causam alterações na consciência, e estudos examinando o uso dessas drogas para tratar várias doenças psiquiátricas, resultaram no tema mais buscado da semana. Um novo estudo examinou alterações em sistemas específicos de neurotransmissores e regiões cerebrais que podem ser responsáveis por várias experiências associadas a uma "viagem" psicodélica (veja o infográfico).

Os pesquisadores utilizaram o aprendizado por máquina para ligar experiências psicodélicas a 40 subtipos diferentes de neurotransmissores, provavelmente induzidos por essas drogas. "Drogas alucinógenas podem muito bem se tornar a próxima grande coisa para melhorar o atendimento clínico das principais doenças mentais", disse em um comunicado de imprensa o autor sênior, Dr. Danilo Bzdok, Ph.D., médico w professor associado da McGill University no Canadá. Ele acrescentou: "Nosso estudo fornece um primeiro passo, uma prova de princípio, que podemos ter a capacidade de construir sistemas de aprendizagem automática no futuro que possam prever com precisão quais combinações de receptores de neurotransmissores precisam ser estimuladas para induzir um estado específico de experiência consciente em uma determinada pessoa".

Esta pesquisa é apenas parte de um conjunto de provas cada vez maior que procura separar o fato clínico da ficção em relação aos psicodélicos. Por exemplo, um estudo recente explorou a crença comum de que o uso de drogas pode deflagar pensamentos ou atos suicidas ou outros tipos de autoagressão. A metanálise descobriu que o tratamento com psicodélicos foi na verdade associado a diminuições grandes, imediatas e sustentadas da suicidalidade em uma casuística de pacientes clínicos. A análise foi feita com sete ensaios clínicos de tratamento com psicodélicoa. Cinco foram feitos com psilocibina e psicoterapia e dois usaram ayahuasca e psicoterapia. Todos os ensaios clínicos tiveram "baixo” risco de viés. Os resultados da metanálise mostraram reduções significativas na suicidalidade imediata (80 a 240 minutos após a administração) e na maioria dos momentos não imediatos (um dia a quatro meses após a administração).

Em termos de psicodélicos específicos, novas pesquisas examinaram as tomografias cerebrais de quase 60 pacientes com depressão refratária tratados com psilocibina. Foram avaliados dois estudos. O primeiro foi um ensaio clínico aberto de psilocibina oral. Os pacientes tiveram avaliação clínica básica e fizeram ressonância magnética funcional em repouso, seguida de dias de administração de tratamento com psilocibina de dose fixa "baixa" (10 mg) e "alta" (25 mg), com intervalos de uma semana. A modularidade da rede cerebral foi significativamente reduzida um dia após o tratamento com psilocibina em 10 dos 16 participantes. Este resultado implica aumento da conectividade funcional entre as principais redes intrínsecas cerebrais. A mudança da modularidade antes e depois do tratamento se correlacionou significativamente com a variação na pontuação do Beck Depression Inventory (BDI) aos seis meses, em relação ao início do estudo. Os resultados significam que a diminuição da modularidade cerebral um dia após o tratamento com a psilocibina se relaciona com melhora em longo prazo da gravidade dos sintomas.

O segundo estudo foi um ensaio clínico duplo-cego, controlado, randomizado de fase 2 comparando a psilocibina ao escitalopram. Os pacientes receberam 2 × 25 mg de psilocibina oral com três semanas de intervalo, mais seis semanas de placebo diário ("braço da psilocibina") ou 2 × 1 mg de psilocibina oral com três semanas de intervalo, mais seis semanas de escitalopram diário (10 a 20 mg) ("braço do escitalopram"). A ressonância magnética funcional foi registrada no início e três semanas após a segunda dose de psilocibina. Em média, as reduções da gravidade dos sintomas depressivos medidas pelo BDI foram significativamente maiores com a psilocibina do que com o escitalopram, indicando eficácia superior. 

Os efeitos da psilocibina sobre a depressão parecem ser duradouros, de acordo com outro estudo. Efeitos antidepressivos significativos podem durar pelo menos um ano em alguns pacientes com transtorno depressivo maior. O estudo foi feito com 24 adultos que preencheram critérios de um episódio moderado a grave de transtorno depressivo maior, definido como pontuação de 17 ou mais pela escala GRID-Hamilton Depression Rating Scale (GRID-HAMD). Após seis a oito horas de reuniões preparatórias, os participantes receberam duas doses de psilocibina nas proporções de 20 mg/70 kg e 30 mg/70 kg com aproximadamente duas semanas de intervalo. Para a maioria dos participantes, a pontuação pela GRID-HAMD diminuiu de 22,8 ao início do estudo para 8,7 na 1ª semana, 8,9 na 4ª semana, 9,3 em três meses, 7,0 em seis meses e 7,7 em 12 meses após o tratamento.

Dada a promessa do psilocibina, do MDMA e de outros psicodélicos para o tratamento de vários distúrbios psiquiátricos, é necessário fazer outras pesquisas sobre a forma como estas drogas interagem com os medicamentos psiquiátricos tradicionais. Uma revisão que examina essas interações encontrou 40 estudos que datam de 1958, incluindo 26 estudos randomizados controlados, 11 relatos de casos e três estudos epidemiológicos. Apenas um ensaio clínico randomizado avaliou a interação entre a psilocibina e o tratamento psiquiátrico mais comum, os inibidores seletivos de recaptação da serotonina. Alguns especialistas estão preocupados que a ausência de evidências sobre as interações medicamentosas possa levar os médicos à retirada gradual dos medicamentos psiquiátricos tradicionais antes do início do tratamento com a psilocibina.

À medida que os médicos que tratam de pacientes com doença psiquiátrica consideram a utilização de psicodélicos, questões cruciais devem ser respondidas. Isso explica por que achados recentes sobre os mecanismos e a eficácia das drogas foram recebidos com tamanho interesse, levando ao tema mais buscado da semana.

Leia mais sobre o uso de alucinógenos.

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