Espiritualidade e medicina: uma dupla surpreendente

Andrea Goto

Notificação

20 de abril de 2022

O Dr. Ben Frush, estava no terceiro ano da faculdade de medicina na University of North Carolina quando as conversas com seus mentores sobre a interseção da teologia e do exercício da medicina o deixaram sem respostas.

Como cristão, ele concluiu que precisava de mais tempo e espaço para pensar em como as próprias crenças o moldavam como médico. Decidiu, então, trancar a matrícula da faculdade de medicina durante um ano e entrar para a Theology, Medicine, and Culture Initiative at Duke Divinity School.

"Os médicos são ensinados implicitamente e de modo consideravelmente intenso que há uma nítida divisão entre o pessoal e o social", disse o Dr. Ben para o Medscape. "E se você tiver crenças pessoais, deixe-as na porta quando ao colocar seu jaleco branco."

O Dr. Ben acha que esse pensamento convencional é reducionista; sua intuição moral o levou à medicina porque era uma maneira de servir os outros e cuidar deles em situações de vulnerabilidade e doença. Além disso, não acredita que a fé, a identidade ou a tradição devam ser deixadas à porta.

Dr. Ben Frush

"Desde a Divinity School, tenho reforçado minha ideia de que a fé pode permitir uma vida profissional mais gratificante e enriquecedora", disse o Dr. Ben, atualmente residente de pediatria clínica no Vanderbilt University Medical Center nos Estados Unidos. "Acredito também muito firmemente que, de alguma forma tangível, isso nos permite cuidar melhor dos pacientes."

Existem dados para corroborar as crenças do Dr. Ben. Um estudo de 2021 descobriu que estudantes de medicina que se consideram praticantes ativos de sua religião, independentemente da sua denominação, podem ter menor risco de estafa. E de acordo com uma revisão dos estudos sobre espiritualidade e medicina, "o comprometimento religioso e a espiritualidade estão associados a melhores resultados na saúde, como maior longevidade, capacidade de enfrentamento e qualidade de vida relacionada com a saúde (mesmo durante a doença terminal) e menos ansiedade, depressão e suicídio".

Junte esses achados com o fato de que 65,2% dos médicos informam que acreditam em Deus; 51,2% se consideram religiosos e 24,8% espiritualizados; e 83% dos pacientes na verdade querem que os médicos perguntem sobre suas crenças espirituais, ao menos em algumas circunstâncias, e isso nos faz pensar por que a saúde espiritual não é tratada como um componente essencial da integralidade da saúde das pessoas.

Religião vs. espiritualidade

O médico Dr. Howard Koh, ex-secretário adjunto de saúde nos Estados Unidos no governo Obama, falou e publicou prolixamente sobre o tema da medicina e da espiritualidade. O Dr. Howard admite que muitas pessoas se decepcionam ao ouvir a palavra religião, e é por isso que o médico ressalta a importância de entrar na conversa com uma compreensão mais ampla do que se entende por espiritualidade. O autor indica uma definição de espiritualidade que engloba "sentido, propósito e transcendência absolutos em relação ao significativo ou sagrado".

Dr. Howard Koh

 

"As pessoas descobrem o que é significativo ou lhes traz um sentido de propósito ou conexões ao significativo e sagrado de suas próprias maneiras – de inúmeras maneiras", disse o Dr. Howard ao Medscape. "Às vezes é formalmente através de comunidades religiosas, mas muitas vezes é informalmente, através de profundas ligações com a família ou os amigos, ou até mesmo com a natureza ou a música."

O Dr. Howard, professor de Practice of Public Health Leadership da Harvard T.H. Chan School of Public Health e da Harvard Kennedy School, explica que a saúde, a religião e a espiritualidade fazem parte do que significa ser humano para muita gente. "Mas com o tempo, a maneira como as pessoas têm sido atendidas se estilhaçou de tal modo que atualmente a maioria dos médicos simplesmente ignora a dimensão da espiritualidade ao tratar dos pacientes, ou ao considerar o que a saúde realmente significa, ou mesmo quando consideram sua própria saúde", disse o professor.  

O Dr. Howard prevê que, a partir de agora, muito mais atenção será dada à saúde, à espiritualidade e à religião, em parte porque a pandemia fez com que as pessoas enfrentassem uma série de questões existenciais.

"Durante o tempo da covid-19, questões de significado e propósito foram realmente cruciais e centrais para muitas pessoas e estes são temas muito importantes", disse o médico. Com tantos médicos se preparando para se aposentar nos próximos cinco anos por exaustão pelo trabalho durante a covid-19, o Dr. Howard se pergunta se aqueles que entendem de onde vem o seu próprio apoio espiritual podem ser reenergizados mais rapidamente, ou se se sentem revitalizados, ou encontram mais sentido de apoio do que outros que podem não ter isso como um sustentáculo.

O Dr. Ben é transparente no sentido de que, embora suas crenças sejam a estrutura que orienta a sua vida, não pensa que alguém deva ter uma atitude predadora diante da vulnerabilidade de um paciente ou tentar fazer proselitismo. Nem acredita que um médico jamais deva fazer algo contrário ao que é melhor para o paciente, mesmo que sua fé ou religião o incite a fazê-lo – mas é nisso que muitas vezes as conversas sobre fé e medicina se transformam.

"Tudo parece levar a orar com pacientes, discutir o abortamento e outras questões controversas", disse o Dr. Ben. "E embora algumas dessas conversas sejam certamente importantes, o que é muito mais fundamental para mim é o que significa praticar a medicina sendo cristão. Como isso influencia o modo de se relacionar com os pacientes?"

O Dr. Ben explica como sua fé o ajuda a cuidar de pacientes difíceis, especialmente quando está esgotado após um longo plantão noturno. "Eu tenho falhado nisto muitas vezes", admite o médico, "mas se eu tiver minha mente clara, eu dou um passo para trás e penso sobre o capítulo 24 no qual Mateus relata que Jesus disse, 'o que você fez ao menor destes você o fez a mim’, falando especificamente sobre visitar pessoas que estão doentes e nas prisões”.

O Dr. Ben acredita que dedicar um momento para refletir sobre as implicações dessa história previne que cometa erros médicos do julgamento que poderiam acontecer se tirasse conclusões precipitadas com base nos estereótipos dos pacientes. "Os pacientes se beneficiarão se eu puder dar um passo para trás e dizer, 'como eu trato bem este paciente apesar de todas essas barreiras, tanto sistêmicas quanto decorrentes de fazer um plantão noturno?’"

A faculdade de medicina deve falar de espiritualidade?

Assim como o Dr. Ben, o Dr. Howard fala sobre como a igreja o incentivou a "viver uma vida com propósito e serviço”. Enquanto frequentava a Yale College e a Yale University School of Medicine, ele lembra de ir escutar o Rev. William Sloane Coffin, o capelão da época, pregar aos domingos. O Rev. William lembrava aos estudantes de medicina, que estavam soterrados em uma montanha de fatos, de que precisavam trabalhar todos os dias com intenção e propósito. O Dr. Howard recorda: "Ele se levantava e dizia, 'OK, você tem de se perguntar não só o que está fazendo, mas por que está fazendo isso. Qual é o objetivo aqui?’"

O Dr. Howard e o Rev. William foram amigos até perto da morte do reverendo em 2006 – uma amizade à qual o médico atribui ter moldado sua bem-sucedida carreira como médico, referência de saúde pública e professor. "A forma peculiar como o Rev. William articulou esses princípios básicos me orientou por toda a vida", disse o Dr. Howard.

O Dr. Ben e o Dr. Howard conseguiram encontrar a orientação espiritual que procuravam, mas muitos estudantes de medicina podem não conseguir. Enquanto 80% das faculdades de medicina dos EUA oferecem capacitação em espiritualidade, a maioria dos alunos não faz a matéria por ser eletiva. Existe uma amplificação da atenção no modelo biopsicossocial-espiritual ao avaliar as necessidades do paciente, mas a interseção da fé com o exercício da medicina é amplamente negligenciada. 

"Os estudantes não são ensinados a pensar com os parâmetros de suas próprias crenças ou espiritualidade e como isso determina sua forma de tratar", disse o Dr. Ben. "Os estudantes devem refletir sobre a diferença que o fato de serem judeus, muçulmanos, budistas, humanistas seculares, ou qualquer tradição de fé, faz na sua profissão. O que diz essa tradição sobre o que significa tratar dos pacientes?"

A médica Dra. Katy Moretz, neurologista pediátrica no Memorial Health, Savannah nos EUA, não acha que esse tipo de capacitação seja de fato necessário na faculdade de medicina. Dra. Katy teve uma criação presbiteriana, frequentou uma escola católica e é membro de uma igreja (embora não frequente há alguns anos), mas não se considera "muito religiosa" e admite não pensar muito sobre como a fé pode influenciar o seu trabalho.

"Minhas crenças não têm nada a ver com como trato meus pacientes", disse a médica. Como muitos médicos, a Dra. Katy nunca iria impor sua religião a ninguém. E, embora ela não pergunte sobre a espiritualidade de seus pacientes em seu consultório, a médica procura indicações de que a fé de um paciente possa ser importante e responde a isso.

"Se o assunto religião vier à tona, geralmente estaremos no hospital em uma situação crítica", disse a médica. "Surgiu algumas vezes quando eu dei plantão na neurologia de adultos e estava tentando ajudar as famílias a ter paz no processo de tomada de decisão de fim de vida". A Dra. Katy admite que às vezes dizer "agora está nas mãos de Deus" pode tirar o fardo de seus ombros. "É uma atitude de reconforto", disse a médica.

Espiritualidade como parte do paciente como um todo

Mas há também evidências de que muitos pacientes querem que o médico pergunte sobre as suas crenças religiosas , e fazer isso pode influenciar de modo positivo a relação entre o médico e o paciente.  

Debbie Stremler, 59 anos, disse que nunca nenhum médico perguntou sobre sua espiritualidade, mas que isso teria tido um impacto real – primeiro, como uma mulher jovem viciada em drogas e, segundo, como uma paciente enfrentando um quadro terminal.

Depois de algumas temporadas em aproximadamente 18 centros de tratamento, Debbie acabou parando de usar drogas. "Deus mudou tudo para mim", disse ela. Mulher de profunda fé, Debbie superou várias questões clínicas ao longo de sua vida adulta até ser internada no hospital há dois meses com dispneia. Os médicos a diagnosticaram com doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC ) e determinaram que a situação era muito grave. Disseram aos seus filhos adultos que ela poderia ter apenas três meses de vida.

Debbie ficou surpresa por nenhum de seus médicos perguntar sobre sua fé ou espiritualidade, dado que é uma parte óbvia de sua identidade. "Você não podia me conhecer e não saber que eu era crente", disse ela com uma risada. Quando perguntada se achava que teria feito diferença, Debbie respondeu: "Eu teria sido tão receptiva. Eu teria amado isso. Mas, na verdade, vivemos em um mundo espiritualmente muito confuso."

Debbie acha sua história de saúde tristemente irônica. "Quando me viciei e procurava opiáceos, eu precisava da mesma coisa dos meus médicos que eu preciso hoje", disse ela, "ou seja, que eles conversarem comigo sobre a saúde da minha alma". Ela reconheceu que isso exigirá que alguns médicos entrem em um novo território e tenham conversas nas quais possam se sentir desconfortáveis. "Mas no final, acho que os médicos vão achar que é mais confortável", disse Debbie. "Porque, em última análise, eles estão lidando com almas, não apenas com um corpo humano com braços e pernas."

A opinião de Debbie sobre a importância da espiritualidade ecoa as palavras do Rev. William anos antes – palavras que o Dr. Howard cita ainda hoje. "Ele diria: 'Os médicos não devem tratar um paciente como um anexo pouco interessante a uma doença interessante'", lembra o Dr. Howard. "Cada paciente pode lhe dizer o quanto se sente absolutamente desumanizado pelo sistema de saúde quando o médico está preocupado com sua doença e não com ele. Valorizando a sua alma, suas preocupações sobre quem são e como isso vai influenciar o seu bem-estar no sentido mais amplo".

É por isso que Debbie disse que quando uma instituição de longa permanência de um hospital religioso veio à sua casa, "Deus entrou". Os trabalhadores da instituição perguntaram sobre sua espiritualidade e se ela tinha alguma dúvida sobre a vida ou a morte. "Eles estão vulneráveis de uma maneira que um médico regular em um ambiente médico não está", disse Debbie. "Até que estejamos dispostos a ficar vulneráveis uns com os outros, continuaremos doentes".

Debbie acredita plenamente que sua fé e saúde estão conectadas, e que Deus e sua família da igreja têm um impacto profundo no seu bem-estar e na qualidade de sua experiência de fim de vida. "Eu acredito que as pessoas que têm fé se saem melhor", disse ela.

Embora a experiência de Debbie seja informal, o Dr. Howard acredita que uma pesquisa mais robusta sobre a fé e a medicina pode ser o catalisador necessário para alçar a discussão fora da conversa informal.

Em 2013, o médico Dr. Michael Balboni, Ph.D., a médica Dra. Tracy Balboni e o Dr. Tyler VanderWeele, Ph.D., lançaram a iniciativa interdisciplinar Initiative on Health, Spirituality and Religion da Harvard University', da qual o Dr. Howard é codiretor.

Segundo o site da universidade, "a iniciativa visa ser um catalisador de pesquisas para um modelo integrado de espiritualidade, saúde pública e atendimento aos pacientes, que fomente a colaboração entre a Harvard University e o diálogo com as comunidades espirituais". O programa está orientado em torno da questão: "Como a religião e a espiritualidade podem, em conjunto com a saúde pública e a prática da medicina, aliviar a doença e promover o bem-estar humano?" Os cofundadores e os membros da equipe já realizaram vários estudos e publicaram vários artigos com base nessa questão, motivando o interesse.

Por exemplo, um estudo identifica uma forte ligação entre a frequência regular dos serviços religiosos e os resultados positivos na saúde. "Quando o Dr. Tyler e colaboradores publicaram esse estudo, fez muito barulho", disse o Dr. Howard. "Não foi baseado em dados informais. Foi baseado em um estudo. Isto tem o melhor da ciência para corroborá-lo."

Respondendo à pergunta levantada por seu artigo "Espiritualidade e medicina combinam?", o casal de autores Michael e Tracy Balboni conclui dizendo "devemos seguir as evidências". E com cada vez mais pesquisas empíricas confirmando o que muitas pessoas de fé têm experimentado informalmente, é claramente digno de conversa e investigação mais aprofundada.

"No mínimo, estas são as questões que são extremamente importantes para a grande maioria dos pacientes", disse o Dr. Howard, "e se você quer ser um bom médico, que realmente trata o seu paciente da melhor maneira possível, você tem de estar ciente disso".

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