Há um exame mais rápido e mais barato para o diagnóstico de esclerose múltipla?

Pauline Anderson

Notificação

20 de abril de 2022

A dosagem da concentração de cadeias leves livres do tipo capa (do grego kappa) das imunoglobulinas no líquor pode ser uma opção válida para o diagnóstico de esclerose múltipla, sugere nova pesquisa.

Os resultados mostraram que, quando comparado com o exame tradicional, que detecta bandas oligoclonais no líquor, o exame de dosagem de cadeias capa apresentou uma eficácia similar, mas foi bem mais fácil de realizar no laboratório, além de mais barato e com resultados mais rápidos.

"Queremos que os médicos se sintam confortáveis com esse exame", disse ao Medscape a pesquisadora Dra. Maria Willrich, diretora dos laboratórios de imunologia no Departamento de Medicina Laboratorial e Patologia da Mayo Clinic, nos Estados Unidos.

Entretanto, mudar a prática clínica é um "desafio", visto que o exame de dosagem de cadeias capa ainda é muito novo, disse a Dra. Maria. "Estamos tentando instruir os neurologistas para eles compreenderem como o exame funciona", ela acrescentou.

Os achados foram publicados na edição de abril do periódico Mayo Clinic Proceedings.

Um teste antigo que dá muito trabalho 

A esclerose múltipla desencadeia um ataque do sistema imunitário contra o revestimento que protege as fibras nervosas, causando a interrupção dos sinais elétricos entre o cérebro e a medula espinhal, e podendo levar a comprometimento permanente dos nervos.

A doença é tipicamente diagnosticada através do exame de bandas oligoclonais, com a presença de duas ou mais bandas sendo considerada um resultado positivo para esclerose múltipla, relatou a Dra. Maria.

Ela acrescentou que, ao longo dos anos, o exame de bandas oligoclonais esteve "dentro e fora" dos critérios de McDonald, que são as diretrizes para análise dos dados clínicos, radiográficos e laboratoriais utilizados no diagnóstico de esclerose múltipla. O exame foi incluído novamente como parte dos critérios de McDonald na atualização mais recente, em 2017.

Entretanto, o exame requer cerca de quatro horas de processamento e análise, é trabalhoso, e, além disso, exige uma interpretação visual subjetiva feita por tecnólogos treinados, observou a Dra. Maria.

"Vemos uma grande variação entre as leituras. Por exemplo, uma pessoa pode contar oito bandas e outra contar 10 bandas e uma terceira, 12 bandas", ela disse.

Atualmente, apenas cerca de 100 laboratórios nos Estados Unidos realizam o exame de bandas oligoclonais. Além disso, com a pandemia de covid-19, os laboratórios estão sofrendo com falta de funcionários e uma grande demanda, causando um aumento no tempo de entrega dos resultados, disse a Dra. Maria.

Isso pode significar uma demora para que os pacientes e médicos tenham a confirmação ou a exclusão do diagnóstico de esclerose múltipla.

A dosagem de cadeias capa no líquor pode ser uma alternativa, observou a Dra. Maria. A cadeia capa é uma das duas cadeias leves presentes nos anticorpos, que também são constituídos por duas cadeias pesadas de imunoglobulinas.

Em vez de se dosar o anticorpo inteiro, como é feito no exame de bandas oligoclonais, utilizando o exame de cadeias capa "estamos dosando apenas uma fração desse anticorpo, ou seja, a concentração da cadeia leve capa no líquor”, disse a Dra. Maria.

Resultados mais rápidos e mais baratos 

O estudo em questão incluiu mais de 1.300 pacientes. Desses, 12% foram diagnosticados com esclerose múltipla. Os pesquisadores dividiram esses indivíduos em dois grupos.

Em uma coorte retrospectiva de 702 indivíduos, ambos os exames (análise de bandas oligoclonais e de cadeias leves capa no líquor) foram realizados.

Os resultados mostraram que um nível ≥ 0,1 mg/dL de cadeias leves capa no líquor teve sensibilidade de 68,2% e especificidade de 86,1% na detecção de pacientes com esclerose múltipla, o que não foi significativamente diferente da sensibilidade e especificidade para detectar duas bandas oligoclonais (75,0% e 87,6%, respectivamente; P > 0,08).

Em uma coorte prospectiva de 657 indivíduos, os pesquisadores validaram o valor de corte de 0,1 mg/dL encontrado na coorte retrospectiva.

"Nessa segunda coorte, os exames tiveram exatamente o mesmo desempenho, ou seja, encontramos o mesmo número de resultados positivos para esclerose múltipla nos dois exames", sem diferença estatística, disse a Dra. Maria.

Em uma análise separada sobre custos, as "taxas de reembolso ao Medicare em 2018 (ou seja, o custo para o segurado) foram utilizadas como valores de referência para o custo padronizado para o exame de bandas oligoclonais (27,39 dólares) e o exame de dosagem de cadeias leves capa no líquor (16,79 dólares)”, de acordo com os pesquisadores.

O custo total para todos os membros desse subgrupo para o exame de bandas oligoclonais, que "tradicionalmente" seria o único exame realizado, foi de 36.784,77 dólares.

Um "algoritmo reflexo" mostrou que 73% dos pacientes nesse grupo precisaram apenas do exame de cadeias capa e 27% precisaram de ambos os exames, o que resultou em custo total de 32.575,49 dólares. Isso representou "uma redução relativa do custo para o plano de saúde em aproximadamente 11%", escreveram os pesquisadores.

Além disso, estimativas mostraram que o tempo médio de entrega dos resultados foi de quatro horas para o exame de bandas oligoclonais contra 20 minutos para o exame de cadeias leves capa no líquor.

A Dra. Maria disse que espera que os resultados do estudo levem à consideração do exame de cadeias leves capa no líquor, para que seja incluído nos critérios de McDonald para o diagnóstico da esclerose múltipla como uma alternativa ao exame de bandas oligoclonais.

‘Zona cinzenta’ no diagnóstico da esclerose múltipla 

Comentando sobre o estudo para o Medscape, o médico Dr. Shaheen E. Lakhan, Ph.D., neurologista nos Estados Unidos, disse que a validação do exame de cadeias capa é uma boa notícia.

"Nós, neurologistas, muitas vezes nos deparamos com uma zona cinzenta quando consideramos a esclerose múltipla, portanto, exames mais objetivos e com melhor custo-efetividade são muito bem-vindos”, disse o médico, que não participou do estudo.

"Tenho solicitado mais pesquisas que utilizem grandes conjuntos de dados, como os prontuários eletrônicos, para gerar insights que levem a atitudes, e desafiem os exames 'padrão-ouro' na avaliação da saúde cerebral”, ele disse.

No entanto, os neurologistas "tendem a ficar" com os critérios de McDonald para o diagnóstico da esclerose múltipla e a introdução de terapias modificadoras da doença, observou o Dr. Shaheen.

Até o exame de cadeias capa ser incorporado aos critérios "formais", ele segue como "um complemento útil ao diagnóstico”, ele acrescentou.

O estudo foi parcialmente financiado pelo Departamento de Medicina Laboratorial e Patologia da Mayo Clinic. Os pesquisadores e o Dr. Shaheen informaram não ter conflitos de interesses. 

Mayo Clin Proc. Abril de 2022; 97:738-751. Artigo completo

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