Estatinas ligadas à redução do risco de parkinsonismo

Megan Brooks

Notificação

19 de abril de 2022

As estatinas podem proteger contra o parkinsonismo relacionado à idade, sugere uma nova pesquisa.

Um estudo observacional mostrou que idosos em uso de estatinas apresentaram um risco de parkinsonismo menor do que aqueles que não tomavam tais medicamentos, um efeito que pode ser mediado, em parte, pela aterosclerose intracraniana menos grave em pacientes que tomam estatinas.

"Esses achados respaldam a ideia de que as doenças cardiovasculares que ocorrem em cérebros mais velhos podem contribuir para a incidência considerável de parkinsonismo na velhice, o que não era reconhecido até então”, escreveram os pesquisadores.

"Mais importante ainda, esses achados sugerem que as estatinas tenham um potencial papel terapêutico de reduzir a intensidade do parkinsonismo em idosos", acrescentaram.

O estudo foi publicado on-line em 23 de março no periódico Neurology.

Sem recomendações clínicas... por enquanto

Os achados baseiam-se em dados de 2.841 adultos recrutados em um de três estudos clínico-patológicos em andamento no Rush  Alzheimer's Disease  Center, nos Estados Unidos.

A média de idade dos participantes no início do estudo era de 76 anos e 75% deles eram mulheres. Nenhum deles apresentava parkinsonismo no começo do estudo. Um terço dos pacientes (n = 936) estava tomando estatinas.

Durante um período médio de seis anos de acompanhamento, 1.432 (50%) participantes tiveram parkinsonismo.

Após realizado o controle para fatores demográficos, fatores de risco vasculares e outras doenças, o uso de estatina no início do estudo foi associado a uma redução de 16% no risco de parkinsonismo (razão de risco, RR, de 0,84; intervalo de confiança, IC, de 95% de 0,74 a 0,96; P = 0,008).

Comparado com o tratamento com estatinas em baixas doses, o uso de estatinas em doses moderadas ou altas foi associado a uma redução de 7% no risco de parkinsonismo (RR de 0,93; IC 95% de 0,87 a 1,00; P = 0,043).

Os pesquisadores também avaliaram o cérebro de 1.044 pessoas que morreram durante o estudo com uma média de idade de 89 anos e descobriram que o uso de estatina antes do óbito foi associado a uma redução de 37% nas chances de ter aterosclerose cerebral quando comparado com não usar estatina antes do óbito (razão de chances, RC, de 0,63; IC 95% de 0,50 a 0,79; P < 0,001).

Em uma análise de mediação, tanto uma via direta (RC de 0,73; IC 95% de 0,54 a 0,93; P = 0,008) quanto uma indireta (RC de 0,92; IC 95% de 0,88 a 0,97; P = 0,002), por meio de doença cerebrovascular menos grave, associaram as estatinas ao parkinsonismo, indicando que a aterosclerose cerebral foi responsável por 17% da associação entre as estatinas e o parkinsonismo.

Em consonância com outros estudos, não houve associação entre estatinas e outras doenças neurodegenerativas, inclusive a doença de Parkinson. Entretanto, mesmo idosos com diagnóstico clínico de Parkinson frequentemente apresentam doenças cerebrais sobrepostas, como patologias cerebrovasculares.

"Portanto, acreditamos que as estatinas possam ser benéficas contra o parkinsonismo em pacientes com a doença de Parkinson dependendo da quantidade de doenças cerebrovasculares, inclusive a aterosclerose, que esses pacientes apresentam", disse ao Medscape o pesquisador do estudo, o médico Dr. Shahram Oveisgharan, do Rush Alzheimer's Disease Center, no Rush University Medical Center, nos Estados Unidos.

Todavia, como os resultados se originaram de um estudo observacional, "ainda não recomendamos o uso de estatinas em larga escala para idosos com risco de parkinsonismo", disse o Dr. Shahram.

Um cenário confuso

Solicitado a comentar o estudo, o médico Dr. Shaheen Lakhan, neurologista nos Estados Unidos, observou que desde que as estatinas foram descobertas em um caldo fermentado de fungos de solo comuns no final dos anos 70, foi comprovado que elas conseguem reduzir o colesterol, as doenças cardíacas e o AVC.

"O questionamento atual, no entanto, é sobre os seus efeitos sobre doenças como demência, doenças autoimunes/inflamatórias, infecções bacterianas/virais, câncer e parkinsonismo", disse o médico ao Medscape.

"Além disso, permanece a dúvida sobre se qualquer benefício obtido através das estatinas seria devido à redução do colesterol ou por outro mecanismo. Quando existe um cenário tão confuso, geralmente significa que o medicamento tem sim um efeito, porém não em todos os pacientes", disse o Dr. Shaheem.

"Muito trabalho ainda deve ser feito para estratificar em quais pacientes as estatinas são eficazes, ineficazes ou até mesmo prejudiciais nessas condições", acrescentou.

O estudo foi apoiado pelo National Institutes of Health. O Dr. Shahram Oveisgharan e o Dr. Shaheem Lakhan informaram não ter conflitos de interesses.

Neurology. Publicado on-line em 23 de março de 2022.  Abstract

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