Fibromialgia juvenil pode estar associada a alterações cerebrais

Carmen Espinosa

Notificação

19 de abril de 2022

A fibromialgia juvenil está associada a uma redução volumétrica em uma região específica do cérebro, de acordo com um estudo recente. Os achados foram similares aos constatados em pacientes adultos com fibromialgia, sugerindo a importância do diagnóstico e tratamento precoces.

O estudo foi publicado on-line em 25 de janeiro no periódico Arthritis and Rheumatology.

O desenvolvimento do cérebro adolescente 

A fibromialgia juvenil é caracterizada por dor musculoesquelética crônica difusa que leva a fadiga, distúrbios do sono e transtornos de humor, sendo que todas essas alterações causam um impacto considerável sobre o desempenho acadêmico e as atividades sociais dos adolescentes. Essa é uma doença muito desafiadora quando se trata de diagnóstico, sendo que o início dos sintomas ocorre em um período crítico do desenvolvimento cerebral.

Em um estudo conduzido pelo Pain and Emotion Neuroscience Laboratory (PENLab) na Facultat de Medicina i Ciències de la Salut e no Institut de Neurociències da Universitat de Barcelona, na Espanha, pesquisadores analisaram as alterações cerebrais associadas à fibromialgia juvenil. Esse estudo representa um marco, pois pela primeira vez os pesquisadores examinaram essas alterações.

Os pesquisadores recrutaram 34 meninas adolescentes com fibromialgia juvenil e 38 meninas saudáveis para o estudo. Todas as participantes fizeram ressonância magnética de crânio e receberam uma série de questionários para avaliar o nível de dificuldade que apresentavam para realizar suas atividades diárias. Utilizando essas informações, a equipe responsável pelo estudo analisou diferentes regiões do cérebro para determinar se o volume de substância cinzenta era maior ou menor nas pacientes com fibromialgia quando comparadas com as adolescentes sem a doença. Os pesquisadores também analisaram se as alterações cerebrais poderiam ser responsáveis pelo grau de dor, de fadiga e de deficiência funcional relatado pelas pacientes.

Redução da substância cinzenta 

"Descobrimos que a redução no volume da substância cinzenta no córtex cingulado médio anterior era uma característica comum no grupo de meninas com fibromialgia juvenil”, disse a primeira autora, a Dra. Marina López-Solà, PhD, professora assistente no Departamento de Anestesia da University of Cincinnati, nos Estados Unidos. "Essa região cerebral está tipicamente associada ao processamento da dor aguda. Esse achado pode estar relacionado à ativação excessiva de circuitos cerebrais nociceptivos e sugere uma reorganização desses circuitos. Além disso, a presença dessa alteração em meninas e mulheres com fibromialgia sugere haver uma conexão entre as formas juvenil e adulta da doença."

O estudo também descobriu que nas participantes afetadas mais intensamente pela doença e mais sintomáticas, houve um aumento de volume de substância cinzenta em regiões frontais ligadas ao processamento de informações afetivas, de autorreferência e de linguagem. "Embora sejam necessárias novas pesquisas para confirmar tais alterações, aparentemente elas podem refletir uma alteração no desenvolvimento dos circuitos cerebrais envolvidos na avaliação e regulação emocionais, além do processamento narrativo e de linguagem”, disse a Dra. Maria Suñol, PhD, pesquisadora pós-doutoranda na Universitat de Barcelona, na Espanha.

A dor e o cérebro 

Nas últimas duas décadas houve um crescimento exponencial das pesquisas com uso de neuroimagem para estudar a fibromialgia em adultos. Atualmente, há evidências robustas de que os sintomas de dor crônica estão relacionados a alterações envolvendo diversos circuitos cerebrais e domínios funcionais que vão além daqueles tipicamente associados ao processamento nociceptivo. "Por exemplo, em estudos anteriores, nosso grupo descobriu que mulheres adultas apresentaram alterações no processamento de estímulos sensoriais não dolorosos (quando confrontadas com ruídos altos ou imagens brilhantes com alto contraste) ou em regiões que processam emoções ou pensamentos autorreferentes”, disse a Dra. Marina.

A Dra. Marina e a Dra. Maria não podem afirmar com certeza se essas alterações são a causa ou a consequência da fibromialgia. Elas acreditam ser necessários mais estudos longitudinais com o acompanhamento das pacientes, assim como estudos com indivíduos assintomáticos com alto risco de ter a doença. "Se queremos saber as causas fisiopatológicas da fibromialgia, é essencial que observemos como a doença afeta pessoas jovens recém-diagnosticadas assintomáticas que ainda não receberam tratamento farmacológico de longo prazo”, disse a Dra. Marina. "Com relação às alterações cerebrais, vimos que, exceto por uma redução no volume da substância cinzenta no córtex cingulado médio anterior, sintomas como fadiga ou dificuldade na realização de tarefas diárias estão relacionados a alterações na região frontal inferior. Em outras palavras, sintomas diferentes parecem estar associados com circuitos cerebrais diferentes."

As médicas relataram que estão trabalhando para analisar como o cérebro dessas pacientes respondem a estímulos estressores específicos, como dor causada por pressão, estimulação multissensorial não dolorosa e opiniões sobre o seu próprio jeito de ser. "Dessa forma, esperamos entender melhor como a atividade cerebral pode estar alterada na fibromialgia juvenil."

Já se sabe há alguns anos que existe uma relação entre a fibromialgia e um funcionamento anormal do sistema nervoso central. Esse fato parece já estar bem estabelecido no caso da fibromialgia em adultos. Será que essa relação também seria verdadeira no caso da fibromialgia juvenil? Na opinião da Dra. Maria, "os resultados desse estudo sugerem que mesmo em meninas recém-diagnosticadas, existem alterações na estrutura cerebral, independentemente de há quanto tempo essas pacientes vêm apresentando sintomas. Além disso, descobrimos que algumas dessas alterações observadas em meninas com fibromialgia juvenil correspondem, de forma precisa, às observadas em mulheres adultas com a mesma doença, de acordo com metanálises prévias. Essas alterações observadas nesses dois grupos estão localizadas nas mesmas regiões: o córtex cingulado médio anterior e o córtex cingulado posterior, regiões relacionadas à dor, memória autobiográfica e mentalização, sendo esta última definida como a habilidade de entender o próprio estado mental ou o estado mental de outros".

Um diagnóstico desafiador 

A avaliação da fibromialgia é desafiadora, pois não existem exames laboratoriais definitivos e específicos para se diagnosticar a doença. Quando se trata de compreender as complexidades clínicas da fibromialgia, os médicos devem antes de tudo observar os sinais e sintomas do paciente. "Com essa abordagem, no entanto, talvez o médico não consiga ter uma visão geral do que está realmente acontecendo”, disse a Dra. Maria. "E como resultado, o paciente pode acabar recebendo tratamentos que não são tão efetivos. Além disso, existem questionamentos sobre se poderia ser feito um diagnóstico clínico da fibromialgia juvenil, visto que algumas vezes os sintomas são vistos apenas como sinais de ansiedade ou depressão."

Os protocolos atualizados de 2020 da Sociedad Española de Reumatología Pediátrica fornecem um conjunto de critérios diagnósticos para a fibromialgia juvenil. Alguns dos critérios determinantes são dor generalizada em pelo menos três regiões do corpo por mais de três meses, ausência de uma doença ou causa subjacente que possa explicar os sinais e sintomas, exames laboratoriais sem alterações e dor em pelo menos 5 dos 18 pontos dolorosos à pressão da fibromialgia. "Portanto, o primeiro passo é a realização de exames para podermos descartar outras doenças ou causas que poderiam explicar os sinais e sintomas. Uma vez excluídas outras possibilidades, um reumatologista especializado em fibromialgia juvenil deve ser consultado para a realização de um diagnóstico”, disse a Dra. Marina. Ela continuou dizendo que, "apesar de haver setores de reumatologia com equipes atualizadas sobre esta doença, a sobrecarga de casos no contexto da atenção primária em alguns momentos impede que esses médicos realizem a abordagem especializada que os pacientes necessitam para o tratamento. Ainda hoje existe um estigma associado ao diagnóstico de fibromialgia juvenil. Dessa forma, quando olhamos para as pesquisas, acreditamos que elas podem ter um papel fundamental em demonstrar que a fibromialgia está associada a alterações neurofisiológicas específicas".

Com relação à utilização desses achados na prática clínica, a Dra. Maria comentou que "eles reforçam a necessidade de se combinar terapias sensoriais específicas para dor com terapias que visem promover uma regulação cognitiva da dor e das narrativas negativas, e potencialmente dominantes, que os pacientes têm de si próprios". Entretanto, como este foi o primeiro estudo a analisar as alterações cerebrais associadas à fibromialgia juvenil, "é impossível traduzir os resultados diretamente para a prática clínica. Para isso, o cérebro dessas pacientes teriam de ser analisados a partir de diferentes perspectivas, examinando não somente a estrutura, mas também o funcionamento cerebral tanto em repouso quanto durante momentos de estímulos dolorosos, cognitivos e emocionais. De forma similar, para se tirar conclusões robustas, é necessário replicar os nossos resultados em amostras com mais pacientes e com maior diversidade em termos de etnicidade, cultura e status socioeconômico".

Por fim, a Dra. Marina observou: "Já demos um primeiro passo muito importante, porém sabemos que só ele não é suficiente. É por isso que estamos extremamente motivados em continuar nessa direção, especialmente no desenvolvimento de biomarcadores para a doença e na classificação de subtipos de pacientes, o que poderia ser útil tanto na detecção quanto no tratamento da fibromialgia de forma mais personalizada."

Arthritis Rheumatol. Publicado on-line em 25 de janeiro de 2022. Abstract

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