Sanções e boicotes comprometem assistência médica na Rússia

Alexandra Borissova

Notificação

15 de abril de 2022

Em resposta à invasão russa da Ucrânia, empresas internacionais e associações profissionais, inclusive da área médica, tomaram diversas medidas para suspender suas relações com a Rússia. Embora a intenção dessas atitudes possa ter sido pressionar o regime do presidente russo Vladimir Putin, também estão tendo efeitos significativos no atendimento médico prestado aos pacientes.

Excluídos da ciência global

A atmosfera atual está a anos-luz do que era um mês atrás, quando médicos russos ainda participavam de pesquisas internacionais e ensaios clínicos. Eles participavam de colaborações internacionais e se sentiam parte integrante da comunidade médica global.

"É muito doloroso ver como as sociedades profissionais pausaram as colaborações com médicos russos", disse a médica Dra. Polina Shilo, oncologista na Luch Klinika e diretora de residência da Vysshaya Shkola Onkologii em São Petesburgo, na Rússia.

“Foram necessários anos e anos para que nós, médicos dedicados, construíssemos essas colaborações. Os colegas internacionais aprenderam sobre nós, viram que somos pessoas normais que falam inglês, que há medicina e ciência médica de boa qualidade na Rússia. Sentíamos que finalmente éramos uma parte da comunidade, mas agora isso acabou. As colaborações foram interrompidas, mesmo aquelas para as quais já haviam sido concedidos subsídios e o trabalho clínico já havia começado, e não há nada que a gente possa fazer a respeito. É mais difícil para nós publicarmos nossos trabalhos em periódicos internacionais revisados por pares. Muitos deles cobram taxas muito altas para nós com a nova taxa de câmbio e, além disso, ainda temos de descobrir como fazer o pagamento, pois nossos cartões bancários pararam de funcionar. O mesmo ocorre em relação à assinatura de conteúdos estrangeiros.”

“Penso que certamente haverá dificuldade em comparecer a conferências e eventos com pesquisa científica conjunta”, disse um médico anônimo de uma clínica particular. “A medicina internacional fala inglês, e nós acabamos de começar a ‘tocar’ nesse mundo, a introduzir a medicina baseada em evidências. Bloquear o acesso à informação apenas diminuirá os padrões emergentes do sistema de saúde. Sem cartões de crédito internacionais, não conseguimos pagar por bancos de dados internacionais, como, por exemplo, o UpToDate. Estágios, subsídios e intercâmbios podem deixar de estar disponíveis para os nossos médicos. E tudo isso irá apenas levar ao velho padrão de ensino baseado na opinião de especialistas, o que para a ciência médica moderna representa o nível mais baixo de evidência.”

Diagnósticos por imagem e odontologia

Métodos modernos de diagnóstico por imagem são os primeiros itens em risco, visto que o maquinário e os suprimentos necessários para tomografia computadorizada (TC), ressonância magnética (RM), tomografia por emissão de pósitrons (PET), entre outros métodos de exame sofisticados, dependem de componentes internacionais que são difíceis de serem obtidos, especialmente de forma rápida.

“Para dar um exemplo, o filme radiográfico que nós utilizamos para a mamografia é produzido apenas na Bélgica”, disse um médico anônimo de uma clínica universitária em uma grande cidade. “Atualmente, temos apenas três caixas restantes no departamento. Isso é o suficiente para 100 mulheres, mas precisamos de milhares e milhares. Isso significa que o rastreamento para câncer de mama não será realizado este ano. Nosso tomógrafo foi produzido na Rússia, mas é como um carro: uma base produzida aqui, porém montada com peças dos Estados Unidos ou do Japão. O período de garantia já expirou. Um tubo de raios X custava cerca de 10 milhões de rublos um ano atrás, o que já era uma quantia insustentável para um hospital. Nós precisávamos de uma segunda sala de tomografia para a avaliação de casos de acidente vascular cerebral (AVC), e esperávamos fazer tê-la até o verão [na Rússia]. Não irá acontecer mais.”

Ele continuou: “O sistema de saúde pública russo funciona através de um seguro de saúde obrigatório. O valor deste seguro era calculado com base no preço de determinados medicamentos e outros suprimentos médicos. Antes havia tarifas favoráveis e não tão favoráveis. Todo mundo tentava ter pacientes com doenças ‘vantajosas’. Agora, isso não vai mais existir.”

“Com relação aos equipamentos, eu espero que não desapareçam completamente", disse o chefe do Departamento de Radiologia de um grande hospital privado em Moscou. "Começaremos a comprar alguns itens de segunda mão via outros países ou utilizar equivalentes chineses. Talvez algo do mercado negro. Porém outro problema é o suporte técnico e os serviços. Por enquanto, tudo indica que os contratos previamente assinados não foram cancelados, contudo, mais cedo ou mais tarde esse mercado também irá entrar em colapso.”

As mesmas preocupações se estendem a praticamente todas as áreas da odontologia e ortodontia modernas de alta tecnologia. “Nesse exato momento, não sentimos essas mudanças drásticas, mas elas virão assim que acabarem os estoques de aparatos médicos, medicamentos e componentes (e isso vai acontecer, independentemente da decisão de banir a exportação de fornecedores que anunciaram sanções)", disse um dentista anônimo de Moscou.

"Os fornecedores de equipamentos de alta tecnologia já aumentaram os preços dos aparelhos médicos. Como resultado, a disponibilidade de métodos de tratamento e diagnóstico tecnológicos de alta qualidade para os nossos pacientes cairá vertiginosamente. Dessa forma, o país verá um aumento das doenças crônicas, dos estágios avançados de câncer e de outras doenças que poderiam ser diagnosticadas e tratadas em estágios iniciais. Essa deterioração na qualidade dos tratamentos irá resultar em aumento do número de reclamações e processos judiciais contra médicos, no fardo dos profissionais de saúde, o que inevitavelmente levará muitos especialistas altamente qualificados a abandonarem seus empregos."

Ele continuou: "Efetivamente, é um golpe duplo, por assim dizer: um aumento no preço em rublos dos medicamentos, produtos e serviços, além da desativação gradual de tomógrafos, unidades odontológicas etc. Quem foi mais esperto fez estoque de material (anestésicos, implantes dentários, material de preenchimento, suprimentos ortopédicos etc.). Isso será suficiente para cerca de seis meses, depois veremos o que vai acontecer."

Fornecedores estrangeiros parecem um tanto relutantes, mesmo com relação aos acordos feitos com clientes russos antes da guerra. "Não é segredo que a nossa indústria não produz o necessário para uma odontologia moderna de alto nível", disse um dentista anônimo de São Petesburgo. "E é horrível o que está acontecendo agora. Por exemplo, a Invisalign® nos informou post factum que não mais entregará seus produtos na Rússia. Eles culpam o serviço de entregas, a UPS, mas a responsabilidade é deles. Os aparelhos ortodônticos já haviam sido encomendados, produzidos, faturados e pagos, e agora eles dizem que tudo que ainda não foi enviado irá permanecer nos depósitos da empresa, no México. Estamos no escuro. Os pacientes nos fazem perguntas e não sabemos o que responder. Isso prejudica a saúde de pessoas inocentes, prejudica a nossa reputação, é tudo terrível."

Preços dos medicamentos disparam

Medicamentos, aparelhos e equipamentos médicos são considerados necessários por razões humanitárias e estão excluídos das sanções. Mesmo assim, diversas empresas tomaram medidas independentemente das sanções.

A farmacêutica estadunidense Eli Lilly and Company disse que irá enviar medicamentos para doenças como câncer e diabetes, que constituem emergências médicas. A empresa está suspendendo as vendas de "medicamentos não essenciais", além de todos os investimentos e promoções. Também não iniciará nenhum novo ensaio clínico na Rússia.

"Ensaios clínicos internacionais estão atualmente suspensos na Rússia", disse a Dra. Polina. "Essa era uma das formas de os nossos pacientes conseguirem diagnóstico e tratamento com medicamentos experimentais, ou a melhor terapia disponível, de graça, e para os médicos ganharem alguma renda adicional para complementar os seus salários modestos. A maior parte das empresas cita problemas de logística e frete, visto que os serviços de entrega pararam de funcionar na Rússia, mas, na verdade, por enquanto, nenhum paciente novo está sendo recrutado [para ensaios]. Para alguns pacientes, fazer parte de um ensaio clínico é o último recurso. Para outros, é uma forma importante de diminuir o impacto financeiro."

Entre as empresas que estão limitando suas operações na Rússia estão: Novartis, AbbVie, Johnson & Johnson, Pfizer e Bayer. Muitas anunciaram que os lucros obtidos no mercado russo serão dedicados ao apoio à Ucrânia.

"Apesar de as farmacêuticas ainda não terem anunciado a redução de suas atividades na Rússia (embora haja chamadas para isso em diversos níveis e plataformas, incluindo, infelizmente, o Medscape), há várias razões para uma possível, embora temporária, falta de certos medicamentos", disse o Dr. Alexey Vodovozov, médico em Moscou e editor-chefe da revista Russian Pharmacies.

"Em primeiro lugar, dificuldades logísticas. Todas as principais cadeias produtivas foram interrompidas, e levará tempo para encontrar alternativas aceitáveis. Segundo, flutuações na taxa de câmbio do rublo causam problemas com acordos de reconhecimento mútuo, revisão de listas de preços e aumento dos preços. E não necessariamente pelos fabricantes. Os distribuidores foram os primeiros a agir, e a partir daí as farmácias foram forçadas a mudar os seus preços. Terceiro, rumores de pânico difundidos em redes sociais e a reação usual dos cidadãos em estocar medicamentos ao primeiro sinal de dificuldade. Nesse exato momento, está muito difícil encontrar ibuprofeno, anlodipino, ácido valproico e insulina nas farmácias locais, apesar de que, aparentemente, as reposições de estoque [desses fármacos] não foram interrompidas. Medicações análogas e genéricas têm ajudado, por enquanto. Está claro que em algum momento a situação irá melhorar e estabilizar em algum novo patamar, mas tanto médicos quanto pacientes ficarão bastante preocupados até que isso ocorra."

"Atualmente, tratamentos importados para pacientes oncológicos ainda estão em estoque, comprados com uma cotação de cerca de 60 rublos por euro", disse o médico Ilya Fomintsev, oncologista e diretor-executivo da Cancer Prevention Foundation em São Petesburgo. "Mas vão acabar bem rápido, em cerca de um mês. As próximas compras serão feitas com uma cotação de aproximadamente 160 rublos por euro, o que significa triplicar o custo de um tratamento que já é caro. Isso faz com que o tratamento se torne completamente inacessível para os pacientes, exceto para aqueles que pagam do próprio bolso."

Ele continuou: "Ontem eu conversei com um patologista. Os reagentes e as lâminas para imuno-histoquímica despareceram, então provavelmente teremos de voltar à hematoxilina-eosina. Nem todos os jovens sabem realizar esse método, e estão certos, é como utilizar percussão e estetoscópio na era da TC e da RM."

"Aparentemente, as empresas internacionais irão deixar o nosso mercado", disse a Dra. Polina. "É muito triste, porém não espero um colapso completo do mercado de medicações oncológicas. Existem análogos russos que não são tão ruins quanto se imagina."

Crise humanitária

"Eu perdi o senso de utilidade", disse um radiologista anônimo de Moscou. "Medicina não se resume a medicações e instrumentos. É um desejo de fazer o seu trabalho de forma adequada, de se desenvolver, de crescer. Esse desejo de crescer é embasado pelo entendimento de que as pessoas necessitam daquilo que você faz. É exatamente esse sentimento que desapareceu totalmente esses dias. Imagine um chefe em um restaurante muito bom cujo negócio está sofrendo por alguma razão que está fora do seu controle. As pessoas dizem para ele: vamos lá, não fique triste, as pessoas ainda querem comer. É claro, você pode alimentar pessoas com cachorros-quentes e curá-las com casca de carvalho. Mas isso te desmotiva de uma forma terrível. No último ano, quatro funcionários meus emigraram, é difícil de aguentar."

"Para mim, é muito importante difundir uma simples ideia: a indústria farmacêutica é mais farmácia do que indústria", disse a Dra. Polina. "Se todos deixarem a Rússia, nossos pacientes estarão de fato em apuros. Nós não temos uma indústria que possa suprir as necessidades, por exemplo, da oncologia. E mesmo se houver alguma coisa, ainda não conseguiríamos produzir todo o necessário devido às restrições de patentes. No fim das contas tudo isso só aumenta a dor e o sofrimento, o que é o total oposto ao humanismo."

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