COMENTÁRIO

Novas carreiras em saúde: 5 tendências para observar de perto

Dra. Samanta Dall´Agnese

14 de abril de 2022

Colaboração Editorial

Medscape &

É certo que a medicina e a profissão médica passaram por grandes transformações recentes. Essas mudanças refletem grandes tendências no mercado da saúde, que devemos observar com atenção ao pensarmos em qual carreira seguir.

A seguir, veja algumas das mais significativas.

Centralização do cuidado do paciente

O enfoque é cada vez maior no cuidado individualizado e preventivo. Existe uma grande tendência de direcionamento de recursos para a saúde primária, o que promete reduzir custos e aumentar o acesso à saúde. E essa centralização se dá principalmente por meios digitais, como aplicativos, e com o auxílio de dados consolidados da saúde do paciente, que permitem fazer análises diversas do risco de adoecimento. Além disso, incentiva maior autonomia ao paciente no seu tratamento.

Genética e estudos científicos

O avanço tecnológico e democratização de testes genéticos permitirão cada vez mais tratamentos personalizados. A evolução científica também significa um maior número de terapias, sejam medicamentos, terapia genética ou dispositivos que necessitam ser submetidos a estudos de validação.

Nova gestão da saúde e movimentos de mercado

Hoje existe mais profissionalismo na gestão da saúde, que caminha junto com movimentos de consolidação de empresas e instituições de saúde, criando grandes grupos de hospitais e empresas verticalizadas.

Dados e inteligência

Existe um caminho sem volta na melhor utilização dos dados gerados a respeito da saúde de uma população para uma tomada de decisões mais assertiva e melhor uso de recursos. Também tem aumentado o número de ferramentas de Inteligência Artificial no convívio do profissional e do paciente, auxiliando em diferentes etapas do atendimento.

Algo que todas essas tendências têm em comum é que a maior responsabilidade do profissional passa a ser, cada vez mais, a de lidar com pessoas. E aí um grande destaque são as habilidades mais ligadas à gestão emocional, que ajudam nos desafios de comunicação e de relacionamento.

No seu livro intitulado "21 Lições para o Século 21", o escritor israelense Yuval Noah Harari já apontava para uma tendência futura dos profissionais ligados a atividades essencialmente humanas, em que a empatia, ética e a comunicação são fundamentais e terão cada vez mais destaque.

5 tendências do mercado da saúde

Veja a seguir uma lista com grandes tendências do mercado de trabalho da saúde para os próximos anos.

1. O concierge digital

O concierge é o médico que realiza diversas atividades no cuidado do paciente, desde o atendimento e acolhimento das necessidades até o planejamento e coordenação do cuidado.

O profissional também presta apoio aos familiares e faz o elo com outros profissionais que estejam envolvidos no cuidado. Isso inclui direcionar o paciente para determinada especialidade ou tratamento, promover discussão do caso com outros colegas e acompanhá-lo durante uma internação, por exemplo. O concierge pode atuar em vários níveis de complexidade, desde casos ambulatoriais até hospitalares e home care.

A existência de plataformas de gestão do cuidado e sensores que o paciente pode utilizar para o registro de dados vitais facilita que esse processo seja feito de forma digital. Eles permitem acompanhar variadas métricas como dados vitais, qualidade do sono, calorias ingeridas e outros parâmetros médicos.

Para pacientes crônicos ou em casos de grande complexidade, o acompanhamento em tempo real permite que o tratamento seja feito fora das grandes instituições, com benefícios ao paciente e seus familiares. Ao mesmo tempo que o cuidado é individualizado, existe uma melhor utilização dos recursos médicos e eliminação de desperdícios.

2. Genética e biotecnologia

A possibilidade de atuação na área é vasta, indo do aconselhamento genético ao desenvolvimento de novas terapias e sua validação por meio de pesquisas clínicas.

Dado o maior número de recursos, técnicas e equipamentos disponíveis hoje em dia, um papel que tem ganhado destaque é a figura do consultor, que mapeia reais necessidades do mercado da saúde, com médicos e instituições, para que recursos de desenvolvimento sejam mais bem direcionados para áreas ou doenças de maior impacto.

3. Ciência de dados, Inteligência Artificial e uso de sensores

O número de áreas de atuação onde o cientista de dados pode atuar é vasto. Podemos citar algumas das mais importantes: radiologia, desenvolvimento de novos medicamentos, genética e diagnóstico preditivo.

O ambiente da radiologia é apontado como um dos mais avançados no tema, porém o desenvolvimento de novos medicamentos possivelmente verá um dos mais exponenciais benefícios desta tecnologia. Isso porque, além da possibilidade de reduzir o considerável investimento em pesquisa e desenvolvimento, o recrutamento pode ser mais eficiente por meio de informações mais precisas vindas de prontuários eletrônicos e do potencial uso da farmacogenética.

Também no nível de saúde populacional, padrões e condições podem ser melhor observados e usados para a construção de ferramentas de análise preditiva para identificar doenças crônicas em um estágio inicial. Isso alavanca medidas de saúde que atingem grandes organizações e governos.

A enorme geração de dados vindos de inúmeras fontes apenas reforça a necessidade da expertise do profissional da saúde para analisar as informações coletadas e, com isso, torná-las realmente úteis para o planejamento de ações na saúde.

4. Gestão de projetos em transformação digital

Apesar da inserção de tecnologias avançadas na área médica, da medicina personalizada à cirurgia robótica, o mercado de saúde fica muito atrás de diversas outras indústrias no quesito adoção de inovações.

Devido a vários fatores, que incluem a necessidade de redução de custos e a explosão da telemedicina durante a pandemia de covid-19, a indústria da saúde chegou a um ponto em que o processo de incorporação de novas tecnologias terá que coexistir com as atuais. E é neste processo de aprendizado e testes que as instituições deverão analisar o sucesso e o fracasso de suas iniciativas.

Para isso, antes de definir a tecnologia a ser incorporada, é necessária uma análise bastante realista dos problemas e da transformação que se quer alcançar. Do contrário, as tecnologias que surgem podem ditar as prioridades e o ritmo das mudanças. E é neste ponto que entra o conhecimento do dia a dia do profissional da saúde, para identificar quais são as inovações mais custo-efetivas, voltadas ao paciente e com foco em qualidade.

Como diferenciar tecnologias que efetivamente trazem valor daquelas que estão na moda? E quais são os passos críticos para o processo de mudança? Sabemos que para isso são necessárias habilidades de comunicação e resiliência, as chamadas soft skills, e o conhecimento dos processos da organização. Trata-se de habilidades que um profissional que atuou em vários cenários, como o da saúde, pode agregar.

Nesse aspecto, o profissional que entra para essa área de atuação tem a capacidade tanto de colocar em prática as transformações necessárias quanto a de dar à instituição uma visão de prioridades estratégicas de longo prazo.

5. Bioética

A área de atuação da bioética é, sem dúvida, promissora. A razão para seu rápido crescimento está relacionada a iniciativas como mapeamento e engenharia genética e outros tratamentos revolucionários, bem como à incerteza que este conhecimento traz do ponto de vista ético.

Como resultado da necessidade de maior clareza nos aspectos éticos de novas descobertas, estão surgindo novos papéis para o bioeticista. Abaixo seguem alguns destes cenários de atuação:

  1. consultor de políticas públicas;

  2. educador e porta-voz de comunidades – precisa ter um talento para explicar conceitos associados a novas descobertas tecnológicas que possam impactar as pessoas, no sentido de esclarecer preocupações vindas da comunidade;

  3. consultor de bioética e compliance – atua como especialista no assunto, trazendo tanto conhecimento de literatura em bioética quanto da indústria médica e farmacêutica;

  4. instrutor de bioética – une sua expertise ao conhecimento legal e às implicações sociais para educar estudantes da área da saúde;

  5. diretor de bioética médica – traz a liderança e visão geral de um programa de bioética para o cenário de uma grande instituição – como um hospital, por exemplo – para promover constantes políticas no assunto e desenvolver padrões de melhoria contínua da qualidade;

  6. coordenador de bioética e direitos dos pacientes – supervisiona políticas referentes aos direitos e responsabilidades dos pacientes.

A proposta deste artigo foi trazer novos caminhos a serem percorridos pelos profissionais da saúde no atual – e futuro – cenário tecnológico da saúde. São percursos desafiadores que trazem o potencial de alcançar a saúde de um número cada vez maior de pessoas e, ao mesmo tempo, num nível de personalização nunca antes pensado.

É importante termos em mente que, seja qual for o caminho a ser tomado, um ponto em comum entre eles é a necessidade cada vez maior de pensamento crítico e habilidades interpessoais. Não que isso seja novidade na medicina, mas é um fato que novas tecnologias exigirão muito da nossa capacidade de tomar decisões baseadas em ética médica. E isso, sem dúvida, é o que nos diferencia, como já apontava o escritor Yuval Harari.

A Dra. Samanta Dall´Agnese é graduada em medicina pela UFPR e já atuou junto a alguns dos maiores servidores de saúde do país. É VP de Inteligência Clínica na Prontmed.

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