Privação de sono provoca obesidade visceral

Richard Mark Kirkner

Notificação

12 de abril de 2022

Um estudo controlado em jovens adultos submetidos a privação de sono forneceu a primeira evidência causal relacionando a falta de sono à obesidade abdominal e à gordura visceral ou "abdominal", que é prejudicial à saúde. Neste que os pesquisadores afirmam ser o primeiro estudo avaliando a relação entre restrição de sono e distribuição de gordura corporal, eles relataram o novo achado: a expansão do tecido adiposo abdominal, e especialmente da gordura visceral, ocorreu em função do sono abreviado.

A Dra. Naima Covassin, Ph.D., pesquisadora em medicina cardiovascular na Mayo Clinic, nos Estados Unidos, liderou o estudo controlado e randomizado de 12 pessoas saudáveis ​​e não obesas, randomizadas para restrição controlada de sono (duas semanas de quatro horas de sono por noite) ou sono controlado sem restrição (nove horas por noite), seguido por um período de recuperação de três dias. O estudo, realizado no ambiente hospitalar, monitorou a ingestão calórica dos participantes e usou acelerometria para monitorar o gasto energético. Os participantes tinham idades entre 19 e 39 anos.

"Constatamos que, ao final de duas semanas, essas pessoas ganharam cerca de 0,5 kg, o que foi significativo, mas ainda muito modesto", disse em uma entrevista o autor sênior, o médico Dr. Virend K. Somers, Ph.D., professor de medicina cardiovascular na Mayo Clinic. "O indivíduo que dorme quatro horas por noite julga que está indo bem se engordar apenas um quilo."

"O problema é", disse ele, "que quando você faz uma análise mais específica, descobre que, na verdade, com um quilo, o aumento significativo da lipídios está na região abdominal, principalmente intra-abdominal".

O estudo constatou que os pacientes com sono reduzido ingeriram em média 308 calorias adicionais por dia do que os indivíduos do grupo com sono controlado (intervalo de confiança, IC, de 95% de 59,2 a 556,8 kcal/dia; P = 0,015), e ao mesmo tempo em que isso se traduziu em um ganho de 0,5 kg (IC de 95% de 0,1 a 0,8 kg; P = 0,008), também levou a um aumento de 7,8 cm2 no tecido adiposo visceral (IC de 95% de 0,3 a 15,3 cm2; P = 0,042), representando um aumento de cerca de 11%. O estudo utilizou tomografia computadorizada nos dias 1 e 18 (um dia após o período de recuperação de três dias) para avaliar a distribuição da gordura abdominal.

Achados referentes ao tecido adiposo visceral posteriores ao período de recuperação

Após o período de recuperação, no entanto, o estudo descobriu que o tecido adiposo visceral no grupo com privação de sono continuou aumentando, embora o peso corporal e a gordura subcutânea tivessem caído, e o aumento da gordura abdominal total tivesse evoluído com um achatamento da curva evolutiva. “Eles dormiram muito, ingeriram menos calorias e seu peso caiu, mas, muito importante, a gordura abdominal aumentou ainda mais”, disse o Dr. Virend. Em média, o tecido adiposo visceral aumentou mais 3,125 cm2 no dia 21.

Os achados levantaram uma série de questões que precisam ser mais exploradas, disse o professor. "Há alguma mensagem bioquímica no corpo que continua a enviar lipídios para o compartimento visceral", disse ele. “o que não sabemos é se episódios repetitivos de sono inadequado acumulados ao longo dos anos realmente dão às pessoas uma preponderância de obesidade abdominal”.

O estudo também mostrou que os parâmetros tradicionais usados ​​para avaliar o risco cardiovascular não são suficientes, disse o Dr. Virend. “Se aferíssemos apenas o peso corporal, o índice de massa corporal e o percentual geral de gordura corporal, perderíamos completamente a relação causal demonstrada no estudo”, pontuou.

Investigações futuras devem se concentrar em dois pontos, acrescentou: identificar os mecanismos que causam o acúmulo de tecido adiposo visceral a partir da privação de sono, e investigar se o prolongamento do sono pode reverter o processo.

"A grande preocupação é obviamente o coração", disse o médico. "Lembre-se, não são pessoas doentes. São jovens saudáveis ​​que estão fazendo a coisa errada com sua gordura corporal; estão concentrando-a em uma parte do organismo completamente errada".

Em um editorial a convite, o Dr. Harold Bays, médico endocrinologista vinculado à University of Louisville (Ky., Estados Unidos) e diretor médico e presidente do Louisville Metabolic and Atherosclerosis Research Center, escreveu que o estudo confirmou a necessidade de avaliar os distúrbios do sono como uma causa potencial de acúmulo de tecido adiposo visceral.

"O maior equívoco de muitos médicos e de alguns cardiologistas é que a obesidade não é uma doença", disse ele em entrevista. “Mesmo quando alguns médicos acreditam que a obesidade é uma doença, julgam que seu potencial patogênico é limitado à gordura visceral.” Ele observou que a gordura subcutânea pode levar ao acúmulo de tecido adiposo visceral e gordura epicárdica, bem como infiltração gordurosa do fígado e outros órgãos vitais, resultando em aumento do tecido adiposo epicárdico e efeitos adversos cardíacos indiretos.

“Assim, mesmo que a interrupção do sono não aumente o peso corporal, se resultar em disfunção gordurosa (adiposopatia), pode acarretar uma elevação dos fatores de risco para doença cardiovascular e composição corporal não saudável, inclusive aumento da gordura visceral ", disse o Dr. Harold.

O estudo recebeu financiamento dos National Institutes of Health. O Dr. Virend K. Somers informou envolvimento com as seguintes empresas: Baker Tilly, Jazz Pharmaceuticals, Bayer, Sleep Number e Respicardia. Os coautores informaram não ter conflitos de interesses. O Dr. Harold Bays é diretor médico da Your Body Goal e diretor científico da Obesity Medicine Association.

Este conteúdo foi originalmente publicado em MDedge.com Medscape Professional Network.

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....