Distúrbios do neurodesenvolvimento são prevalentes na prematuridade extrema

Caleb Rans, Doutor em Farmácia

Notificação

4 de abril de 2022

Um grande estudo de coorte feito por meio da análise de prontuários, realizado na Suécia, mostra que 75% das crianças nascidas antes das 24 semanas de gestação apresentam distúrbios do neurodesenvolvimento, incluindo deficiências intelectuais e autismo, com necessidade de serviços de reabilitação.

Além disso, doenças somáticas como asma, atraso no crescimento e baixa estatura foram diagnosticadas em 88% dos pacientes da coorte. Os achados, publicados no periódico Acta Paediatrica , dão ênfase à necessidade de mais estudos nessa população, especialmente considerando-se que as taxas de sobrevivência continuam a aumentar.

"O objetivo primário desse grande estudo nacional retrospectivo foi descrever os diagnósticos clínicos realizados após crianças nascidas antes de 24 semanas receberem alta da unidade de terapia intensiva neonatal," explicou a Dra. Eva Morsing, Ph.D, médica e autora principal, e colegas, todos da Lunds Universitet, na Suécia.

Os dados sobre os diagnósticos de distúrbios do neurodesenvolvimento e alguns diagnósticos somáticos foram obtidos a partir de registros nacionais suecos. Os arquivos médicos individuais dos participantes dos estudos também foram analisados pelos pesquisadores.

Resultados

A coorte do estudo foi composta por 383 crianças nascidas com uma mediana de 23,3 semanas de gestação (intervalo entre 21,9 e 23,9 semanas). O peso mediano ao nascer dos pacientes foi 565 gramas (intervalo entre 340 e 874 gramas), com um desvio padrão (DP) mediano de -0,40 (intervalo entre -3,63 a -3,17).

A maioria (75%) das crianças apresentou distúrbios do neurodesenvolvimento, incluindo distúrbios da fala (52%), deficiências intelectuais (40%), transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (30%), transtorno do espectro autista  (24%), deficiência visual (22%), paralisia cerebral (17%), epilepsia (10%) e deficiência auditiva (5%).

Com relação ao gênero, as crianças do sexo masculino nascidas com 23 semanas apresentaram uma maior incidência de deficiências intelectuais (45% versus [vs.] 27%; P < 0,01) e deficiência visual (25% vs. 14%; P < 0,01) quando comparadas com as crianças do sexo feminino. Além disso, 55% dos pacientes foram encaminhados para serviços de reabilitação.

Já com relação aos diagnósticos somáticos, o atraso no crescimento e a baixa estatura foram diagnosticados em 39% dos pacientes da coorte, ocorrendo com maior frequência nas crianças nascidas entre 21 e 22 semanas do que nas crianças nascidas com 23 semanas (49% vs. 36%; P < 0,05).

Também foi visto que a asma e a displasia broncopulmonar, a hipertensão pulmonar e a paresia de cordas vocais foram diagnosticadas em 63%, 12% e 13% dos pacientes, respectivamente.

"Vários estudos relataram taxas mais elevadas de morbidades pré-termo e desfechos de neurodesenvolvimento piores em meninos do que em meninas após partos prematuros extremos", disse em uma entrevista a autora do estudo, a médica Dra. Ann Hellström, PhD, da Göteborgs universitet, da Suécia.

"Apesar de as razões para essa diferença não terem sido estudadas no artigo em questão, relatos na literatura sugerem que os meninos têm uma velocidade de crescimento maior do que as meninas e parecem ser mais sensíveis do que as meninas à nutrição neonatal aquém da ideal", disse a Dra. Ann.

"Também sabemos que os esteroides sexuais diferem com relação à vida intrauterina, dependendo do sexo, após o parto prematuro", acrescentou a Dra. Ann.

Em um editorial que acompanha o estudo, o Dr. Neil Marlow, médico da University College London, escreveu que "um ponto principal [e interessante] é a alta prevalência de transtornos do espectro autista observada no estudo.

"Este é um achado específico em coortes de crianças prematuras extremas da Suécia, que registraram mais diagnósticos do que em outros estudos longitudinais", acrescentou o Dr. Neil. "Certamente esse achado requer mais investigações para ser mais bem compreendido."

Os pesquisadores reconheceram que uma limitação fundamental do estudo foi o amplo intervalo de idade entre o nascimento das crianças e a consulta de acompanhamento mais recente, que variou de 2 a 13 anos, explicando que alguns diagnósticos podem ocorrer tardiamente na infância.

"A prática clínica neonatal precisa adotar uma perspectiva de longo prazo e os médicos que atendem tanto crianças como adultos devem estar cientes dos problemas de saúde complexos daquelas crianças nascidas antes de 24 semanas", concluíram.

O estudo foi financiado pelo Vetenskapsrådet, pela Gothenburg Medical Society e por um financiamento público do governo sueco. Os autores informaram não ter conflitos de interesses.

Este conteúdo foi originalmente publicado em MDedge.com – Medscape Professional Network.

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