COMENTÁRIO

Modelos de remuneração: o que vem pela frente?

Nathalia Nunes

1 de abril de 2022

Colaboração Editorial

Medscape &

No último texto da nossa coluna, falamos sobre como chegamos até o momento em que estamos nas reformas dos sistemas de saúde ao redor do mundo. Passamos de um sistema classicamente fee-for-service até o cenário que vemos hoje, com diversas experiências de capitation, bundle e outros formatos.

Mas algumas questões ainda permanecem: como os sistemas enxergam a evolução dos modelos daqui em diante? E por que discutir análise de riscos e desfechos clínicos se torna parte crucial do processo?

Para operar instituições de saúde, é preciso ter um equilíbrio entre um tratamento efetivo e o cálculo dos custos. E o desafio hoje é melhorar os desfechos clínicos dos pacientes e, ao mesmo tempo, reduzir o custo total. Sabe-se que muito da busca por redução de custos tem a ver com desperdícios ao longo da jornada do cuidado – tema abordado, inclusive, na entrevista concedida pelo especialista Adriano Londres ao Prontcast . Mas isso, por si só, não traz todos os resultados esperados.

A fórmula de Value-Based Healthcare (VBHC) – ou saúde baseada em valor – proposta por Michael E. Porter, economista da Harvard University, nos Estados Unidos, aborda itens como: qualidade do serviço prestado, experiência do paciente durante o processo e, por fim, custo.

Como vemos na prática clínica, a variedade de conceitos e resultados de qualidade, a dificuldade de mensurar a experiência do paciente e os desafios no mapeamento do custo total de um paciente dentro do setor tornam esse caminho complexo, especialmente na transição entre projetos-piloto e modelos já estabelecidos, com ganho de escala.

Alguns executivos e estudiosos do setor também incluem variáveis, como a pertinência, na equação. Aquele procedimento era, de fato, necessário? Independentemente do resultado clínico final, caso a intervenção não seja necessária ou a mais adequada, a equação não se aplica.

Com todos esses levantamentos, as perguntas a serem respondidas daqui em diante são: como os sistemas podem simultaneamente melhorar os resultados e diminuir o custo total? E como uma instituição consegue navegar nessa quantidade de variáveis?

A partir de agora, vemos uma necessidade crucial de mensuração de riscos e desfechos com regras que indiquem quais os melhores modelos de remuneração para cada etapa da jornada do paciente e para cada tipo de intervenção. Para isso, os dados se tornam mais importantes do que são hoje, conseguindo apoiar a tomada de decisão – tanto no âmbito clínico, quanto no que diz respeito à sustentabilidade financeira das organizações. Ter dados estruturados e tirar insights deles se torna parte da rotina do setor de saúde – e vemos cada vez mais instituições colocando esse tópico como prioridade.

Cada lugar tem apostado em uma regra para a adoção dos novos modelos. Na Europa, por exemplo, a ideia tem sido apostar em oncologia e doenças raras como principais áreas terapêuticas. Em outros lugares, as patologias e os tratamentos mais previsíveis em termos de desfechos são as apostas iniciais.

De forma prática, para pensar no futuro, precisa-se entender que não existe uma só fórmula para todas as instituições, patologias e pacientes, e que a resposta de tudo está em uma construção aplicada à realidade daquele sistema. No entanto, duas máximas são importantes: dados são essenciais e VBHC não vai responder todas as nossas perguntas. A evolução dos modelos de remuneração vai seguir um curso mais transparente e coordenado, mas não vai ser uma receita pronta.

Para isso, mapear o cuidado ao paciente, usar dados estruturados e criar modelos escaláveis de remuneração são pontos imprescindíveis para garantir melhores resultados clínicos e mais sustentabilidade financeira.

Nathalia Nunes é fonoaudióloga pela Universidade de São Paulo com MBA em Economia e Gestão pela Unifesp e Head de Expansão na Prontmed.

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....