Novo teste para Lp(a) permite resultados mais precisos de LDL

Notificação

31 de março de 2022

Um novo estudo chamou a atenção para a imprecisão do cálculo dos níveis de lipoproteína de baixa densidade (LDL, do inglês Low-Density Lipoprotein) para alguns pacientes com os ensaios atuais, o que poderia levar a tratamentos incorretos.

Os grupos de pacientes mais atingidos são os que têm altos níveis de lipoproteína Lp(a), nos quais os níveis de LDL são superestimados pelos ensaios laboratoriais atuais, afirmaram os autores.

"Todos os ensaios laboratoriais atuais têm a limitação de não poder calcular ou descrever com exatidão a LDL. Na verdade, eles dosam a combinação da LDL e da Lp(a)", explicou ao Medscape o autor sênior do estudo, o médico Dr. Sotirios Tsimikas da University of California San Diego, nos Estados Unidos.

"Embora isso possa não ser muito importante para as pessoas com níveis normais de Lp(a), entre as que têm níveis elevados de Lp(a), isso pode constituir uma fração importante da LDL calculada, e os níveis reais da LDL podem ser muito mais baixos do que o valor informado pelo laboratório", disse o Dr. Sotirios.

O pesquisador deu o exemplo de um paciente com valores laboratoriais de LDL de 75 mg/dL. "Se esse paciente tiver um nível de Lp(a) igual a zero, então ele realmente tem 75 mg/dL de LDL. Mas à medida que a Lp(a) aumenta, a proporção da fração da LDL diminui. Assim, se um paciente com um valor calculado de 75 mg/dL de LDL tiver um nível de Lp(a) de 20, então sua LDL real é de 55 mg/dL."

O Dr. Sotirios disse que é importante diferenciar os valores de cada lipoproteína, de modo a poder optar pela abordagem terapêutica correta em situações nas quais a Lp(a) possa estar elevada.

"Ao compreender os valores reais da LDL e da Lp(a), isso nos permitirá personalizar o uso de medicamentos hipolipemiantes e decidir onde concentrar o tratamento. Para o paciente com alto nível de Lp(a), seu risco residual poderia ser proveniente da Lp(a) e menos do da LDL", acrescentou. "À medida que criarmos medicamentos para diminuir a Lp(a), esse paciente pode ser mais bem tratado, em vez de aumentar a tentativa de diminuir a LDL, o que pode já estar na meta".

O estudo foi publicado na edição de 22 de março do periódico Journal of the American College of Cardiology.

O Dr. Sotirios ressaltou que a Lp(a) é aceita atualmente como fator de risco genético, independente e causal de doença cardiovascular, mas os medicamentos atuais para redução da LDL não têm muito efeito sobre a Lp(a).

"A Lp(a) pode ser um pouco reduzida com a niacina e os inibidores PCSK9, mas ambos têm um efeito bem fraco, e as estatinas aumentam a Lp(a). No entanto, existem múltiplas terapêuticas com ARN especificamente direcionadas à Lp(a) em desenvolvimento clínico atualmente", disse o pesquisador.

No momento, a Lp(a) precisa ser matematicamente estimada, mais comumente pela fórmula de Dahlén, dada a ausência de um método quantitativo validado para calcular a Lp(a), disse o Dr. Sotirios.  

No estudo em tela, os pesquisadores utilizaram um método quantitativo novo e sensível, para dosar diretamente a Lp(a) e, a seguir, aplicaram esse método aos dados de um estudo recente com um dos novos fármacos de redução de Lp(a) em desenvolvimento (pelacarsen) feito com pacientes com níveis elevados de Lp(a).

Os resultados mostraram que a avaliação direta da Lp(a) e a subtração desse valor do valor laboratorial da LDL refletem com mais exatidão os valores iniciais e as alterações da LDL, relataram os autores. No estudo em tela, a LDL corrigida foi de 13 mg/dL a 16 mg/dL menor que a LDL informada pelo laboratório.

Utilizando os resultados corrigidos da LDL, o estudo mostrou que o pelacarsen diminui significativamente a Lp(a), com efeitos neutros a modestos na LDL.

O estudo também sugere que o método atual de cálculo da Lp(a) e, a seguir, a derivação da correção da LDL – a fórmula Dahlén – não sejam precisos. 

"A fórmula de Dahlén confia na premissa de que a Lp(a) é universalmente 30% fixo da massa de Lp(a), mas este geralmente não é o caso. A fórmula de Dahlén precisa parar de ser usada. Pode ser muito imprecisa", disse o Dr. Sotirios.  

Implicações importantes

No editorial que acompanha o estudo, o médico Dr. Guillaume Paré, o Dr. Michael Chong, PhD, e Pedrum Mohammadi-Shemirani, da McMaster University, no Canadá, disseram que os achados atuais têm três importantes implicações clínicas.

"Primeiro, oferecem uma prova adicional de que para pessoas com aumento da Lp(a), a contribuição da Lp(a) para a LDL não é desprezível utilizando ensaios convencionais, com diminuição de 13 mg/dL a 16 mg/dL da LDL após a correção".

Em segundo lugar, os editorialistas salientam que essas novas conclusões confirmam que o efeito dos inibidores da Lp(a) provavelmente se restringe à Lp(a), "como seria de se esperar".

Por fim, “e talvez o mais importante, os autores destacam a necessidade de melhorar a descrição clínica das frações lipídicas de modo a poder tratar adequadamente a LDL e a Lp(a) nos pacientes de alto risco", ressaltaram.

"Este trabalho abre caminho para futuros estudos que investigam a utilidade clínica desses novos cálculos para iniciar e monitorar o tratamento hipolipemiante", concluíram os comentaristas.

O ensaio clínico foi financiado pela Ionis Pharmaceuticals, e as dosagens diretas da Lp(a) foram financiadas pela Novartis através de uma bolsa de pesquisa para a University of California San Diego (UCSD). O Dr. Sotirios Tsimikas é funcionário da Ionis Pharmaceuticals e da University of California San Diego; é cofundador da Covicept Therapeutics. Também é um coinventor e recebe royalties pela propriedade de patentes da UCSD sobre anticorpos específicos de oxidação e biomarcadores relacionados com lipoproteínas oxidadas, sendo cofundador e possuindo ações das empresas Oxitope Pharma e Kleanthi Diagnostics.

J Am Coll Cardiol. 2022; 79(1035):1047-1049. Texto completo, Editorial

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