Ácido tranexâmico no trauma: riscos versus benefícios

Thomas R. Collins

Notificação

24 de março de 2022

O ácido tranexâmico, quando utilizado para tratamento de hemorragias após lesões traumáticas e traumatismos cranioencefálicos (TCE), reduz significativamente a mortalidade em um mês, de acordo com uma nova revisão sistemática com metanálise publicada no periódico JAMA Network Open , Emergency Medicine. Entretanto, uma tentativa de obter novas conclusões sobre outros desfechos associados ao tratamento, entre eles eventos tromboembólicos, foi frustrada devido à variabilidade dos dados nos estudos cobertos pela revisão.

Em comparação com os controles, indivíduos tratados com o fármaco ─ que retarda a quebra de coágulos sanguíneos e é frequentemente utilizado para controlar fluxos intensos durante o período menstrual ─ tiveram uma taxa de mortalidade 17% menor em um mês, com diferença significativa (intervalo de confiança, IC, de 95% de 0,71 a 0,97).

Segundo os pesquisadores, liderados pelo Dr. Marc Maegele, médico e professor de traumatologia e cirurgia ortopédica no Krankenhaus Köln-Merheim, na Alemanha, “uma análise de subgrupo revelou que pacientes com múltiplas lesões traumáticas podem se beneficiar mais da administração de ácido tranexâmico do que pacientes com TCE, em particular quando o principal achado patológico tiver sido hemorragia associada a sinais clínicos de choque”.

Os pesquisadores disseram que realizaram o estudo para tentar elucidar as dúvidas remanescentes sobre o uso do ácido tranexâmico em casos de trauma. O fármaco é aprovado para sangramento menstrual intenso e hemofilia, mas é frequentemente usado para hemorragias relacionadas às cirurgias cardíaca e ortopédica e a lesões traumáticas, diferentemente da indicação aprovada em bula.

"A presente pesquisa foi realizada para fornecer uma revisão sistemática com metanálise atualizada e de alta qualidade sobre o uso de ácido tranexâmico em pacientes vítimas de trauma", disseram eles.

Os pesquisadores incluíram 31 estudos, sendo 6 controlados e randomizados e 25 observacionais. Os pacientes tinham 15 anos ou mais, e foram atendidos em prontos-socorros por lesões traumáticas, TCE ou ambos.

Quando os pesquisadores reuniram os dados de mortalidade em um mês, a redução do risco para o grupo tratado com ácido tranexâmico foi de 0,83, com variabilidade ou heterogeneidade moderada, considerando-se os dados de todos os estudos. Esse achado foi confirmado, observaram eles, por uma análise apenas dos ensaios controlados e randomizados que não apresentavam heterogeneidade, que mostraram uma redução do risco igual a 0,92 (IC 95% de 0,87 a 0,97).

Os autores concluíram que não podiam agregar os dados de mortalidade em 24 horas ou mortalidade geral, porque havia muita heterogeneidade. Para mortalidade em 24 horas, os valores de redução do risco para os estudos incluídos variaram amplamente de 0,11, mostrando uma grande redução do risco, a 3,38, mostrando uma grande elevação. Para mortalidade geral, a redução do risco variou de 0,09 a 2,94.

Os dados de eventos tromboembólicos de pacientes tratados e não tratados também não puderam ser agrupados devido à ampla variabilidade, com redução do risco variando de 0,14 a 24,12 em todos os estudos, disseram eles.

"Diferentes abordagens podem explicar a ampla heterogeneidade entre os estudos", pontuaram os pesquisadores.

"As preocupações razoáveis ​​sobre possíveis eventos tromboembólicos com ácido tranexâmico permanecem, e não foi possível chegar a uma conclusão definitiva, devido à falta de dados homogêneos", revelaram eles. "Portanto, o uso de ácido tranexâmico, como ocorre com qualquer outra farmacoterapia, precisa ser ponderado em relação a seus riscos potenciais".

Os pesquisadores disseram que a dificuldade em agrupar os dados sugere a necessidade de refinamento das estratégias de pesquisa.

Dr. Ian Roberts

"As revisões sistemáticas constituem uma ferramenta de pesquisa complexa, que pode ter um impacto poderoso na tomada de decisões futuras", notaram eles. "No entanto, é essencial implementar totalmente as diretrizes para revisões sistemáticas, para garantir que os resultados sejam bem gerados e analisados. Quando a heterogeneidade ocorre, precisa ser suficientemente relatada ao se avaliar as características da população, as intervenções realizadas no estudo e as avaliações dos desfechos".

O Dr. Ian Roberts, Ph.D., professor de epidemiologia da London School of Hygiene and Tropical Medicine, no Reino Unido, que estudou o uso do ácido tranexâmico na lesão traumática, disse que os achados não se traduzem como um avanço do conhecimento na área.

"Combinar os resultados de estudos randomizados com os de estudos observacionais não é uma boa ideia; há boas evidências em estudos randomizados de que o ácido tranexâmico reduz a mortalidade sem aumentar os efeitos trombóticos", disse ele. "Confundir esta mensagem com estudos observacionais não é útil". Nos estudos observacionais, continuou, os pacientes que recebem o tratamento tendem a ser mais doentes e mais vulneráveis ​​à trombose.

O estudo deveria reforçar o uso do ácido tranexâmico para pacientes vítimas de traumas, dada a constatação de redução da mortalidade em um mês, disse.

"O que uma vítima de trauma quer?" questionou ele.

Dr. Daniel Margulies

"Agrupar ensaios randomizados de alta qualidade com estudos observacionais de baixa qualidade não é a medicina baseada em evidências que precisamos", disse o Dr. Ian. "Cerca de 3.500 pessoas morrem a cada ano nos Estados Unidos porque não recebem o único tratamento comprovado para salvar vidas em vítimas de trauma, e isso é uma afronta".

O Dr. Daniel Margulies, médico e diretor de cirurgia em pacientes com doenças agudas no Cedars-Sinai Medical Center, nos Estados Unidos, disse que o ácido tranexâmico faz parte do "protocolo de transfusão maciça" de seu centro.

"Quando o protocolo é ativado, a hemorragia é intensa e usamos ácido tranexâmico", disse o médico.

Ele disse que é bom ver uma revisão da literatura como um todo, e que o estudo poderia aumentar a conscientização sobre o valor do ácido tranexâmico, embora a revisão indique que "a trombose ainda é uma preocupação não resolvida".

"A pesquisa pode convencer alguns médicos que atualmente não o usam para o tratamento no trauma".

Os Drs. Marc, Ian e Daniel informaram não ter conflitos de interesses relevantes.

JAMA Netw Open. 2022;5:e220625.  Abstract

Tom Collins é um escritor freelancer do sul da Flórida que escreveu sobre tópicos médicos, de infecções desagradáveis ​​a dilemas éticos, e de tumores descontrolados a doutores caçadores de tornados. Ele viaja pelo mundo reunindo notícias sobre saúde em conferências e mora em West Palm Beach.

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