Elevação ortostática da pressão arterial é relacionada com eventos cardíacos graves em hipertensos mais jovens

Patrice Wendling

Notificação

23 de março de 2022

A queda súbita da pressão arterial ortostática é comum e constitui um problema preocupante entre os idosos hipertensos. Agora, uma pesquisa sugere que uma grande diferença na direção oposta pode ser igualmente preocupante entre os hipertensos mais jovens.

Adultos jovens e de meia-idade com resposta sistólica da pressão arterial ortostática maior que 6,5 mmHg tiveram quase o dobro do risco de eventos cardiovasculares adversos importantes (MACE, do inglês, major adverse cardiac events) durante o acompanhamento em comparação aos outros participantes.

A resposta exacerbada da pressão arterial manteve-se como fator independente de previsão de eventos cardíacos importantes, mesmo após o ajuste pelos fatores de risco tradicionais, como pressão arterial de 24 horas (razão de risco de 1,94; intervalo de confiança, IC, de 95%, de 1,10 a 3,44), mostrou o estudo.

“A implicação clínica é importante porque atualmente os médicos aferem a pressão arterial em jovens sentados, mas o que dizemos é que ela deve ser verificada também em ortostasia”, disse o Dr. Paolo Palatini, médico e professor de medicina interna na Università degli Studi di Padova na Itália, que liderou o trabalho.

Estudos anteriores descobriram que uma resposta exagerada da pressão arterial ortostática é um fator de previsão de futura hipertensão arterial sistêmica, eventos cardiovasculares e morte, particularmente entre os pacientes mais idosos, mas poucos dados prognósticos existem para os jovens ou os pacientes de meia-idade, observou o pesquisador.

O estudo, publicado em 17 de março no periódico Hypertension, foi feito com 1.207 participantes entre 18 e 45 anos de idade com hipertensão não tratada de estágio 1 (pressão sistólica de 140 a 159 mmHg ou pressão diastólica de 90 a 100 mmHg) no estudo prospectivo multicêntrico HARVEST, iniciado na Itália em 1990. A média de idade dos participantes ao ingressar no estudo foi de 33 anos.

A pressão arterial foi aferida em duas consultas com intervalo de duas semanas, sendo que em cada consulta foram feitas três aferições em decúbito, após o paciente ter descansado nesta posição por um mínimo de cinco minutos, seguidas de três aferições em ortostasia com um minuto de intervalo entre elas.

De acordo com a média das diferenças da pressão arterial entre as posições em decúbito e ortostática nas duas consultas, os participantes foram classificados como tendo resposta sistólica normal ou exagerada (quartil superior, limite inferior > 6,5 mmHg) à posição ortostática.

Os 120 participantes classificados como “hiper-reativos” tiveram uma média de aumento da pressão sistólica de 11,4 mmHg na posição ortostática, enquanto os demais participantes apresentaram média de queda da pressão sistólica de 3,8 mmHg na posição ortostática.

Na consulta inicial, os “hiper-reativos” tiveram mais probabilidade de ser fumantes (32,1% vs. 19,9%) e tomar café (81,7% vs. 73%) e ter hipertensão ambulatorial (90,8% vs. 76,4%).

Entretanto, não tiveram mais probabilidade de ter história familiar de eventos cardiovasculares e tiveram pressão sistólica em decúbito mais baixa (140,5 mmHg vs. 146,0 mmHg), colesterol total mais baixo (4,93 mmol/L vs. 5,13 mmol/L) e  proteína de alta densidade mais alta (1,42 mmol/L vs. 1,35 mmol/L).

A idade, o sexo e o índice de massa corporal (IMC) foram semelhantes entre os dois grupos, assim como a variação da pressão arterial, o descenso noturno da pressão arterial e a frequência de descensos extremos da pressão arterial durante o sono. Os participantes com resposta pressórica sistólica normal tiveram maior probabilidade de serem tratados para hipertensão durante o acompanhamento (81,7% vs. 69,7%; p > 0,003).

Entre 630 participantes que tiveram avaliação de catecolaminas em amostras de urina de 24 horas, a relação entre a adrenalina e a creatinina foi maior para os “hiper-reativos” do que entre os que tiveram respostas normais (118,4 nmol/mol vs. 77,0 nmol/mol; p > 0,005).

Durante uma mediana de acompanhamento de 17,3 anos, ocorreram 105 eventos cardiovasculares maiores, amplamente definidos englobando síndrome coronariana aguda (48), acidente vascular cerebral (13), insuficiência cardíaca com indicação de hospitalização (3), aneurisma da aorta (3), doença vascular periférica (6), doença renal crônica (12) e fibrilação atrial constante (20).

A quase duplicação do risco de eventos cardiovasculares adversos importantes entre os “hiper-reativos” persistiu ao excluir a fibrilação atrial e ao incluir a pressão sistólica ambulatorial de 24 horas no modelo, informou o autor.

Os resultados estão alinhados aos estudos anteriores indicando que os “hiper-reativos” à ortostasia têm atividade simpática normal em repouso, mas aumento da resposta simpática aos fatores de tensão, observaram Dr. Paolo e colaboradores. Essa superação neuro-humoral parece ser peculiar aos adultos jovens, enquanto a rigidez vascular parece ser o mecanismo determinante da hipertensão ortostática nos idosos.

Se a pressão arterial de um jovem for aferida em ortostasia, “então você tem de tratá-los pela média da pressão em decúbito e em ortostasia”, disse o Dr. Paolo.

“Nestas pessoas, a pressão arterial deve ser tratada mais cedo”.

“O estudo é importante por ter identificado um novo marcador de hipertensão arterial sistêmica que é facilmente avaliado no consultório”, disse a Dra. Nieca Goldberg, diretora médica do Atria Institute e professora associada de medicina da New York University Grossman School of Medicine, ambos nos Estados Unidos, comentado para o Medscape por e-mail.

A Dra. Nieca indicou que as pressões arteriais em ortostasia geralmente não são avaliadas como parte de uma consulta médica de rotina e, na verdade, a aferição da pressão na posição sentada costuma ser feita de modo incorreto, enquanto o paciente está sentado na mesa de exame, em vez de estar com os pés no chão e usando o tamanho adequado de manguito.

“Ao incorporar a pressão arterial em ortostasia, iremos melhorar nosso diagnóstico de hipertensão, e com intervenções, como dieta e exercício, redução de sal e medicamentos quando indicado, teremos menor risco de infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral, insuficiência cardíaca, doença renal e ocular”, disse a Dra. Nieca, que também é porta-voz da American Heart Association.

“A maior barreira é que as consultas no consultório são limitadas a 15 minutos e não há tempo hábil para fazer os sinais vitais”, observou a comentarista

“Precisamos de mudanças no sistema de saúde que valorizem a nossa capacidade de diagnosticar a pressão arterial e nos dar tempo para orientar os pacientes e explicar as opções terapêuticas”.

As limitações do estudo são que 72,7% dos participantes eram homens e todos eram brancos, disse o Dr. Paolo. Também é necessário fazer novos estudos para criar uma definição uniforme da hiperreatividade postural da pressão arterial, possivelmente por estimativas de risco, para inclusão em futuras diretrizes de conduta nos casos de hipertensão.

O estudo foi financiado pela Associazione 18 maggio 1370 italiana. Os autores informaram não ter conflitos de interesses relevantes. Dra. Nieca Goldberg informou ser porta-voz da American Heart Association.

Hypertension. Publicado on-line em 17 de março de 2022. Abstract

Siga Patrice Wendling no Twitter: @pwendl .

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Legendas das imagens Getty Images

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....