Doença inflamatória intestinal na infância pode duplicar o risco de câncer

Pam Harrison

Notificação

23 de março de 2022

Nova metanálise sugere que a chance de desenvolver um câncer, especialmente gastrintestinal, seja mais do que duas vezes maior para as crianças diagnosticadas com doença inflamatória intestinal (DII) do que para a população pediátrica em geral.

Embora a taxa de incidência global de câncer nessa população seja baixa, "encontramos um aumento de 2,4 vezes na taxa relativa de câncer entre pacientes com DII de início durante a infância em comparação com a população pediátrica em geral, principalmente associada a um aumento da taxa de neoplasias gastrintestinais", escreveram a autora sênior, Dra. Tine Jess, médica da Aalborg Universitet København (AAU CPH), na Dinamarca, e suas colaboradoras.

O estudo foi publicado on-line em 1º de março no periódico JAMA Network Open.

Pesquisas anteriores indicam que a DII esteja associada a um risco elevado de neoplasias de cólon, intestino delgado e outras topografias em adultos, mas o risco em crianças com DII não é bem compreendido.

Na metanálise, Dra. Tine e colaboradoras examinaram cinco estudos populacionais da América do Norte e Europa, com mais de 19.800 participantes com DII de início durante a infância. Destes, 715 foram posteriormente diagnosticados com câncer.

Em geral, o risco de câncer entre indivíduos com DII de início infantil foi 2,4 vezes maior do que entre seus pares sem a doença, mas essas taxas variaram de acordo com o tipo de DII. Participantes com doença de Crohn, por exemplo, tiveram probabilidade cerca de duas vezes maior de desenvolver uma neoplasia, enquanto a dos pacientes com retocolite ulcerativa foi 2,6 vezes maior.

Dois estudos avaliados na metanálise dividiram os resultados por sexo e constataram que o risco de câncer foi maior para pacientes do sexo masculino versus feminino (taxas relativas agrupadas [pRR, sigla do inglês pooled relative rates] de 3,23 em homens e 2,45 em mulheres).

Os mesmos estudos também calcularam o risco de câncer pela exposição a tiopurinas. Os pacientes que receberam esses imunossupressores apresentaram pRR de 2,09. Embora numericamente maior, não foi estatisticamente significativa em comparação com pacientes não expostos aos medicamentos (pRR de 1,82).

Ao analisar o risco por topografia do câncer, as autoras observaram consistentemente taxas relativas mais altas para tumores gastrintestinais. Especificamente, elas calcularam um risco elevado em 55 vezes para neoplasia hepática (pRR de 55,4), de 20 vezes para neoplasia colorretal (pRR de 20,2) e de 16 vezes para neoplasia de intestino delgado (pRR de 16.2).

Apesar das estimativas altas para tumores gastrintestinais, "esse risco corresponde a uma taxa de incidência média de 0,3 casos de câncer de fígado, 0,6 colorretal e 0,1 de intestino delgado por 1.000 pessoas-ano nesta população", observaram as pesquisadoras.

Em outras palavras, "a taxa de incidência global de câncer nessa população é baixa", com menos de 3,3 casos por 1.000 pessoas-ano, concluíram.

As taxas relativas de tumores extraintestinais foram ainda menores, com os maiores riscos para câncer de pele não melanoma (pRR de 3,62), neoplasias linfoides (pRR de 3,10) e melanoma (pRR de 2,05).

As autoras sugeriram que a identificação de variáveis ​​que pudessem reduzir o risco de câncer em crianças com DII poderia moldar melhor as estratégias de manejo e prevenção.

As diretrizes para rastreamento de câncer colorretal já recomendam que as crianças sejam submetidas a uma colonoscopia de seis a oito anos após o diagnóstico de colite que se estende além do reto. Também é recomendada colonoscopia anual para pacientes com colangite esclerosante primária desde o momento do diagnóstico, e todos os pacientes com DII devem realizar triagem anual para câncer de pele.

As pesquisadoras sugeriram ainda que, sendo a inflamação contínua um importante fator de risco de câncer, seu controle precoce e adequado seja fundamental na prevenção de complicações em longo prazo.

O estudo foi financiado por uma doação da Danmarks Grundforskningsfond. A Dra. Tine e os coautores Rahma Elmahdi, Camilla Lemser e Kristine Allin relataram ter recebido doações do Danmarks Grundforskningsfond – Centre of Excellence durante a realização do estudo. A coautora Manasi Agrawal informou ter recebido doações dos National Institutes of Health/National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases durante a realização do estudo.

JAMA Netw Open. Publicado on-line em 1º de março de 2022. Texto completo

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