O papel de determinadas espécies do microbioma intestinal no risco de diabetes tipo 2

Nancy A. Melville

Notificação

23 de março de 2022

Seis principais espécies bacterianas do microbioma intestinal foram identificadas como preditoras do surgimento de diabetes tipo 2, segundo os resultados de um estudo de acompanhamento de 15 anos com mais de 5.000 pessoas na Finlândia.

“Não temos conhecimento de estudos prospectivos de longo prazo anteriores sobre a associação entre diabetes tipo 2 e microbioma intestinal semelhantes ao nosso estudo”, afirmaram os autores da pesquisa, publicada on-line em 31 de janeiro no periódico Diabetes Care.

Embora exijam validação adicional, os resultados “fornecem novas evidências e ampliam as anteriores, predominantemente transversais, e corroboram ainda mais as associações entre hábitos alimentares e doenças metabólicas e diabetes tipo 2, que são modulados pelo microbioma intestinal”, escreveram os pesquisadores.

Os resultados são de um estudo prospectivo de dados sobre amostras fecais de 5.572 pessoas da coorte populacional FINRISK 2002, realizado na Finlândia em 2002. Em 2017, as amostras foram enviadas para sequenciamento como acompanhamento.

É importante notar que o estudo excluiu pessoas que já tinham diagnóstico de diabetes no início do estudo, inclusive aquelas em tratamento com antidiabéticos, como a metformina.

Quatro espécies e dois agrupamentos associados ao diabetes tipo 2

Ao longo do acompanhamento, que durou uma média de 15,8 anos, 432 (7,8%) participantes passaram a ter diagnóstico de diabetes tipo 2, e a presença de quatro espécies e dois agrupamentos no início do estudo foi significativamente associada à evolução para diabetes tipo 2.

As quatro espécies foram Clostridium citroniae (razão de risco, RR, de 1,21; P não ajustado = 0,02), C. bolteae (RR de 1,20; P não ajustado = 0,01), Tyzzerella nexilis (RR de 1,17; P não ajustado = 0,03) e Ruminococcus gnavus (RR de 1,17; P = 0,04). E os dois agrupamentos positivamente associados consistiam essencialmente das mesmas espécies (ambas RR de 1,18).

É importante ressaltar que as associações foram quase as mesmas entre os participantes do leste e do oeste da Finlândia, que sabidamente têm diferenças genéticas e de estilo de vida peculiares que afetam a morbidade e a mortalidade.

"Três desses táxons podem ser agrupados pela abundância proporcional em ambas as áreas geográficas, e a abundância combinada dos quatro táxons também foi preditiva de diabetes tipo 2 incidente", escreveram os autores.

Eles observaram que as espécies identificadas já haviam sido associadas ao diabetes tipo 2 e parecem estar ligadas de alguma forma à qualidade da alimentação e a outras doenças metabólicas, como a doença hepática gordurosa.

A espécie C. citroniae, por exemplo, foi associada ao N-óxido de trimetilamina, um composto provavelmente relacionado ao consumo de carne vermelha, e os autores observaram que há mais de 15 anos se conhece uma associação direta entre o consumo de carne vermelha e o risco de diabetes tipo 2.

O N-óxido de trimetilamina também foi associado à inflamação do tecido adiposo e ao bloqueio da sinalização hepática da insulina, que estão relacionados a aumento da resistência à insulina, hiperglicemia e diabetes tipo 2, explicaram.

 A espécie bacteriana R. gnavus foi previamente associada à obesidade em humanos e animais. Também está “potencialmente relacionada à regulação do metabolismo da glicose e associada a aumentos nas citocinas inflamatórias, mecanismos relacionados à fisiopatologia do diabetes tipo 2”, segundo os pesquisadores.

Um passo em direção à melhor capacidade de previsão

O coautor Dr. Teemu J. Niiranen, Ph.D., médico da Divisão de Medicina do Turun yliopistollinen keskussairaala, na Finlândia, observou que, embora estudos anteriores tenham relacionado o diabetes tipo 2 a características peculiares da composição do microbioma intestinal, a maioria dos estudos não incluía dados prospectivos; além disso, faltam pesquisas de longo prazo.

Adicionalmente, existe a possibilidade de muitos dos estudos terem sido afetados pelo fator de confusão de uso de antidiabéticos, que podem influenciar a composição do microbioma intestinal, como a metformina, que foi excluída do estudo atual.

“Evitamos vários vieses relacionados a estudos transversais, como os efeitos de confusão dos medicamentos para diabetes”, disse o Dr. Teemu ao Medscape.

“Também conhecemos a sequência temporal da exposição e do desfecho, e que as mudanças no microbioma intestinal precederam o surgimento do diabetes”, acrescentou. "Em suma, um estudo de coorte como este fornece um nível de evidências muito maior do que o de estudos transversais".

O Dr. Teemu observou, no entanto, que "embora tenhamos demonstrado que certas alterações no microbioma intestinal estão associadas a um maior risco de diabetes no futuro, ainda estamos muito longe da aplicação clínica".

Além de precisar replicar os resultados em outros locais e com outros grupos étnicos, "precisamos encontrar pontos de corte ideais para a tomada de decisões clínicas e demonstrar o aumento da capacidade preditiva em comparação com os fatores de risco convencionais do diabetes", explicou.

O estudo, no entanto, "serve como um trampolim para o objetivo de melhorar a capacidade de previsão e o desenvolvimento de tratamentos eficazes para o diabetes tipo 2 por meio da modificação do microbioma intestinal", escreveram os autores.

Conforme publicado recentemente no Medscape, outras pesquisas mostraram bactérias intestinais que parecem estar associadas à prevenção e não ao aparecimento de diabetes, identificando espécies que ajudam a produzir butirato, um ácido graxo de cadeia curta que pode, de fato, fornecer proteção contra o diabetes tipo 2.

E outras pesquisas sugerem potenciais implicações clínicas. Medidas para melhorar a sensibilidade à insulina através do intestino por meio de transplante de microbiota fecal também estão avançando, com uma formulação de cápsula oral mostrando benefício entre pacientes com obesidade grave.

A pesquisa foi financiada em parte por fundos da Suomen Kulttuurirahasto, da Sydäntutkimussäätiö - Stiftelsen för hjärtforskning, da Emil Aaltosen Säätiö, da Suomen Lääketieteen Säätiö, da Sigrid Juséliuksen Säätiö e da Suomen Akatemia.  

Diabetes Care. Publicado on-line em 31 de janeiro de 2022.  Abstract

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