Estudo associa ciclos menstruais irregulares ou longos a doença hepática gordurosa não alcoólica

Ted Bosworth

Notificação

21 de março de 2022

Mulheres de até 40 anos de idade com ciclos menstruais longos ou irregulares podem ter mais risco de doença hepática gordurosa não alcoólica prevalente e incidente, de acordo com um estudo transversal que avaliou dados de mais de 70.000 participantes.

"Nossos resultados indicam que a irregularidade menstrual, que é mais fácil de diagnosticar e costuma ocorrer antes da síndrome do ovário policístico, destaca a possibilidade de identificar risco de doença hepática gordurosa não alcoólica em mulheres na pré-menopausa", segundo uma equipe de autores majoritariamente associados à Universidade Sungkyunkwan, na Coreia do Sul.

O estudo avaliou mulheres com menos de 40 anos inscritas no Kangbuk Samsung Health Study, um estudo que requer uma abrangente avaliação de saúde a cada dois anos em centros de saúde sul-coreanos. Das 135.090 participantes recrutadas ao longo de seis anos que compareceram a ao menos um exame de acompanhamento, 72.092 puderam ser avaliadas, após a exclusão de uma considerável lista de fatores de confusão, como doença hepática e infecções, exposição a medicamentos que favorecem a esteatose (p. ex.: corticosteroides), histerectomia e gestação.

Prevalência de doença hepática gordurosa não alcoólica aumenta com ciclos menstruais mais longos

Das mulheres avaliadas, 36.378 (27,7%) tinham ciclos menstruais de 26 a 30 dias e foram identificadas como grupo de referência, no qual a prevalência de doença hepática gordurosa não alcoólica foi de 5,8%. Entre as participantes com ciclos menstruais de 31 a 39 dias, a taxa de prevalência subiu para 7,2%, enquanto entre aquelas com ciclo menstrual ≥ 40 dias ou muito irregular, dificultando a estimativa, a prevalência da doença foi de 9,7%. Entre mulheres com ciclo menstrual < 21 dias, a prevalência da doença foi de 7,1%.

O estudo foi publicado no periódico Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism.

Entre as mulheres sem doença hepática gordurosa não alcoólica no início do estudo, acompanhadas por uma média de 4,4 anos, foram registrados 4.524 casos incidentes da doença. A densidade de incidência foi calculada por 103 pacientes-ano. No grupo de referência, a taxa foi de 18,4, aumentando para 20,2 entre as mulheres com ciclos menstruais de 31 a 39 dias e para 22,9 entre aquelas com ciclos menstruais ≥ 40 dias. Para as participantes com ciclos < 21 dias, a taxa foi de 26,8.

Após ajuste para idade, índice de massa corporal, resistência à insulina e outros fatores de confusão, a razão de risco (RR) de doença hepática gordurosa não alcoólica incidente foi 22% maior para as mulheres com ciclos menstruais longos ou irregulares do que para o grupo de referência (RR = 1,22; intervalo de confiança [IC] de 95% de 1,14 a 1,31). Quando calculado em uma análise tempo-dependente, o risco aumentou em quase 50% (RR = 1,49; IC 95% de 1,38 a 1,60).

Risco persiste após a exclusão de síndrome do ovário policístico

A síndrome do ovário policístico já foi associada a aumento do risco de doença hepática gordurosa não alcoólica, mas a associação entre ciclos menstruais longos ou irregulares e doença hepática gordurosa não alcoólica persistiu após a exclusão de participantes com síndrome do ovário policístico.

O mecanismo que relaciona a irregularidade menstrual à doença hepática gordurosa não alcoólica não está claro, mas os pesquisadores disseram que a exposição ao estrogênio está implicada. Além de uma associação previamente relatada entre baixos níveis de estradiol e antiestrogênicos, como o tamoxifeno, com aumento do risco de doença hepática gordurosa não alcoólica, eles citaram estudos associando a terapia de reposição de estrogênio a uma redução do risco da doença. O papel do estrogênio na supressão da inflamação, estresse oxidativo e resistência à insulina são condições que podem vincular menstruações mais regulares a um risco reduzido de doença hepática gordurosa não alcoólica, argumentaram os autores.

Pacientes com mais de 40 anos foram excluídas desta análise para reduzir a possibilidade de alterações na perimenopausa como fator de confusão.

Entre as limitações do estudo reconhecidas pelos pesquisadores, a presença de doença hepática gordurosa não alcoólica foi diagnosticada por ultrassonografia e não por histologia. As informações sobre os níveis de hormônio sexual ou prolactina não foram obtidas em relação à incidência de doença hepática gordurosa não alcoólica, e a ausência de exposição à terapia de reposição de estrogênio ou contraceptivos orais foi baseada no relato das participantes.

Ainda assim, o tamanho do estudo e a consistência dos resultados após o ajuste para diversos fatores de risco sugerem que ciclos menstruais longos e irregulares identificam mulheres em risco de doença hepática gordurosa não alcoólica. Uma implicação é que a menstruação irregular pode ser um marcador de risco de doença hepática gordurosa não alcoólica.

"Nossos achados não provam uma relação causal, mas mostram que ciclos menstruais longos ou irregulares foram significativamente associados a aumento do risco de doença hepática gordurosa não alcoólica", disse o Dr. Seungho Ryu, Ph.D., médico e professor da Universidade Sungkyunkwan. Autor sênior deste estudo, o Dr. Seungho enfatizou em uma entrevista que a associação "não foi explicada por obesidade ou qualquer outro fator de risco de doença hepática gordurosa não alcoólica".

Mudanças no estilo de vida podem reduzir o risco

A mensagem é que "mulheres jovens com ciclos menstruais longos ou irregulares podem se beneficiar de mudanças no estilo de vida para reduzir o risco de doença hepática gordurosa não alcoólica", afirmou o Dr. Seungho.

O Study of Women's Health Across the Nation, iniciado em 1994, não avaliou a doença hepática gordurosa não alcoólica, mas mostrou uma relação entre ciclos menstruais mais longos e mais fatores de risco cardiometabólicos, de acordo com a Dra. Nanette Santoro, médica, professora e presidente do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da University of Colorado, nos Estados Unidos.

Isso sugere que outros autores estejam "pensando na mesma linha", mas ao falar sobre o estudo, ela definiu alguns aspectos do desenho, bem como alguns achados da pesquisa, como "peculiares".

Além da definição extremamente restrita do que seriam ciclos regulares, a médica questionou a razão de risco consistente para doença hepática gordurosa não alcoólica para as participantes com ciclos longos em relação a outros tipos de menstruação irregular. Presumindo que o grupo com ciclos mais longos incluiria pelo menos algumas pacientes com síndrome do ovário policístico não diagnosticada, ela esperava que o risco fosse maior nesse grupo. Embora admitindo que as diferenças na composição corporal das mulheres coreanas possam explicar essa aparente discrepância, "gostaria de ver [os resultados serem] confirmados em outras amostras de participantes, com avaliações metabólicas mais detalhadas, para entender quem está em risco", disse.

Igualmente problemático para a força das conclusões, a razão de risco para doença hepática gordurosa não alcoólica entre participantes com ciclos menstruais longos ou irregulares foi "bastante baixa". A Dra. Nanette disse que trata-se de um nível em que o risco "é muito suscetível a confusão e pouco provável de influenciar a prática clínica".

A Dra. Anuja Dokras, Ph.D., médica, professora de ginecologia e obstetrícia e diretora do PCOS Center na University of Pennsylvania, nos EUA, também questionou se a síndrome do ovário policístico não diagnosticada poderia ter distorcido os dados.

"Há cada vez mais dados sobre a associação entre síndrome do ovário policístico e doença hepática gordurosa não alcoólica. A menstruação irregular é um critério-chave para síndrome do ovário policístico, que é a razão mais comum para anovulação", disse ela. A Dra. Anuja, portanto, considerou possível que pacientes com síndrome do ovário policístico não reconhecida tenham sido incluídas no estudo, enfraquecendo a alegação de que o risco de doença hepática gordurosa não alcoólica e ciclos menstruais longos permanece significativo após o controle para síndrome do ovário policístico.

O Dr. Seungho, os demais pesquisadores e as Dras. Nanette e Anuja informaram não ter conflitos de interesses.

Este conteúdo foi originalmente publicado em MDedge.comMedscape Professional Network.

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