Análise da variabilidade da frequência cardíaca pode contribuir para a objetividade do diagnóstico de TEPT

Teresa Santos (colaborou Dra. Ilana Polistchuck)

Notificação

18 de março de 2022

Estima-se que 8% a 15% das gestações clinicamente reconhecidas resultem em abortamento espontâneo e até 30% de todas as gestações tenham este desfecho, que pode ser devastador para os envolvidos. [1]Há dados limitados sobre a força da associação entre perda gestacional e os transtornos psiquiátricos subsequentes comumente observados, como ansiedade, depressão e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). [2] A prevalência do TEPT nesse grupo ainda é desconhecida e um dos fatores que contribuem para a ausência de dados é a subjetividade da avaliação diagnóstica.

Pensando nessa dificuldade, pesquisadores da Universidade Anhembi Morumbi (UAM), em São José dos Campos (SP), e colaboradores dos Estados Unidos e Emirados Árabes, investigaram biomarcadores de gravidade do TEPT que pudessem tornar a avaliação psiquiátrica em casos de abortamento espontâneo mais objetiva. Em um artigo recém-publicado no periódico Frontiers in Psychiatry, [3] o grupo mostrou que índices de variabilidade da frequência cardíaca, estimados durante um teste de respiração profunda, podem contribuir para melhorar o diagnóstico. Um dos autores, o Dr. Ovidiu Constantin Baltatu, médico e professor da UAM e da Khalifa University, nos Emirados Árabes, falou ao Medscape sobre os dados da pesquisa.

Detalhes do estudo

O trabalho, que foi realizado durante o mestrado da psicóloga Cláudia de Faria Cardoso em engenharia biomédica na UAM, sob orientação do Dr. Ovidiu, avaliou uma coorte de 53 mulheres com média de idade de 33 anos. Todas as participantes tinham história de pelo menos uma perda perinatal em um intervalo que variou de menos de 40 dias a mais de seis meses de gestação.

As participantes passaram por entrevista clínica e responderam a um questionário para avaliar a sintomatologia de TEPT, de acordo com os critérios da 5ª edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5, sigla do inglês Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders). O instrumento usado para a avaliação foi uma versão adaptada para o contexto brasileiro da Post-Traumatic Stress Examination List 5 (PCL-5). [4] Além disso, as pacientes responderam a um questionário para avaliar a disfunção autonômica global, o Composite Autonomic Symptom Score (COMPASS-31). [5]

A variabilidade da frequência cardíaca foi avaliada durante um teste de respiração profunda usando um sistema de scanner com eletrocardiograma (ECG) sem fio que permite a visualização e análise dos dados em tempo real. A avaliação da variabilidade da frequência cardíaca considerou três índices: SDNN (desvio padrão de toda a série de intervalos RR normais); RMSSD (raiz quadrada da média do quadrado das diferenças entre intervalos RR consecutivos) e pNN50% (percentagem de intervalos RR adjacentes com diferença de duração superior a 50 ms).

Das 53 participantes avaliadas, 25 foram diagnosticadas com TEPT associado à perda gestacional. A investigação também mostrou uma associação significativa entre os escores na PCL-5 e os índices de variabilidade cardíaca. O índice SDNN foi capaz de distinguir pacientes com TEPT das pacientes sem o quadro.

Para o Dr. Ovidiu, os índices de variabilidade da frequência cardíaca na verdade são um reflexo da disfunção do sistema nervoso autônomo, que é uma das principais vias neurais ativadas pelo estresse. [6]

O teste de respiração profunda, de acordo com o pesquisador, já é conhecido de longa data, porém, atualmente, não é muito utilizado na prática clínica. [7] Segundo ele, classicamente, as frequências cardíacas máxima e mínima durante a respiração a seis ciclos por minuto podem ser usadas para calcular a diferença ou razão expiratória-inspiratória, fornecendo uma indicação sobre o funcionamento do sistema nervoso autônomo. “O nosso grupo introduziu o estudo da variabilidade da frequência cardíaca durante o teste de respiração profunda, o que representa um avanço”, disse.

A metodologia usada pela equipe foi bem-recebida pelas participantes. “O fato de as mulheres conseguirem visualizar em uma tela, em tempo real, gráficos que materializavam o estresse que [elas] estavam vivenciando após o trauma sofrido foi percebido como uma forma de cuidado”, afirmou o pesquisador.

De maneira geral, a possibilidade de incorporar a avaliação da variabilidade da frequência cardíaca ao diagnóstico do TEPT contribuiu para torná-lo mais objetivo. "Normalmente, o estresse pós-traumático é avaliado através de questionário e de entrevista com psicólogos”, disse o médico, explicando que a subjetividade da avaliação é um dos principais fatores associados ao subdiagnóstico dessa condição.

Mas, segundo o Dr. Ovidiu, é preciso lembrar que outros aspectos também dificultam o diagnóstico de TEPT nessa população, por exemplo, o desconhecimento. Frequentemente, as mulheres que passaram por um aborto acabam não considerando que os sintomas que estão apresentando podem ser decorrentes de um quadro de TEPT. Isso reforça a importância de um profissional de psicologia clínica nos hospitais. Além disso, lembrou o médico, a mulher que passa por uma perda gestacional, em geral, tem recordações negativas do hospital e, portanto, acaba evitando buscar assistência médica. “No nosso estudo, toda a atenção e avaliação psicológicas foram realizadas fora do ambiente hospitalar, o que se mostrou mais agradável para as participantes”, pontuou.

O Dr. Ovidiu e a sua equipe estão dando seguimento às investigações, e os resultados preliminares indicam que os biomarcadores identificados na pesquisa são promissores em mais um cenário: na avaliação da evolução clínica das pacientes. Isso porque os índices de variabilidade da frequência cardíaca têm se mostrado úteis não só no diagnóstico, mas também no monitoramento das mulheres em tratamento, sendo capazes de apontar quais estão respondendo melhor à terapia.

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