Compensar o 'sono perdido' pode mitigar o risco de doença hepática gordurosa não alcoólica

Laird Harrison

Notificação

18 de março de 2022

Quem não dorme o suficiente durante a semana pode usar os fins de semana para compensar o “sono perdido” e assim reduzir o risco de doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA), dizem pesquisadores.

"Nosso estudo revelou que pessoas que dormem o suficiente têm menos risco de DHGNA do que as que dormem pouco", escreveu o médico Dr. Sangheun Lee, Ph.D., da Faculdade de Medicina da Catholic Kwandong University, na Coreia do Sul, e seus colegas, no periódico Annals of Hepatology .

Entretanto, os autores alertaram para a necessidade de mais pesquisas para verificar os achados do trabalho.

Estudos anteriores associaram o sono insuficiente a obesidade, hipertensão, diabetes mellitus, doença cardiovascular e fibrose hepática.

Uma agenda ocupada durante a semana pode fazer com que seja difícil ter uma quantidade suficiente de sono, e algumas pessoas tentam compensar essa falta dormindo mais nos fins de semana.

Os estudos realizados até o momento produziram resultados conflitantes sobre essa estratégia; alguns demostraram que dormir mais aos fins de semana reduz o risco de obesidade, hipertensão e síndrome metabólica, mas outros não mostraram efeito sobre a desregulação metabólica ou balanço energético.

Acessando informações sobre o sono de um país

Para explorar a relação entre padrões de sono e DHGNA, Dr. Sangheun e colegas analisaram dados das Pesquisas Nacionais de Saúde e Nutrição da Coreia coletados de 2008 a 2019. Os autores excluíram pessoas com menos de 20 anos de idade, com infecção por hepatite B ou C, cirrose hepática, câncer hepático, bem como quem trabalhava por turno (ou exercia outras funções associadas a um sono irregular) ou consumia álcool em excesso, restando uma coorte de 101.138 participantes.

As pesquisas nacionais não fizeram distinção entre o sono durante a semana ou aos fins de semana até 2016, então os pesquisadores dividiram os achados entre dois grupos: 68.759 participantes das pesquisas de 2008 a 2015 (grupo 1) e 32.379 participantes de 2016 a 2019 (grupo 2).

O grupo 1 foi subdividido entre média de sono > 7 horas por dia e média de sono < 7 horas por dia. O grupo 2 foi subdividido entre média de sono < 7 horas por dia sem compensar aos fins de semana, média de sono < 7 horas por dia compensando aos fins de semana e média de sono > 7 horas ao longo da semana.

Os pesquisadores utilizaram o índice de esteatose hepática para determinar a presença de um fígado gorduroso, calculado como 8 × (razão de alanina aminotransferase sérica para aspartato aminotransferase sérica) + índice de massa corporal (+2 para mulher, +2 em caso de diabetes). Um índice de esteatose hepática ≥ 36 foi considerado um indicador de esteatose hepática.

Menos sono, mais risco

Os participantes no grupo 1 dormiram em média 6,8 horas por dia [durante a semana]; 58,6% do grupo dormiu > 7 horas por dia. O grupo 2 dormiu em média 6,9 horas por dia durante a semana; 59,9% dormiram > 7 horas por dia. Eles dormiram em média 7,7 horas por dia nos fins de semana.

No grupo 1, dormir ≥ 7 horas foi associado com um risco 16% menor de DHGNA (razão de chances [RC] = 0,84; intervalo de confiança [IC] 95% de 0,79 a 0,89).

No grupo 2, dormir ≥ 7 horas por dia nos fins de semana foi associado a risco de DGHNA 19% mais baixo (RC = 0,81; IC 95% de 0,74 a 0,89). Dormir ≥ 7 horas por dia nos fins de semana foi associado a risco de DHGNA 22% mais baixo (RC = 0,78; IC 95% de 0,70 a 0,87). Em comparação com quem dormiu < 7 horas por dia durante a semana, os participantes que dormiram < 7 horas por dia durante a semana e > 7 horas por dia nos fins de semana tiveram uma taxa 20% menor de DGNHA (RC = 0,80; IC 95% de 0,70 a 0,92).

Todas essas associações foram verdadeiras tanto para homens quanto para mulheres.

Por que dormir pode ter suas vantagens para o fígado

Uma explicação para a conexão entre os padrões de sono e a DHGNA é que desregulações do cortisol, citocinas inflamatórias e noradrenalina estão associadas tanto com variações no sono quanto com o surgimento da DHGNA, escreveram o Dr. Sangheun e seus colegas.

Eles também apontaram que a falta de sono pode reduzir a secreção de dois hormônios que promovem saciedade: a leptina e o peptídeo semelhante ao glucagon 1. Como resultado, pessoas que dormem menos podem comer mais e ganhar peso, aumentando o risco de DHGNA.

O médico Dr. Ashwani K. Singal, professor de medicina na University of South Dakota, nos Estados Unidos, que não participou do estudo, observou que o trabalho foi baseado na comparação de um corte transversal de uma população em vez de no acompanhamento de participantes ao longo do tempo.

"Sendo assim, eu acredito que seja uma associação em vez de uma relação de causa e efeito", ele contou ao Medscape.

Os autores não relataram uma análise multivariada para determinar se comorbidades ou outras características dos pacientes podem explicar a associação, ele apontou, observando que a obesidade, por exemplo, pode aumentar o risco tanto de DHGNA quanto de apneia do sono.

Mesmo assim, ele disse, o artigo irá influenciá-lo a mencionar o sono no contexto dos fatores de estilo de vida que podem afetar a doença hepática gordurosa. "Direi aos meus pacientes e direi aos médicos da comunidade para orientar seus pacientes para seguirem uma boa higiene do sono e se certificar de que eles durmam pelo menos cinco a sete horas."

Annals of Hepatology. Publicado on-line em 20 de fevereiro de 2022. Texto completo

O Dr. Ahswani e os autores do estudo relataram não ter conflitos de interesse. O estudo foi financiado pela Fundação Nacional de Pesquisa da Coreia do Sul. Laird Harrison escreve sobre ciência, saúde e cultura. Seu trabalho já apareceu em revistas nacionais, jornais, rádios públicas e sites da internet. Atualmente ele está trabalhando em um romance sobre realidades alternativas na física. Laird dá aulas de escrita na Writers Grotto. Visite-o em www. lairdharrison.com ou siga-o no Twitter: @LairdH.

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