Marcadores na saliva associados a distúrbios intestinais em crianças com autismo

Pauline Anderson

Notificação

18 de março de 2022

Pesquisadores identificaram marcadores na saliva expressos de forma distintiva em crianças com transtorno do espectro autista que apresentam distúrbios gastrointestinais.

Esses achados selam o início de um entendimento sobre as diferenças biológicas que separam as crianças com transtorno do espectro autista que apresentam distúrbios gastrointestinais das que não apresentam este tipo de distúrbio, explicou ao Medscape o pesquisador do estudo Dr. David Q. Beversdorf, médico e professor de radiologia, neurologia e psicologia do Departamento de Ciências Psicológicas da University of Missouri, nos Estados Unidos.

"A esperança é que isso nos leve, no futuro, a marcadores que ajudem a orientar tratamentos de precisão direcionados aos distúrbios gastrointestinais" em crianças com autismo, a fim de melhorar a qualidade de vida desta população de pacientes, disse ele.

O estudo foi publicado on-line em 20 de janeiro no periódico Frontiers in Psychiatry.

A ansiedade seria um gatilho?

Distúrbios gastrointestinais, particularmente a constipação, são comuns em crianças com transtorno do espectro autista. Pesquisas anteriores feitas pelo Dr. David e seus colaboradores sugeriram que a ansiedade poderia estar guiando a relação entre distúrbios intestinais e autismo.

Pesquisas mostram que algumas crianças com transtorno do espectro autista respondem bem a tratamentos tradicionais, como laxantes, enquanto outras não. No entanto, as razões para isso não estão claras.

"Seria ótimo saber quem são esses pacientes que respondem tão bem", disse o Dr. David. "A subtipagem e o uso de biomarcadores podem ser biologicamente significativos," porque isso pode identificar grupos distintos.

O estudo de caso-controle foi realizado com 898 crianças entre 1,5 e 6 anos de idade recrutadas em ambulatórios pediátricos afiliados a sete centros médicos acadêmicos nos Estados Unidos. A média de idade da amostra foi de 44 meses, e os participantes eram principalmente brancos (76%), não hispânicos (89%) e do sexo masculino (73%).

As crianças foram separadas em três categorias de neurodesenvolvimento: transtorno do espectro autista (n = 503), atraso no desenvolvimento sem autismo (n = 205) e desenvolvimento típico (n = 190).

O transtorno do espectro autista foi diagnosticado por meio de ferramentas de avaliação padronizadas, como a 2ª edição da Autism Diagnostic Observation Scale (ADOS-2). Os participantes com atraso no desenvolvimento sem autismo tiveram atrasos nas habilidades motoras grosseiras, habilidades motoras finas, linguagem ou desenvolvimento cognitivo, mas não preencheram os critérios para transtorno do espectro autista.

A inclusão de crianças com atraso no desenvolvimento sem autismo foi importante para avaliar se os marcadores biológicos são específicos para o autismo ou para alterações do desenvolvimento em geral, observou o Dr. David.

Os participantes neurotípicos foram recrutados no momento de sua visita anual à puericultura.

Associação entre distúrbios gastrointestinais e comportamento

Os pesquisadores subdividiram os participantes entre crianças com distúrbios gastrointestinais (n = 184) e sem esses distúrbios (n = 714). Este dado foi registrado a partir da revisão de prontuários e do relato dos pais e das mães das crianças sobre distúrbios como constipação, refluxo, diarreia crônica ou dor abdominal e intolerância alimentar.

Como esperado, os pesquisadores descobriram que mais crianças com transtorno do espectro autista relataram distúrbios gastrointestinais (22%) do que com desenvolvimento típico (10%). Nas crianças com transtorno do espectro autista, as taxas de constipação (11%) e refluxo (6%) foram maiores do que entre aquelas com desenvolvimento típico (3% e 0,5%, respectivamente).

No entanto, as taxas de distúrbios gastrointestinais entre crianças com transtorno do espectro autista foram semelhantes às taxas entre crianças com atraso no desenvolvimento sem autismo.

Os pesquisadores usaram um swab para obter uma amostra de saliva de participantes em jejum. A saliva é uma fonte viável e muitas vezes de escolha para amostragem de biologia relacionada ao trato gastrointestinal. Ao contrário do microbioma das fezes, o microbioma da saliva pode ser coletado várias vezes caso necessário, e mostrou resiliência aos antibióticos.

Eles examinaram vários ácidos ribonucleicos (ARNs), que são "incrivelmente relevantes do ponto de vista biológico", disse o Dr. David.

Então, os pesquisadores compararam os níveis de 1.821 características de microtranscriptoma em relação ao estado do neurodesenvolvimento e à presença ou ausência de distúrbios gastrointestinais.

Eles também avaliaram os níveis de microtranscriptoma entre os subgrupos de distúrbios gastrointestinais (constipação, refluxo, intolerância alimentar, outros distúrbios, nenhuma queixa gastrointestinal). Além disso, identificaram ARNs que diferiam entre as crianças que tomavam três medicamentos gastrointestinais comuns, especificamente probióticos, medicamentos para refluxo ou laxantes.

Os pesquisadores encontraram cinco ARNs que interagem com o piwi, pequenas moléculas de ARN não codificantes, e três ARNs microbianos na saliva que exibem uma interação entre o desenvolvimento e distúrbios gastrointestinais. Cinquenta e sete ARNs salivares diferiram entre os subgrupos gastrointestinais, sendo as diferenças de microARN encontradas entre os grupos de intolerância alimentar e refluxo as mais comuns.

A análise identificou 12 microARNs que apresentaram relações com distúrbios gastrointestinais, comportamento e uso de medicamentos gastrointestinais.

Primeira exploração

No entanto, o Dr. David alertou sobre o achado em relação às medicações. "Não posso falar com confiança sobre o que observamos porque, em cada grupo, os tamanhos de amostra são muito, muito menores com cada abordagem de tratamento individual".

Os pesquisadores analisaram os alvos subsequentes dos 12 microARNs e encontraram envolvimento com 13 vias fisiológicas. Estas incluíram vias de longo prazo de depressão, metabolismo/digestão e dependência.

As vias de metabolismo e digestão fazem sentido, mas não está claro por que uma via relacionada a dependência estaria envolvida, disse o Dr. David. No entanto, ele observou que crianças com autismo apresentam características obsessivas.

Os especialistas não sabem se as alterações no ARN são uma causa ou uma resposta a problemas gastrointestinais. “Pode ser que a dor da constipação esteja desencadeando, digamos, essas mudanças na via da dependência”, disse.

O estudo é a "primeira exploração" de possíveis alvos específicos para o tratamento de distúrbios gastrointestinais no autismo, ele explicou. "Esperamos que esses biomarcadores acabem nos dando uma indicação de quais pacientes responderão à abordagem individual para tratar sua constipação, diarreia ou o que quer que seja".

Os pesquisadores planejam estudar se os biomarcadores de ARN determinam quais pacientes respondem a diferentes tratamentos direcionados à constipação, disse.

Uma limitação do estudo foi o fato de os distúrbios gastrointestinais não terem sido avaliados pelos médicos. Além disso, o termo "distúrbio gastrointestinal" agrupa patologias vagamente relacionadas que ocorrem no trato gastrointestinal, embora existam diferenças fisiológicas importantes entre doenças como constipação e refluxo.

O estudo recebeu financiamento dos National Institutes of Health dos EUA.

Front Psychiatry. Publicado on-line em 20 de janeiro de 2022. Texto completo

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