Doença hepática gordurosa é associada a risco de hipoglicemia grave no diabetes

Marlene Busko

Notificação

14 de março de 2022

Estudo nacional realizado na Coreia mostra aumento do risco de hipoglicemia grave (com necessidade de atendimento de emergência ou hospitalização) entre pacientes com diabetes tipo 2 e doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA), sem cirrose, mesmo após ajuste para variáveis como obesidade.

O estudo, realizado por Dr. Ji-Yeon Lee, Ph.D., médico na Faculdade de Medicina da Universidade de Yonsei, na Coreia do Sul, e colaboradores, foi publicado on-line em 23 de fevereiro no periódico JAMA Network Open.

"A presença de DHGNA foi associada a aumento de 1,3 vezes do risco de hipoglicemia grave, uma associação relativamente modesta em comparação com fatores de risco estabelecidos como uso de insulina ou sulfonilureia e doença renal crônica", escreveram os pesquisadores.

"No entanto, considerando a alta prevalência de DHGNA em pacientes com diabetes tipo 2, a contribuição da DHGNA para o risco de hipoglicemia não é desprezível".

Portanto, a "presença de DHGNA deve ser considerada ao avaliar a vulnerabilidade à hipoglicemia em pacientes com diabetes tipo 2", independentemente do estado de obesidade, concluíram.

Análises de subgrupos também identificaram que mulheres com DHGNA e pacientes com baixo peso "foram mais susceptíveis" a hipoglicemia grave, observaram, o que "fornece aos médicos informações adicionais sobre quais pacientes podem ter alto risco de hipoglicemia, para reduzir sua incidência e, em última análise, melhorar a segurança do paciente por meio de terapia individualizada".

São necessários mais estudos com outras populações raciais e étnicas, bem como para avaliar a causalidade e os mecanismos que ligam a DHGNA ao risco de hipoglicemia, disseram os autores.

Índice de gordura hepática: critério diagnóstico alternativo

Estima-se que 6% dos pacientes com diabetes tipo 2 tenham hipoglicemia grave, que está associada a quedas, acidentes de trânsito, demência, eventos cardiovasculares, medo, angústia e morte, além de custos adicionais de saúde, explicaram os pesquisadores.

E estima-se que 55% dos pacientes com diabetes tipo 2 tenham DHGNA, que está associada a obesidade e resistência à insulina. No entanto, a associação com o risco de hipoglicemia grave no diabetes tipo 2 ainda não havia sido bem estabelecida.

A partir do banco de dados do Serviço Nacional de Seguros de Saúde da Coreia do Sul, os pesquisadores identificaram 1.946.581 adultos que fizeram um exame médico entre 2009 e 2013 e foram diagnosticados com diabetes tipo 2. Pacientes com hepatite B ou C, cirrose, carcinoma hepatocelular, câncer de pâncreas ou história de consumo excessivo de álcool foram excluídos do estudo.

Durante uma mediana de 5,2 anos, 2,3% dos pacientes tiveram pelo menos um episódio de hipoglicemia grave.

Em relação aos pacientes que não apresentaram hipoglicemia, aqueles com hipoglicemia grave foram mais propensos a ser do sexo masculino (58% vs. 45%), mais velhos (média de idade: 68 vs. 57 anos), ter índice de massa corporal médio mais baixo (IMC) (24,2 kg/m2 vs. 25,1 kg/m2), hipertensão, doença renal crônica, doença cardiovascular e de fazer uso de insulina, sulfonilureia ou glinida, mas menos propensos a fumar, consumir bebidas alcoólicas ou serem fisicamente ativos (todos P < 0,001).

Na ausência de imagens ou biópsia hepática, os pesquisadores usaram o índice de gordura hepática (calculado a partir dos valores de triglicerídeos, IMC, gama-glutamiltransferase e circunferência abdominal) como substituto para o diagnóstico de DHGNA.

Foi identificada uma associação entre hipoglicemia grave e índice de gordura hepática em forma de J após ajuste para idade, sexo, tabagismo, consumo de álcool, exercício e IMC, e após ajuste adicional para história de hipoglicemia grave nos últimos três anos, hipertensão, doença renal crônica e doença cardiovascular, bem como para uso de insulina, sulfonilureia ou glinida.

Os participantes foram então classificados em três grupos, de acordo com a pontuação obtida no índice de gordura hepática: baixa (< 30 pontos: sem DHGNA), intermediária (30 a 59 pontos) e alta (≥ 60 pontos: com DHGNA).

No modelo totalmente ajustado, a incidência de hipoglicemia grave foi semelhante em pacientes com pontuação baixa ou intermediária, mas pacientes com pontuação alta apresentaram maior risco de hipoglicemia grave do que aqueles com pontuação baixa (razão de risco ajustada [RRa] = 1,26).

O risco de hipoglicemia grave entre pacientes com versus sem DHGNA foi maior entre participantes ≥ 60 anos do que entre participantes mais jovens, bem como entre mulheres do que entre homens (RRa = 1,29 vs. 1,17) e em pessoas que usavam sulfonilureia ou glinida vs. aquelas que não usavam. O risco foi maior em pessoas que tinham IMC < 18,5 kg/m2 (RRa = 1,71) e foi menor em usuários de insulina vs. não usuários.

Neste estudo de coorte de mais de 1,9 milhão de indivíduos, “pacientes com diabetes tipo 2 e DHGNA sem cirrose tiveram um risco aproximadamente 26% maior de hipoglicemia grave após ajuste para múltiplas covariáveis clínicas”, reiteraram os pesquisadores.

A pesquisa recebeu apoio de um Programa de Pesquisa de Ciências Básicas por meio da Fundação Nacional de Pesquisa da Coreia do Sul, financiada pelo governo do país. Os autores informaram não ter conflitos de interesses.

JAMA Netw Open. 2022;5:e220262. Texto completo

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....