COMENTÁRIO

Modelos de remuneração: qual a situação atual?

Nathalia Nunes

10 de março de 2022

Colaboração Editorial

Medscape &

Falar de modelos de remuneração tem sido cada vez mais importante à medida que se processam as discussões e as reformas dos sistemas de saúde ao redor do mundo. Os Estados Unidos, por exemplo, passaram a última década revisitando modelos assistenciais e de pagamento, tecnologias e outras regras para gerar mais acesso e qualidade. Por que essas reformas existem? Por que faz sentido mudar o formato de remuneração?

O modelo conhecido como Fee-For-Service, dominante em países como Brasil e Estados Unidos, é entendido como um obstáculo para a melhoria dos resultados entregues à saúde por ter como base o número de procedimentos ou serviços prestados para o paciente. A crítica a esse sistema é o incentivo a procedimentos desnecessários, já que recompensa volume (não qualidade) e funciona em um formato de “conta aberta”, ou seja, o paciente entra no consultório ou na instituição e o pagador (o próprio paciente ou uma operadora), só recebe a conta depois de todos os procedimentos realizados.

Um caminho que tem sido discutido, voltado para a garantia do cuidado adequado e a sustentabilidade do sistema, vai na direção de formatos baseados em valor. De forma mais prática, considerando questões relativas a pagamento, dois modelos se apresentam: capitation e pagamento por pacote.

No capitation, o sistema recebe da fonte pagadora, seja governo ou operadora de saúde, um valor anual que deve ser suficiente para todas as necessidades de determinada população ou paciente. Já no modelo por pacote, os prestadores recebem por todo o cuidado de um paciente durante a jornada – incluindo serviços, procedimentos e medicamentos (previstos ou não).

A solução é complexa e envolve muitas discussões, especialmente, porque é possível que só um novo modelo não seja capaz de substituir todas as possibilidades que o fee-for-service engloba hoje. Afinal, é preciso uma forma de reembolsar o sistema de saúde que alimente uma entrega de valor maior para os pacientes.

O modelo voltado mais para valor do que para volume implica um alinhamento de incentivos maior entre os elos da cadeia de valor e aumenta a possibilidade de um cuidado mais adequado, de um tratamento mais precoce e com menos desperdícios. Por outro lado, a lentidão na adoção destes novos modelos reflete a dificuldade na busca de um consenso entre os players, de uma aplicação das métricas de experiência do paciente e da qualidade do cuidado prestado, e de uma previsibilidade de custo total.

No fim das contas, a revisão dos modelos de remuneração pretende apoiar uma reestruturação dos sistemas ao redor do mundo e, assim, garantir um alinhamento de incentivos entre os elos da cadeia. Daqui para frente, o setor precisa entender que não há uma proposta que resolva todas as questões, mas um conjunto de iniciativas que conseguem, juntas, entregar mais valor.

Nathalia Nunes é fonoaudióloga pela Universidade de São Paulo com MBA em Economia e Gestão pela Unifesp e Head de Expansão na Prontmed.

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