Cuidar de um animal de estimação pode proteger o cérebro do envelhecimento

Megan Brooks

Notificação

10 de março de 2022

Uma nova pesquisa sugere que cuidar de um cão ou gato por vários anos pode ajudar a mitigar o declínio cognitivo nos idosos.

Em um grande estudo com beneficiários do Medicare, nos Estados Unidos, tutores de animais de estimação tiveram declínio cognitivo mais lento ao longo de seis anos do que indivíduos que não cuidavam de um animal doméstico.

"Pesquisas anteriores estudaram o impacto dos animais de estimação na saúde geral, no humor e na qualidade de vida; mas, até onde sabemos, nosso estudo é o primeiro a considerar o efeito da duração da posse de animais de estimação na saúde cognitiva de idosos com 65 anos ou mais", disse ao Medscape a primeira autora, Jennifer W. Applebaum, candidata a doutorado em sociologia, cursando pré-doutorado dos National Institutes of Health (NIH) na University of Florida, nos Estados Unidos.

Embora o estudo não possa provar uma relação de causa e efeito, os achados fornecem evidências iniciais sugerindo que a posse de animais de estimação em longo prazo pode proteger contra o declínio cognitivo, acrescentou a autora sênior, Dra. Tiffany J. Braley, professora associada de neurologia da University of Michigan.

Este é "um passo necessário para entender como as relações com animais de companhia podem contribuir para a saúde do cérebro", disse a Dra. Tiffany.

Os achados serão apresentados na American Academy of Neurology (AAN) 2022 Annual Meeting em abril.

Benefícios de um animal de companhia por um longo período

Os pesquisadores examinaram as associações entre a posse de animais de companhia e os desfechos relacionados à saúde cognitiva em longo prazo em 1.369 adultos participantes do Health and Retirement Study (HRS), uma coorte nacional representativa de adultos americanos com 50 anos ou mais.

Foram utilizadas avaliações cognitivas de 2010 a 2016 para criar uma pontuação composta, com valores de 0 a 27, derivada dos seguintes testes:

  • Teste de recordação livre imediata e tardia de 10 substantivos;

  • Teste de subtração em série de sete;

  • Teste de contagem regressiva.

Todos os participantes tinham cognição normal no início do estudo. Mais da metade dos participantes (53%) tinha animais de estimação e 32% eram tutores de longa data, cuidando do animal por cinco anos ou mais.

Em comparação com indivíduos sem animais de companhia, os tutores eram menos propensos a ter hipertensão (44% versus 49%), porém tendiam mais a desenvolver depressão (24% versus 14%); adicionalmente, indivíduos no segundo grupo também apresentavam maior nível socioeconômico.

Ao longo de seis anos, as pontuações cognitivas diminuíram em um ritmo mais lento entre os tutores de animais de estimação, sobretudo, entre os que cuidaram de animais por longos períodos.

Considerando-se outros fatores conhecidos por afetar a função cognitiva, os tutores de animais de estimação há mais tempo, em média, apresentaram uma pontuação cognitiva composta 1,2 ponto maior em seis anos do que os indivíduos sem animais.

Os benefícios cognitivos associados à posse de animais de estimação por mais tempo foram mais proeminentes para adultos afrodescendentes, com educação universitária e homens.

Menos estresse, mais movimento?

Entretanto, a Dra. Tiffany advertiu que não é possível atribuir "significado clínico a essas pontuações cognitivas específicas do HRS, pelo menos não de uma maneira que leve a um prognóstico específico".

A autora também observou que são necessárias pesquisas adicionais para explorar as possíveis razões pelas quais ter um animal de companhia pode ajudar a proteger o cérebro.

"Se existe uma relação causal entre a posse prolongada de animais de estimação e a saúde cognitiva, a atividade física e a redução do estresse crônico podem ser os mecanismos envolvidos", disse a pesquisadora.

"A atividade física associada à posse de cães pode trazer benefícios tanto à saúde cognitiva como à saúde física. Pesquisas anteriores também identificaram associações entre interações com animais de companhia e medidas fisiológicas de redução do estresse, como redução dos níveis de cortisol e da pressão arterial, que em longo prazo podem ter um impacto na saúde cognitiva", disse a Dra. Tiffany.

É importante ressaltar, acrescentou a Dra. Jennifer, que "não recomendamos a posse de animais de estimação como uma intervenção terapêutica. No entanto, recomendamos que as pessoas que possuem animais de estimação sejam apoiadas para mantê-los, por meio de políticas públicas e parcerias comunitárias".

“Uma separação indesejada pode ser devastadora para um tutor que criou um vínculo afetivo com o animal, e as populações marginalizadas correm maior risco de desfechos indesejados”, disse a pesquisadora.

Ela observou que as opções para auxílio incluem regular ou abolir as taxas para animais de estimação em moradias alugadas, principalmente em comunidades de baixa renda e de afrodescendentes; dar acolhimento para indivíduos não disponíveis para cuidar de seus animais devido a um imprevisto com a saúde ou outra emergência; e assistência veterinária gratuita ou de baixo custo para tutores de baixa renda.

"A posse de animais de companhia não deve servir como um meio de preservar a saúde cognitiva. No entanto, se existir uma relação causal, esses dados forneceriam embasamento adicional para o desenvolvimento de programas de apoio a idosos interessados ​​em iniciar ou manter a tutoria de animais de estimação", acrescentou a Dra. Tiffany.

Primeiro estudo em grande escala

Comentando o estudo para o Medscape, o Dr. Shaheen E. Lakhan, Ph.D., neurologista em Boston, nos Estados Unidos, observou que este foi um dos primeiros estudos em grande escala que associou a posse de animais de estimação à saúde cognitiva.

"O estudo respalda outras linhas de pesquisa que constataram benefícios para a saúde mental e emocional com animais de companhia, o que corrobora a narrativa mais ampla de que cuidar de um animal realmente melhora a saúde do cérebro, nos domínios comportamental, cognitivo, emocional e físico", disse o médico, que não participou da pesquisa.

American Academy of Neurology (AAN) 2022 Annual Meeting. Abstract 671. Apresentação prevista para 2 de abril de 2022.

O estudo foi apoiado pelos National Institutes of Health, National Heart, Lung, and Blood Institute e National Institute on Aging. Os pesquisadores e o Dr. Shaheen informaram não ter conflitos de interesses relevantes.

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