Pacientes com câncer colorretal podem consumir carne vermelha ou processada?

Liam Davenport

Notificação

10 de março de 2022

Pacientes diagnosticados com câncer colorretal não apresentam maior risco de recorrência da doença ou de morte se consumirem carnes vermelhas ou processadas, sugere uma nova análise de dados de estudos prospectivos nos Estados Unidos.

"Embora o nosso estudo tenha limitações, esses achados podem embasar as orientações oferecidas ao paciente e o desenvolvimento de diretrizes nutricionais específicas para sobreviventes de câncer", disseram os autores.

Os resultados sugerem que não haja problema para os pacientes com câncer colorretal em comer esses alimentos, o que contradiz as recomendações atuais.

Atualmente, a American Cancer Society e o American Institute for Cancer Research/World Cancer Research Fund recomendam aos sobreviventes de câncer que limitem a ingestão de carnes vermelhas e processadas.

Isso se baseia na conhecida associação entre o consumo de carne vermelha/processada e o aumento do risco de câncer colorretal. Recentemente, essa associação foi novamente confirmada, conforme noticiado pelo Medscape. Mas tem origem em estudos da população geral.

Neste último estudo, os pesquisadores analisaram especificamente indivíduos que já haviam sido diagnosticados com câncer colorretal para determinar se a recomendação de evitar carnes vermelhas e processadas é justificada.

A pesquisa foi publicada no periódico JAMA Network Open em 22 de fevereiro.

Erin L. Van Blarigan, do Departamento de Epidemiologia e Bioestatística da University of California, San Francisco (UCSF), nos EUA, identificou 1.011 pacientes com câncer colorretal estágio III inscritos no estudo Cancer and Leukemia Group B . A idade mediana no momento da inscrição foi de 60 anos; 44% dos participantes eram mulheres e 89% eram brancos.

Os participantes preencheram um questionário de frequência alimentar validado aproximadamente três meses após o diagnóstico e seis meses após o fim do tratamento ou cerca de 15 meses após o diagnóstico.

Além da ingestão de carne vermelha e processada, os pesquisadores avaliaram comportamentos de saúde como história de tabagismo, uso de ácido acetilsalicílico, prática de atividade física e uso de vitaminas e suplementos minerais.

Os pacientes que registraram o maior consumo de carne vermelha foram mais propensos a serem do sexo masculino e brancos, terem sido diagnosticados com câncer em estágio T3 ou T4, terem doença pouco diferenciada ou indiferenciada, bem como índice de massa corporal (IMC) mediano mais alto.

Os pacientes que registraram o maior consumo de carne processada foram mais propensos a serem do sexo masculino e negros, tabagistas, terem sido diagnosticados com câncer em estágio T3 ou T4 e terem um IMC mediano mais alto.

Ao longo de um acompanhamento mediano de 6,6 anos, houve 81 recorrências de câncer colorretal e 305 mortes.

A análise multivariada mostrou ausência de associação entre ingestão de carne vermelha ou processada após o diagnóstico de câncer de cólon e risco de recorrência da doença ou mortalidade.

A razão de risco para o risco de recorrência nos quartis mais altos versus nos mais baixos de consumo de carne vermelha foi de 0,84, enquanto a de carne processada foi de 1,05.

O risco de morte por todas as causas foi semelhante, com uma razão de risco de 0,71 para os quartis mais altos vs. os mais baixos de consumo de carne vermelha e uma razão de risco de 1,04 para carne processada.

Os autores pontuaram que o estudo foi observacional e examinou comportamentos relatados pelo próprio paciente, portanto, "não se pode descartar a possibilidade fatores de confusão não avaliados ou residuais".

Além disso, eles alertaram que os resultados "podem não se aplicar" a pacientes com câncer colorretal estágio I-II ou IV, e os dados disponíveis não contemplam informações sobre "consumo de carne antes do diagnóstico ou formas de preparação da carne".

A pesquisa recebeu apoio do National Cancer Institute dos National Institutes of Health dos EUA. A pesquisa de Jeffrey A. Meyerhardt's recebeu apoio dos fundos Douglas Gray Woodruff Chair, Guo Shu Shi Fund, Anonymous Family Fund for Innovations in Colorectal Cancer, Project P e da George Stone Family Foundation. Van Blarigan informou não ter conflitos de interesses. Meyerhardt tem relações com Boston Biomedical, COTA Healthcare, Merck, e Taiho Pharmaceutical. Outros autores relataram diversos conflitos de interesses.

JAMA Netw Open. Publicado on-line em 22 de fevereiro de 2022. Texto completo

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