Clube de Revistas de pediatria: otite, prematuridade e crupe na covid-19

 Dr. Fernando Lyra

Notificação

9 de março de 2022

Neste artigo

Dr. Fernando Lyra

Nesta seção o Dr. Fernando Lyra comenta estudos divulgados recentemente em publicações de impacto na área da pediatria. Membro do Departamento Científico de Cuidados Domiciliares da Sociedade de Pediatria de São Paulo, o Dr. Fernando também é especialista em administração em saúde (AMB e Sociedade Médica Brasileira de Administração em Saúde).

1. Repensando a conduta na otite média aguda

Os autores de Rethinking Our Approach to Management of Acute Otitis Media apresentam no viewpoint do periódico JAMA Pediatrics importantes opiniões sobre o manejo da otite média aguda.

Eles indicam que a recomendação de conduta expectante para crianças com otite média aguda não severa, com prescrição de antibioticoterapia apenas em caso de estagnação ou deterioração do quadro, preconizada pela American Academy of Pediatrics (AAP) não vem sendo adequadamente adotada. De acordo com os autores, 95% das crianças com otite média aguda recebem prescrição de antibioticoterapia imediata.

Eles destacam ainda que a antibioticoterapia costuma ser prescrita por 10 dias (quando a recomendação é de cinco a sete dias para pacientes maiores de dois anos de idade) e que, em 40% dos casos, a prescrição não é de amoxicilina, nesses casos sendo muito utilizados a azitromicina e o cefdinir. Os autores também salientam os danos que uma antibioticoterapia desnecessária pode acarretar, entre eles, o desenvolvimento de microrganismos resistentes, o aumento de infecções por Clostridioides difficile etc.

Aproximadamente 60% dos casos de infecção viral ou por Streptococcus pneumoniae, Haemophilus influenzae ou Moraxella catarrhalis, os agentes etiológicos mais frequentes da otite média aguda, em crianças maiores de dois anos de idade têm resolução espontânea, sem antibioticoterapia. Os autores explicam que a incidência de resolução espontânea é ainda maior nos casos de infecção por M. catarrhalis (75%) ou H. influenza (48%).

Entre as infecções bacterianas mais prevalentes na otite média aguda, as por H. influenzae e M. catarrhalis são associadas a elevada produção de betalactamase e consequente resistência à amoxicilina.

No artigo, os autores discutem como podemos reduzir a utilização desnecessária de antibióticos na otite média aguda, e propõem a mudança do foco na antibioticoterapia, sendo que a maioria das crianças precisarão de tratamento exclusivamente sintomático, com gerenciamento dos sintomas nos casos sem antibioticoterapia e apenas utilizar antibióticos em casos selecionados.

Para lembrar:

A adequada prescrição de antibioticoterapia na prática pediátrica, em especial nos diagnósticos de maior prevalência como a otite média aguda, é tema de extrema relevância. O artigo The Diagnosis and Management of Acute Otitis Média, publicado no periódico Pediatrics, fornece atualizações e recomendações da Clinical Practice Guideline da AAP aos médicos da atenção básica para o manejo de crianças de 6 meses a 12 anos de idade com otite média aguda não complicada. E do qual adotamos e destacamos a seguinte conduta, adaptada de sua tabela 4:

Tratamento inicial para crianças com diagnóstico confirmado de otite média aguda não complicada:

De 6 meses a 2 anos de idade:

  • Indica-se antibioticoterapia em casos de otite média aguda com otorreia; otite média aguda uni ou bilateral com sintomas severos; otite média aguda bilateral (mesmo sem otorreia).

  • Indica-se antibioticoterapia OU conduta expectante em caso de otite média aguda unilateral sem otorreia.

A partir de 2 anos de idade:

  • Indica-se antibioticoterapia em casos de otite média aguda com otorreia e otite média aguda uni ou bilateral com sintomas severos.

  • Indica-se antibioticoterapia OU conduta expectante em casos de otite média aguda bilateral sem otorreia e otite média aguda unilateral sem otorreia.

A conduta inicial a ser adotada na otite média aguda cria a oportunidade para a tomada de decisões compartilhadas com a família da criança. Qualquer que seja a conduta, mas em especial na adoção da conduta expectante, deve-se garantir o acompanhamento da criança e o apoio aos familiares para iniciar a antibioticoterapia caso o paciente não melhore ou piore dentro de 48 a 72 horas após o início da otite média aguda.

Para crianças menores de seis meses de idade com otite média aguda suspeita ou confirmada, é indicado início imediato de antibioticoterapia.

Referência:
Frost H, Hersh A. Rethinking Our Approach to Management of Acute Otitis Media. JAMA Pediatr. 2022. doi:10.1001/jamapediatrics.2021.6575

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