COMENTÁRIO

Descoberta nova via molecular que controla glicemia independente da insulina

Dr. Fabiano M. Serfaty

Notificação

1 de março de 2022

Um estudo, publicado recentemente no periódico Cell Metabolism demonstra que um hormônio chamado FGF1 regula a glicemia inibindo lipólise. Assim como a insulina, o
FGF1 controla a glicemia inibindo a lipólise, mas os dois hormônios o fazem de
maneiras diferentes. [1]

Inibição da lipólise por duas vias distintas

Pela primeira vez na história da medicina, encontrar um segundo hormônio que
suprima a lipólise e reduza a glicose é um avanço científico importante. [1] Esta descoberta tem importante aplicabilidade clínica, uma vez que o FGF1 ou sua via de ação poderão ser utilizados para reduzir a resistência à insulina e tratar o diabetes.

O mesmo grupo de pesquisadores demonstrou previamente que a injeção de FGF1
reduziu a glicemia em camundongos, e que o tratamento crônico com FGF1 reduziu a
resistência à insulina nos modelos murinos.

Aos investigarem os mecanismos por trás desses fenômenos, os pesquisadores deste estudo demonstraram que o FGF1 suprime a lipólise e regula a produção de glicose no fígado, assim como a insulina. 

O fato inédito descoberto pela primeira vez, 101 anos após a descoberta da insulina, é que o mecanismo de ação do FGF1 se faz por uma via de sinalização diferente da insulina, por meio da enzima PDE4 (fosfodiesterase 4). A insulina, por sua vez, suprime a lipólise por meio da enzima PDE3B (fosfodiesterase 3B). [1]

Inibidores da PDE: o caso da tadalafila

A tadalafila é um inibidor da fosfodiesterase 5 (PDE5), assim como a sildenafila e a vardenafila, que são utilizados como tratamentos para a disfunção erétil. Vários estudos prévios já demonstraram que os inibidores da PDE5, não são totalmente seletivos para a PDE5 e podem inibir outras PDEs. A tadalafila, por exemplo, apresenta seletividade tanto para inibição da PDE5 quanto da PDE4. [2]

Embora os autores do estudo publicado na Cell não tenham falado sobre medicações que possam ter ação nesta nova via descoberta em seu trabalho, um estudo publicado recentemente em uma plataforma de pre print – ainda sem revisão por pares – demonstrou que o uso do tadalafila em baixas doses foi eficaz e seguro para melhorar o controle da glicose e da função erétil em homens com diabetes tipo 2. [3]

O tratamento diário com tadalafila em homens com disfunção erétil (DE) e diabetes tipo
2 por seis meses levou a uma melhora significativa no controle glicêmico em
comparação com placebo neste estudo prospectivo e randomizado com 68 pacientes.

Os indivíduos envolvidos no estudo com a tadalafila tinham entre 35 e 75 anos, diagnóstico de diabetes tipo 2, e disfunção erétil há mais de um ano. Eles tinham parceiro(a) sexual regular e tiveram relações sexuais pelo menos uma vez no mês anterior ao início do estudo, mas também tinham um histórico de incapacidade persistente de alcançar ou manter ereção suficiente para um desempenho sexual satisfatório. Todos os pacientes incluídos tinham um nível de HbA1c inferior a 9% e nenhum histórico de tratamento prévio com um inibidor da fosfodiesterase tipo 5 (PDE5) – classe de medicamentos que inclui tadalafila – durante os últimos três meses.

Os desfechos avaliados foram a mudança desde o início do estudo da HbA1c,
mudança na glicose plasmática de jejum e modificações em duas medidas avaliação
da disfunção erétil, o escore do Índice Internacional de Função Erétil (IIEF-5) e o
Escore Internacional de Sintomas de Próstata (IPSS). Os participantes receberam de maneira randomizada placebo (25 pacientes) ou tadalafila (50 indivíduos, que fizeram o uso em dose diária de 5 mg). O estudo durou seis meses e um total de 68 pacientes (45 no grupo tadalafila e 23 no grupo placebo), completaram todo o protocolo de tratamento proposto inicialmente. [3]

Ao final do estudo a diminuição nas médias de HbA1c no grupo de pacientes que utilizou a tadalafila foi maior do que no grupo que utilizou o placebo (-0,14% ± 0,53% vs. 0,20% ± 0,69%, P = 0,030). A redução nos níveis de glicemia do início ao final do estudo também foi significativamente maior no grupo de paciente que usou a tadalafila, quando comparado com o grupo que utilizou o placebo (-6,40 ± 28,53 mg/dL vs. 5,35 ± 17,77 mg/dL, P = 0,046). A tadalafila na dose de 5 mg diários foi bem tolerada e nenhum participante interrompeu o estudo por efeitos adversos no tratamento. [3]

Novas possibilidades terapêuticas na diabetes?

Mais estudos são necessários para que inibidores da PDE venham a fazer parte do arsenal terapêutico para o tratamento do diabetes, mas a mensagem que fica é de esperança: sabemos que existe agora uma nova possibilidade real de uma via terapêutica efetiva, que independe da ação da insulina.

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