Biomarcadores salivares podem detectar carcinoma hepatocelular, diz estudo-piloto

Marcia Frellick

Notificação

1 de março de 2022

Microácidos ribonucleicos (miARNs) indutores de carcinoma hepatocelular, o tipo mais comum de câncer hepático, são detectados na saliva pela primeira vez, mostra estudo-piloto.

Os achados foram publicados on-line no periódico PeerJ.

Esses ácidos pequenos e não codificantes regulam diversas funções celulares e afetam o desenvolvimento e a progressão do câncer.

A descoberta tem o potencial de oferecer uma alternativa não invasiva ou um complemento às ferramentas de detecção disponíveis – a ultrassonografia e o biomarcador sérico alfafetoproteína (AFP) –, que carecem de sensibilidade, disse o Dr. Daniel Rotroff, Ph.D., mestre em Saúde Pública, autor sênior do estudo e pesquisador no Departamento de Ciências de Saúde Quantitativas na Cleveland Clinic, nos Estados Unidos.

"As atuais ferramentas clínicas não são adequadas", ele disse ao Medscape. "Elas deixam de identificar cerca de 40% a 50% dos pacientes com carcinoma hepatocelular."

Os cientistas estão interessados em encontrar melhores maneiras de detectar o câncer hepático, cuja incidência vem aumentando rapidamente. O carcinoma hepatocelular representa 80% de todos os tumores hepáticos.

"O carcinoma hepatocelular e os tumores hepáticos em geral são os tipos de câncer que mais têm aumentado nos Estados Unidos", disse Daniel. "Representam a quinta e a sétima maiores causas de morte por câncer entre homens e mulheres, respectivamente."

Impulsionando esse crescimento está o aumento de comorbidades como hepatite C, obesidade, doença hepática gordurosa e alcoolismo.

A médica Dra. Nancy Reau, chefe de setor e coordenadora da disciplina de hepatologia no Rush Medical College, nos Estados Unidos, que não participou do estudo, disse ao Medscape que, apesar de o estudo ter uma escala relativamente pequena, ele fornece uma informação preliminar que é "bastante atrativa".

Se estudos maiores confirmarem os resultados, a descoberta pode abrir a possibilidade de pacientes enviarem amostras de saliva pelo correio diretamente das suas casas para o rastreamento do câncer hepático.

A pandemia, ela observou, realçou as deficiências da ultrassonografia em rastrear o câncer hepático, visto que requer que os pacientes compareçam a um local físico.

"Seria ótimo ter um biomarcador que fosse mais acessível e preciso", ela disse. "Teria inúmeras aplicações onde a vigilância do câncer é menos disponível."

"Nós sabemos que as amostras de saliva são estáveis em temperatura ambiente. Isso abre possibilidades para expandirmos a rede de rastreamento para um número mais amplo de pacientes", o Dr. Daniel acrescentou.

Diferenciando o carcinoma hepatocelular da cirrose 

Pesquisadores da Cleveland Clinic realizaram um pequeno sequenciamento de ARN em 20 pacientes com carcinoma hepatocelular e compararam os achados com os de um sequenciamento feito em 19 pacientes com cirrose.

A cirrose hepática é o principal fator de risco de carcinoma hepatocelular, portanto, separar os pacientes com carcinoma hepatocelular desta coorte de pacientes de alto risco serviu como prova de princípio.

O sequenciamento mostrou que 4.565 miARNs precursores e maduros foram detectados na saliva, e que 365 eram significativamente diferentes entre pacientes com carcinoma hepatocelular e pacientes com cirrose (taxa de falsa descoberta, P < 0,05).

"Curiosamente, 283 desses miARNs foram significativamente desregulados em pacientes com carcinoma hepatocelular", escreveram os autores.

Através de aprendizado de máquina foi descoberta uma combinação de 10 miARNs e covariáveis que classificaram de forma precisa os pacientes com carcinoma hepatocelular (área sob a curva = 0,87).

Os pesquisadores observaram que os miARNs foram encontrados na saliva e mostraram potencial como biomarcadores não invasivos para vários outros tipos de câncer, como, por exemplo, de mama, boca e pulmão.

Além disso, Daniel relatou que foi evidenciado que os miARNs se alteram no tecido tumoral do carcinoma hepatocelular quando comparados com os do tecido circunjacente.

Identificando o câncer precocemente 

A Dra. Nancy observou que um ponto forte do estudo reside no fato de ter validado o biomarcador em um grupo diverso de pacientes já diagnosticados com câncer hepático, incluindo pacientes com câncer em estágios iniciais, pacientes submetidos a transplante e outros com recidivas.

"Todos que procuram por biomarcadores buscam se certificar de que essa ferramenta identifique o paciente em um momento em que se consiga realizar um tratamento precoce que valha a pena", disse ela.

"Você não quer identificar o câncer quando a situação está ruim e já não há mais opções.

É nesse ponto que a alfafetoproteína falha em alguns momentos. Mesmo que a ultrassonografia não seja precisa, ainda assim ela geralmente identifica os pacientes quando eles ainda se encaixam nos protocolos de tratamento com chance de cura."

O Dr. Daniel também ressaltou a importância da detecção precoce dos casos de câncer, observando que o prognóstico para pacientes com carcinoma hepatocelular antes da ocorrência de metástase é maior que quatro anos, enquanto caso já tenham surgido metástases esse prognóstico cai para menos de um ano.

O Dr. Daniel possui uma participação acionária na empresa Clarified Precision LLC e propriedade intelectual relacionada à detecção do carcinoma hepatocelular. A Dra. Nancy informou não ter conflitos de interesses.

Peer J. Publicado on-line em 05 de janeiro de 2022. Texto completo

Marcia Frellick é jornalista freelancer residente de Chicago. Ela já assinou artigos em Chicago Tribune, Science News e Nurse.com, e atuou como editora no Chicago Sun-Times, Cincinnati Enquirer e no St. Cloud Times. Acompanhe seu trabalho no Twitter: @mfrellick

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