COMENTÁRIO

Saúde baseada no 'valor percebido' pelo paciente: os benefícios de documentar a 'jornada clínica'

Nélio Borrozzino

24 de fevereiro de 2022

Colaboração Editorial

Medscape &

Muito embora seja uma temática inerente às ciências médicas, ouvimos cada vez mais falar sobre medicina baseada em evidências e medicina baseada em valor. A princípio, isso pode parecer redundante, afinal, a medicina se preocupa em seguir o método científico desde os primórdios.

Mas quais os reais impactos de trabalhar com metodologias como a saúde baseada em valor (tradução livre de value-based healthcare ou VBHC)? Neste artigo, vamos falar um pouco sobre os conceitos atrelados a desfechos clínicos e as repercussões desses modelos em nosso cotidiano.

Primeiramente, precisamos compreender o conceito de saúde baseada em valor, que pode ser definido como uma iniciativa de reestruturação dos sistemas de saúde, com o objetivo global de ampliar o valor para os pacientes, conter o aumento de custos e oferecer mais conveniência e serviços a todos os envolvidos no processo. Desse modo, trata-se de proporcionar um valor percebido pelo paciente (e demais envolvidos), considerando o desfecho do tratamento e da experiência.

Além disso, é fundamental compreender o que são os desfechos clínicos do paciente, visto que se configuram como uma variável importante para agregar valor percebido ao contato com a medicina. Não menos importante, precisamos entender que os desfechos também auxiliam o médico em sua tomada de decisão e, principalmente, a compreender a real situação do paciente dentro e fora do consultório.

Acompanhar os desfechos clínicos de um paciente nada mais é do que coletar informações qualitativas e quantitativas em toda a sua jornada hospitalar, seja no consultório médico, em cirurgias ou no “pós-alta”. Nessa trajetória, também podem ser desenhadas linhas de cuidado para melhorar o acompanhamento de cada indivíduo, por exemplo, realizando o acompanhamento de pacientes diabéticos em períodos específicos e solicitando exames mínimos para verificar se a patologia permanece controlada.

Os benefícios de se estruturar essa etapa do atendimento são inúmeros, para médicos, instituições e pacientes. Nesse sentido, podemos elencar alguns pontos de grande impacto, como:

  1. melhor estruturação dos processos internos, visto que há a necessidade de padronização dos desfechos e linhas de cuidado dos pacientes;

  2. com essa documentação, torna-se viável proporcionar possíveis indicadores clínicos para cada linha de cuidado, de forma que haverá evidência clínica para identificar as conformidades de cada desfecho;

  3. maior visibilidade do paciente ao médico que, culturalmente, tem pouca informação sobre o que ocorre após a alta médica – neste caso, os dados dos desfechos podem servir como ferramenta para uma melhor prática médica baseada em evidências; e

  4. aumento do grau de satisfação e fidelização dos clientes aos serviços de saúde. Como consequência de notória preocupação com o desfecho do paciente, a tendência é que as pessoas se sintam mais ouvidas e sejam mais bem orientadas sobre seus problemas de saúde, o que tem grande impacto nessa fidelização.

Além desses benefícios, o uso de desfecho clínico, integrado a uma potente ferramenta tecnológica, como um software médico, proporciona às instituições um rico material para gestão de dados e avaliação de indicadores institucionais – permitindo, inclusive, a criação de comitês clínicos para discussões e padronizações de linhas de cuidado.

Portanto, estamos falando de um modelo inerente ao conceito de saúde baseada em valor que, cada vez mais, passa a ser visto como mais eficiente e com indicadores passíveis de estruturação e validação/acompanhamento.

Já sabemos que os atuais modelos de remuneração são obsoletos. Movimentos como esse demonstram ser possíveis substitutos – plausíveis e sustentáveis – para o mercado nacional de saúde.

 

Nélio Borrozzino é mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP e Clinical Intelligence Scientist Senior na Prontmed

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