Pesquisador lamenta "desigualdade científica" e limitação de dados sobre vacinas de vírus inativado

Pamella Lima (colaboraram Teresa Santos e Dra. Ilana Polistchuck)

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2 de fevereiro de 2022

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O primeiro dia do XXII Congresso Brasileiro de Infectologia (INFECTO 2021), realizado no formato híbrido (on-line e presencial) em dezembro de 2021, foi destinado a alguns cursos. Uma das aulas ministradas no evento foi sobre a imunização contra a covid-19, e coube ao infectologista Dr. Julio Croda, Ph.D., pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), compartilhar os aprendizados obtidos a partir dos estudos de efetividade e eficácia das vacinas anticovídicas.

O médico defendeu a necessidade de darmos continuidade às pesquisas, mas também apontou que há uma “desigualdade na divulgação científica” sobre vacinas de vírus inativado versus outras tecnologias.

O Dr. Julio falou sobre as diferentes vacinas anticovídicas disponíveis e sobre a efetividade, a eficácia e os desfechos associados aos imunizantes nas diferentes populações. Ele começou a sua fala defendendo a importância dos estudos de efetividade e eficácia, pois, apesar de suas limitações, quando comparados aos trabalhos controlados e randomizados, “são complementares e extremamente relevantes para entendermos o contexto atual”. Para aumentar a compreensão sobre o assunto, o Dr. Julio indicou o guia da Organização Mundial da Saúde (OMS) [1] lançado em março de 2021, acrescentando que, ao ler um estudo de efetividade, é muito importante compreender o pareamento e o controle realizados.

O infectologista também enfatizou que, apesar das limitações, os estudos que avaliaram a vacinação em massa, como os realizados nas cidades paulistas de Serrana e Botucatu, em 13 municípios brasileiros de fronteira com o de Mato Grosso do Sul e no complexo da Maré, no Rio de Janeiro, foram importantes para avaliar o impacto da imunização na queda da incidência da doença, bem como o efeito da imunidade coletiva.

Então, como interpretar e comparar a efetividade? O professor referiu as populações diferentes, os diferentes desfechos, a manifestação dos sintomas (ou não) e o tempo, que, segundo ele, é essencial. “Se fizermos uma avaliação muito precoce, a efetividade e a eficácia vão ser elevadas e há as variantes que introduzem um novo desafio”, disse o Dr. Julio, ressaltando também a força de infecção: “precisamos interpretar sabendo se as variáveis estão ajustadas”, assinalou. Outro ponto a ser considerado é o espaço: “sabemos que onde já houve circulação intensa do vírus associado a elevada cobertura vacinal, a efetividade da vacina aumenta”, completou.

O pesquisador indicou uma plataforma on-line que disponibiliza de forma atualizada os estudos de efetividade[2]. Ele relatou que a maioria dos trabalhos (cerca de 135) foi realizada na Europa e nas Américas, e que as vacinas mais avaliadas são as da Pfizer, AstraZeneca e Moderna, havendo pouquíssimos estudos com a CoronaVac, da Sinovac (apenas seis). “As vacinas de vírus inativado são as mais utilizadas no mundo e cadê os estudos de mundo real? Há uma desigualdade na produção cientifica e talvez preconceito de publicação. Já estamos aplicando essas vacinas e precisamos dos dados de mais estudos de efetividade”, disse ele. [3]

O Dr. Julio também apontou a baixa quantidade de estudos sobre a variante Gama – apenas oito, sendo três realizados pelo seu grupo de pesquisa. Além disso, ele mencionou que ainda há “poucos levantamentos em grupos especiais, idosos, profissionais de saúde e crianças”. 

Imunização heteróloga no esquema primário e de reforço

Já a Dra. Rosana Richtmann, médica do Instituto de Infectologia Emilio Ribas e membro do Comitê de Imunização da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), sedimentou sua explanação mostrando estudos recentes sobre imunização heteróloga. Além disso, ela destacou que “essa estratégia não é nenhuma novidade na história das imunizações”.

Segundo a médica, “há muito tempo foi necessário misturar várias plataformas de vacina. Isso se justifica, primeiramente, pela possibilidade de escassez de uma vacina. Se eu tiver um evento adverso que me impeça de usar a segunda dose, é necessário mudar de plataforma”. Entre outras justificativas, ela enumerou a diminuição da reatogenicidade e o aumento da imunogenicidade.

De acordo com a Dra. Rosana, a pergunta é como provocar mais proteção e por mais tempo para um melhor estímulo antigênico em termos de resposta imune (imunidade celular e humoral). Segundo ela, os esquemas heterólogos são bem interessantes, para isso, exemplificou trabalhos publicados na Europa [4,5,6,7,8,9] sobre a combinação de vacinas. De acordo com a infectologista, os trabalhos avaliaram segurança, reatogenicidade e imunogenicidade, e todos apresentaram resultados similares. Ela observou que “a maioria das pesquisas foram feitas começando com a vacina de vetor viral e completando com a de RNA mensageiro”.

A especialista sugeriu a leitura do documento elaborado pela European Medicines Agency (EMA) em parceria com os Centers for Disease Control and Prevention (CDC), [10] que contém um resumo atualizado das vantagens do esquema primário heterólogo, com uma resposta imune aumentada. Apesar de ainda ser necessário mais tempo para a realização de novos estudos, a pesquisadora disse acreditar “que os resultados devem ser semelhantes para variantes novas, como a Ômicron”.

Outra conclusão destacada pela médica em relação aos estudos citados e ao guia do EMA/CDC é que a administração de uma vacina de RNA mensageiro como dose de reforço após a conclusão do primeiro ciclo vacinal com vacina de vírus inativado provoca um aumento substancial de anticorpos em comparação com a administração de uma vacina de vírus inativado como reforço. [11,12,13] Além disso, a Dra. Rosana citou um estudo heterólogo [14] publicado recentemente com sete combinações de terceira dose em pessoas com vacinação primária homóloga de AstraZeneca e Pfizer. Segundo a pesquisadora, o trabalho também mostra que as vacinas de RNA mensageiro apresentam uma resposta imune mais robusta. Mas, ela não deixou de frisar que existem mais dados sobre esse tipo de vacina e lamentou a escassez de informações sobre as vacinas de vírus inativado.

Com relação ao intervalo entre as doses, a Dra. Rosana observou que alguns trabalhos mostram que, apesar do intervalo mínimo de reforço ser de três meses após o esquema primário, a resposta imune seria melhor após seis meses. Mas cabe a cada estrategista fazer uma escolha de acordo com objetivo do momento, se é aumentar os anticorpos para proteção contra as variantes ou adquirir melhor resposta imune. A infectologista também disse acreditar que é necessária uma certa frequência de imunizações: “pela dinâmica atual da pandemia, acredito que vamos precisar tanto da frequência quanto da atualização das vacinas”, encerrou.

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