Pandemia de covid-19 prejudica controle das doenças vetoriais

Pamella Lima (colaboraram Teresa Santos e Dra. Ilana Polistchuck)

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1 de fevereiro de 2022

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Um dos setores duramente impactados pela pandemia de covid-19 foi o turismo. Para além dos aspectos econômicos, novos protocolos e portarias de segurança modificaram a dinâmica de passageiros e serviços de viagens. Diante disso, o XXII Congresso Brasileiro de Infectologia (INFECTO 2021), realizado em dezembro de 2021, deu destaque ao tema medicina do viajante no mundo pandêmico.

O tema não é novidade e existe uma preocupação antiga com a questão, principalmente sobre as consequências para quem viaja para destinos altamente turísticos e com epidemias vetoriais ainda não solucionadas.

A médica Dra. Tânia Do Socorro Souza Chaves, pesquisadora em Saúde Pública e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Pará (FAMED/UFPA), falou sobre a campanha da World’s Deadliest Animal, mostrando que o mosquito “é o animal que mais mata no mundo: cerca de 725.000 pessoas por ano”.

Segundo a Dra. Tânia, os dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que “as doenças transmitidas por vetores representam mais de 17% de todas as doenças infecciosas, causando mais de 700.000 mortes por ano. Mais de 3,9 bilhões de pessoas em mais de 129 países correm o risco de contrair dengue, doença que causa cerca de 96 milhões de casos sintomáticos e 40.000 mortes por ano. A malária causa mais de 4.000 mortes por ano, a maioria de crianças menores de cinco anos”. [1] A médica também citou outras doenças virais que têm mosquitos como vetor: chicungunha, zika, febre amarela e febre do Nilo Ocidental.

A médica apresentou um levantamento do GeoSentinel, uma iniciativa da International Society of Travel Medicine (ISTM) apoiada pelos Center for Disease Control and Prevention (CDC), [2] que apontou incidência de 5% de casos de dengue no retorno dos viajantes ao país de origem. Em outro estudo, o GeoSentinel utilizou um grande banco de dados multicêntrico para avaliar a frequência do registro de febre como razão para busca por atendimento médico por pacientes recém-chegados de viagem entre 1997 e 2006. [3] O grupo verificou que a febre é um dos principais motivos de busca por atendimento médico e hospitalização por viajantes recém-chegados do Sudeste Asiático, Ásia Central, América Central e Caribe e América do Sul.

Um estudo realizado entre 2010 e 2017 mostrou que 93% dos casos de dengue notificados nos Estados Unidos foram associados a viagens principalmente para América Central e Caribe e Ásia. [4]

Para mostrar o impacto da pandemia nas doenças vetoriais, a infectologista mencionou um estudo feito na Suíça que observou uma redução das doenças transmitidas por vetores, especialmente as não endêmicas no país, durante o lockdown; [5] em contraste, houve um aumento de casos de encefalite transmitida por carrapatos – lembrando que na Suíça, como em outros países, mais pessoas passaram a caminhar ou praticar esportes ao ar livre nos períodos de maior restrição de circulação.

Uma pesquisa italiana relatou um pequeno surto de casos de dengue entre agosto e setembro de 2020 associado a uma viajante recém-chegada da Indonésia. [6]A mulher manifestou sintomas dois dias após o desembarque, no final de julho, e, na sequência, os estudiosos observaram mais 11 casos de dengue entre familiares e vizinhos da paciente.

A Dra. Tânia também falou sobre a contribuição da quarentena e do distanciamento social em função da pandemia de covid-19 para o surgimento de casos de dengue em países endêmicos, o que ocorreu por causa da permanência dos indivíduos em casa em um momento de elevada densidade vetorial. Segundo a médica, o maior desafio era realizar o diagnóstico diferencial correto diante de duas infecções potencialmente graves e letais. [7] Ela também referiu um surto de dengue no Acre que coincidiu com a segunda onda da covid-19, nas primeiras semanas de 2021, [8] exemplificando a dificuldade do manejo para conduzir os indivíduos em decorrência da limitação do número de leitos e de acesso ao diagnóstico correto.

De acordo com a infectologista, também houve um aumento de casos de chicungunha nas regiões Sudeste e Centro-Oeste do Brasil, mas há poucos dados sobre a coinfecção pelo vírus da dengue ou chicungunha e o SARS-CoV-2. “Apesar de estarmos vivendo uma grande pandemia, as epidemias não pararam de ocorrer, mas houve um impacto na vigilância epidemiológica, já que os programas sofreram desfalques em função do recrutamento para o controle da covid-19”, [9] disse, demostrando preocupação com os países nos quais a dengue é endêmica, “que necessitam da manutenção de atividades de controle”.

Segundo a Dra. Tânia, “ao falar sobre o impacto das doenças vetoriais e do risco aos viajantes, não há como não abordar a atual realidade dessas doenças endêmicas nos países que são destino de muitos viajantes. O que se observa é que a redução de casos está muito aquém do que gostaríamos. Houve uma sensível redução, mas muito aquém do necessário”.

Passaporte vacinal e necessidade de um protocolo de viagem universal contra covid-19

Quais são as perspectivas da medicina do viajante durante a pandemia de covid-19? A Dra. Karis Rodrigues, infectologista do Centro de Informação em Saúde para Viajantes (Cives) e professora de doenças infecciosas e parasitárias da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), destacou quais fontes de informação usar e que medidas de prevenção devem ser adotadas. Ela lembrou da experiência do lockdown adotada em vários países, logo que se concluiu a transmissibilidade e gravidade do vírus, assim como do fechamento das fronteiras de alguns países.

O cenário melhorou com o avanço da vacinação, e então veio o relaxamento das restrições de viagem e a reabertura das fronteiras, porém, para a especialista, é preciso melhorar e unificar os protocolos de viagem. Segundo a Dra. Karis, o protocolo ideal contempla a necessidade de testagem antes do embarque, passaporte vacinal ou certificado de vacinação, incluindo informações sobre a vacinação disponibilizadas via QR Code. Mas como saber as exigências de cada país? Ela indicou o site da International Air Transportation Association (IATA), [10] que oferece informações atualizadas sobre as exigências de cada país.

Apesar de reduzirem a disseminação viral, a médica destacou que essas medidas não eliminam totalmente o risco de transmissão. A infectologista também lembrou que, apesar do avanço da imunização, nos países mais pobres a taxa desta prática ainda é bem baixa. “Tem país que nem é inserido nos gráficos”, criticou.

Ainda sobre o risco das viagens, a Dra. Karis explicou como funciona o risco de contaminação no avião. [11,12] “Comparado a outros locais fechados, o avião é bastante seguro, por conta do processo de renovação do ar, já que no processo de ventilação o ar que circula é filtrado constantemente, incluindo partículas de até 3 micrometros, o que inclui partículas de vírus”.

Assim como a Dra. Tânia, a Dra. Karis também demonstrou preocupação em relação aos sistemas de saúde comprometidos pelo desvio do foco para a pandemia de covid-19, ressaltando a possibilidade de agravamento de endemias e o ressurgimento de doenças, elevando o risco para viajantes. [13,14,15,16]

A Dra. Ana Paula Rocha Veiga, coordenadora do Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE) do Instituto de Infectologia Emilio Ribas e do Núcleo de Medicina do Viajante da mesma instituição e professora da Faculdade de Ciências Médicas de Santos (UNILUS), questionou se as medidas adotadas são adequadas para conter a transmissão da covid-19.

Para ela, com o desafio da variante Ômicron, ainda estamos vivendo uma ascensão de casos de covid-19 e mortes pela doença, o que mantém a preocupação da retomada das viagens e do turismo. Segundo a médica, a triagem dos viajantes precisa ser mantida, com aferição de temperatura, uso adequado de máscaras, distanciamento de 1 a 2 metros, passaporte vacinal, realização de teste por PCR de 24 a 72 horas antes do embarque. [17]

Como viajar com segurança? Qual instrumento legal deve abranger todas as medidas? A pesquisadora lembrou do Regulamento Sanitário Internacional, aprovado pela 58º Assembleia Mundial da Saúde, em 2005, [18] que diz: “prevenir, proteger, controlar e dar uma resposta de saúde pública contra a propagação internacional de doenças, de maneiras proporcionais e restritas aos riscos para a saúde pública, e que evitem interferências desnecessárias com o tráfego e o comércio internacionais”. Entretanto, as medidas têm variado muito entre os países. Além disso, os destinos são avaliados de acordo com o risco de transmissão da doença. “O viajante precisa consultar sem ser surpreendido em relação às modificações”, alertou a médica, justamente criticando a falta de um relatório único, tal como existe para a poliomielite e a febre amarela. “Não tem como abrir mão, precisamos do documento regulatório único internacional de transição. É urgente esse certificado”, disse.

As três palestrantes concordaram com a adoção do passaporte vacinal no Brasil, justificando que este é um recurso importante de controle da pandemia.

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