Nova perspectiva sobre os sinais preliminares de câncer de ovário de alto risco

Randy Dotinga

Notificação

28 de janeiro de 2022

Estudo traz uma nova perspectiva sobre os sinais preliminares de câncer de ovário epitelial de alto risco em estágio inicial: mais de 70% das pacientes têm pelo menos um sintoma (p. ex.: dor abdominal ou pélvica, sensação de plenitude ou aumento da circunferência abdominal) e pacientes com tumores maiores apresentam mais sintomas.

“Mesmo na doença em estágio inicial, o câncer de ovário não é necessariamente uma doença silenciosa”, disse o primeiro autor do estudo, Dr. John K. Chan, oncologista e cirurgião ginecológico da Palo Alto Medical Foundation/California Pacific/Sutter Research Institute, nos Estados Unidos.

O estudo foi publicado em na edição de fevereiro de 2022 no periódico Obstetrics & Gynecology .

De acordo com o Dr. John, a maioria dos estudos anteriores sobre os sintomas do câncer de ovário se concentrou em pacientes com doença avançada, visto que é quando o diagnostico costuma ser feito. “Diante dessas lacunas no conhecimento de pesquisas anteriores, realizamos esta análise para avaliar a apresentação e os sintomas característicos do câncer de ovário em estágio inicial, e tentar identificar a relação entre esses sintomas em relação às características clínico-patológicas e ao prognóstico da doença em estágio inicial”.

Dr. John e colaboradores rastrearam retrospectivamente 419 pacientes que participaram de um ensaio clínico de doses de quimioterapia. Todas as pacientes tinham câncer de ovário epitelial em estágio inicial de alto risco (estágio IA-IB e grau 3, qualquer célula clara, estágio IC ou II).

Das pacientes, 40% apresentavam um sintoma, 32% tinham vários sintomas e 28% eram assintomáticas – suas massas foram diagnosticadas ao serem descobertas durante o exame físico. “Outros pesquisadores descobriram que quase 95% das pacientes com câncer de ovário eram sintomáticas”, disse o Dr. John. “A porcentagem mais baixa de pacientes sintomáticas em nosso estudo pode ser porque todas as 419 pacientes tinham doença em estágio inicial, e não doença em estágio avançado”.

Os sintomas mais comuns foram dor abdominal ou pélvica (31%; intervalo de confiança, IC, de 95% de 27% a 36%), sensação de plenitude ou aumento da circunferência abdominal (27%; IC 95% de 22% a 31%), sangramento vaginal anômalo (13%; IC 95% de 10% a 17%), problemas urinários (10%; IC 95% de 8% a 14%) e problemas gastrointestinais (6%; IC 95% de 4% a 8%).

Não houve associação estatisticamente significativa entre o número de sintomas e a idade (< 60 anos ou ≥ 60 anos), estágio do câncer ou subtipo histológico. No entanto, as pacientes com os maiores tumores (> 15 cm) tiveram mais chances de apresentar múltiplos sintomas do que aquelas com os menores tumores (≥ 10 cm): 46% versus 21% (P < 0,001).

Além disso, 79% das pacientes com os maiores tumores (> 15 cm) tinham pelo menos um sintoma, em comparação com 65% daquelas com os menores tumores (≥ 10 cm; P < 0,001).

Diferentemente de outros estudos, a pesquisa em tela não encontrou associação entre o número de sintomas e a mortalidade. Este achado surpreendeu os pesquisadores, disse o Dr. John, assim como a falta de conexões entre os sintomas e a idade, o estágio ou o subtipo histológico. “Estávamos esperando que as pacientes mais jovens tivessem mais sintomas devido à associação com endometriose e câncer de células claras”, disse ele. “Também pensamos que as menos sintomáticas teriam mais tumores em estágio I e indolentes de baixo grau, com melhor sobrevida, mas não encontramos isso”.

Os pesquisadores observaram limitações como a falta de padronização dos dados das pacientes.

No quadro geral, o Dr. John destacou: “pacientes e profissionais de saúde precisam ter um índice mais alto de suspeita em pacientes com câncer de ovário sintomático, para aumentar a detecção precoce e potencialmente melhorar a chance de cura. O câncer de ovário nem sempre mata. Na verdade, até 80% das nossas pacientes com doença em estágio inicial são curadas”.

Ele orientou a necessidade de “mais pesquisas para avaliar a percepção dos sintomas em tumores em estágio inicial e possivelmente incorporar novos biomarcadores séricos e dispositivos vestíveis (wearable) de monitoramento. Esses dispositivos podem avaliar a frequência e a duração dos sintomas, o que pode ser um fator importante na distinção de sintomas mais preocupantes para o câncer de ovário”.

Em um comentário que acompanha o estudo, a Dra. Barbara A. Goff, médica e chefe de ginecologia e obstetrícia da University of Washington, nos EUA, observou que, embora a taxa de sobrevida de pacientes com câncer de ovário diagnosticado precocemente seja alta, estudos prospectivos randomizados de ultrassonografia transvaginal e estratégias de triagem de marcadores tumorais não conseguiram reduzir a mortalidade. Atualmente, não há exame de triagem recomendado para mulheres com risco habitual.

Há outros desafios, ela escreveu. Por um lado, “muitos profissionais de saúde aparentemente desconhecem os sintomas tipicamente associados ao câncer de ovário, de modo que o erro diagnóstico continua sendo comum”. E “uma das preocupações sobre os sintomas do câncer de ovário é que podem ser vagos e comumente presentes na população em geral”.

A Dra. Bárbara elogiou o estudo, pediu mais educação sobre os sintomas do câncer de ovário e escreveu que “o reconhecimento dos sintomas com exames diagnósticos apropriados continua sendo muito importante em nossos esforços para melhorar os resultados”.

O estudo foi financiado pelos National Institutes of Health dos EUA. Vários autores do estudo, incluindo o Dr. John, informaram conflitos de interesses.

Este conteúdo foi originalmente publicado em MDedge.com – Medscape Professional Network.

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