COMENTÁRIO

Desfechos na oclusão aguda da artéria basilar: um estudo brasileiro

Dr. Felipe Borelli Del Guerra

Notificação

24 de janeiro de 2022

Colaboração Editorial

Medscape &

A oclusão aguda da artéria basilar (OAAB) representa de 1% a 4% dos acidentes vasculares cerebrais isquêmicos (AVCi) e 20% dos AVCi de circulação posterior. A taxa de mortalidade pode chegar a 90% na ausência de tratamento de reperfusão. Cerca de 50% dos pacientes têm sintomas graves na apresentação como coma, tetraplegia ou síndrome de encarceramento (em inglês, locked-in syndrome). Esse é um tipo de AVCi pouco representado nos grandes estudos clínicos de tratamento do AVCi como o NINDS, o ECASS, e o HERMES, o que motivou estudos específicos para esta patologia.

Um dos primeiros estudos observacionais controlados a estudar o tratamento dessa doença foi o BASICS registry. O estudo demonstrou redução de mortalidade de 80% para 40%-50% com uso de trombolítico intravenoso em casos graves quando utilizado em até 4,5 horas do tempo estimado da OAAB.

Mais recentemente novos trials como o BEST, o BASILAR e o BASICS avaliaram a eficácia da trombectomia mecânica no tratamento desta patologia. Os trabalhos não demonstraram o mesmo impacto da trombectomia como nos trials de circulação anterior, mas sugerem benefício deste tratamento na OAAB em algumas situações.

O objetivo deste trabalho foi descrever desfechos e avaliar possíveis preditores da OAAB em um hospital terciário de um país em desenvolvimento, visto a paucidade de dados na literatura nessa situação.

Foram revisados dados de 28 pacientes atendidos no pronto-socorro de neurologia com OAAB no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP). Os pacientes foram divididos em subgrupos reperfusão (REP) e não reperfusão (NOREP). O tratamento de reperfusão poderia ser realizado com trombólise intravenosa, trombólise intrarterial e/ou trombectomia mecânica em conjunto ou não com anticoagulação, enoxaparina ou heparina não fracionada, a critério do neurologista no pronto-socorro.

O desfecho principal foi mortalidade hospitalar até último acompanhamento, e os desfechos secundários foram desfecho funcional favorável, avaliado pela escala de Rankin modificada (MRS 0-3) até último acompanhamento, e taxas de hemorragia intracraniana. Esses desfechos foram avaliados de acordo com diversas variáveis.

Dos 28 pacientes, 17 receberam REP, 9/17 (52,9%), trombólise intravenosa; 2/17 (11%), trombólise intrarterial; 2/17 (11%), trombectomia mecânica; 4/17 (23.5%), e trombólise intravenosa e trombectomia mecânica. Os outros 11 pacientes foram tratados com antiagregantes ou anticoagulação. A mediana de admissão do NIHSS foi de 19 (1-38).

A taxa de mortalidade geral intra hospitalar foi de 46%. Mortalidade até último acompanhamento foi de 47% (8/17) no grupo REP e 63% (7/11) no grupo NOREP. Desfecho funcional favorável foi de 35,7% em todos os pacientes, 47% (8/17) no grupo REP e 18% (2/11) no grupo NOREP.

NIHSS baixo, Escala de coma de Glasgow alta e PC-ASPECTs alto foi mais comum nos sobreviventes e naqueles com desfecho funcional bom. O tempo do início dos sintomas até o tratamento foi uma variável significativa nos sobreviventes que receberam terapias de reperfusão.

Nos pacientes submetidos a reperfusão, mortalidade e desfecho funcional bom foram, respectivamente, conforme início dos sintomas:

  • 3-6 horas: 12,5% (1/8) e 75% (6/8);

  • 6-12 horas: 100% (5/5) e 0;

  • 12-24 horas: 50% (2/4) e 50% (2/4).

Hemorragias intracranianas foram observadas em 21,4% (6/28) dos pacientes – todas ocorridas em indivíduos do grupo submetido a reperfusão. Apenas uma hemorragia foi considerada sintomática e foi a causa da morte de um paciente. Cerca de 20 pacientes foram submetidos ao tratamento com anticoagulantes nas primeiras 24 horas. Nenhuma hemorragia ocorreu em pacientes que utilizaram enoxaparina e 3 ocorreram em pacientes que utilizaram heparina não fracionada.

As taxas de mortalidade e desfecho funcional ruim foram altas nesta série de OAAB. Porém, o tratamento de reperfusão teve 28,9% melhor desfecho funcional em relação ao tratamento conservador. Apesar de não haver significância estatística em decorrência da amostra pequena, isso demonstra o impacto do tratamento de reperfusão na melhora dos desfechos na OAAB. Nossos resultados também chamam atenção para necessidade de estudos randomizados de trombólise venosa com uso de anticoagulação na OAAB nas primeiras 24 horas para avaliar eficácia e segurança deste tratamento.

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