A prevenção da obesidade no lactente também beneficia o segundo filho

Marcia Frellick

Notificação

24 de janeiro de 2022

Um programa de prevenção da obesidade destinado aos pais de lactentes beneficiou não só os primogênitos, como também os irmãos nascidos depois, sugere um novo estudo.

Segundo uma declaração dos National Institutes of Health dos Estados Unidos, que financiaram o estudo, esta é a primeira intervenção de obesidade infantil mostrando repercussões. Os achados foram publicados on-line em 21 de dezembro de 2021, no periódico Obesity.

O programa se chama Infants Growing on Healthy Trajectories (INSIGHT), uma intervenção de maternidade e paternidade responsável (RP, do inglês responsive parenting) e contém orientações sobre alimentação, sono, brincadeiras interativas e maneiras de lidar com as emoções.

Os pais receberam orientações de enfermeiros que vieram a suas casas sobre como responder quando sua criança está sonolenta, dormindo, irritada e alerta. Também aprenderam a colocar os bebês no leito ainda sonolentos, porém acordados, e a evitar alimentar os bebês para os fazer dormir. Além disso, aprenderam a melhor maneira de responder aos bebês que acordam durante a noite; quando iniciar os alimentos sólidos; como limitar o tempo de inatividade; e como utilizar os gráficos de crescimento.

O programa do grupo de controle se concentrou na segurança e correspondeu às categorias de orientação. Por exemplo, as primeiras visitas trouxeram informações sobre a prevenção da síndrome da morte súbita do lactente durante o sono, o armazenamento do leite materno e da fórmula para alimentação e como dar banho com segurança.

A Dra. Jennifer S. Savage, Ph.D., do Center for Childhood Obesity Research, Penn State University, University Park nos Estados Unidos coordenou o estudo com 117 lactentes em um ensaio clínico randomizado e controlado. As primíparas e os primogênitos foram randomizados para o grupo RP ou de intervenção de segurança domiciliar (controle) de 10 a 14 dias após o parto. Os segundos filhos foram inscritos em um estudo auxiliar apenas observacional.

Os segundos filhos nasceram 2,5 anos (desvio padrão de 0,9) após os primogênitos. A antropometria foi avaliada nos dois irmãos com 3, 16, 28 e 52 semanas de idade.

Os primogênitos com um ano de idade apresentaram índice de massa corporal (IMC) 0,44 kg/m2 abaixo do grupo de controle (intervalo de confiança, IC, de 95% de - 0,82 a - 0,06) e os segundos filhos cujos pais fizeram a intervenção RP com seus primogênitos tiveram índice de massa corporal de menos 0,36 kg/m2.

"O que vimos aqui é que funcionou novamente", disse numa entrevista o coautor Dr. Ian Paul, médico e professor de pediatria e ciências da saúde pública da Penn State University, Hershey, nos EUA.

"Quando os ensinamos uma certa abordagem de paternidade e maternidade com o primogênito, os pais fazem a mesma coisa com o segundo filho, o que é maravilhoso de ver", disse o pesquisador.

Dr. Ian observou que que isso aconteceu com os segundos filhos sem nenhum reforço ou informações de reforço.

O médico disse que ainda não está claro qual das intervenções – relacionadas com as técnicas de alimentação, sono ou atividade – é mais útil. E para cada família os comportamentos problemáticos podem ser diferentes.

Programas paternidade e maternidade responsáveis já tinham demonstraram sucesso com os primogênitos, escreveram os autores, mas 80% dessas crianças crescem com irmãos e irmãs mais novos, de modo que uma intervenção que também os beneficie é importante.

Custos da intervenção

A intervenção foi extensa. Representou visitas de enfermagem de quatro horas ou mais por ano, muitas vezes pelo mesmo enfermeiro que estabeleceu uma relação com a família.

Mas a Dra. Jennifer disse que é possível replicar o programa INSIGHT em uma escala maior nos Estados Unidos com dúzias de modelos de visita domiciliar.

"Atualmente, 21 modelos de visita domiciliar atendem aos critérios do Department of Health & Human Services dos EUA para evidências e eficácia, como os programas estadunidenses Nurse Family Partnership, Family Check-up e Early Head Start Home Based Option. Existe a oportunidade de usar modelos de visitação domiciliar em escala nacional para interromper potencialmente o ciclo de resultados prejudiciais multigeracionais, como a obesidade", disse a especialista.

Dr. Ian afirmou que o investimento inicial "pode economizar dinheiro em longo prazo", levando-se em conta o que está em jogo. "Sabemos que 20% a 25% das crianças de dois a cinco anos já têm sobrepeso ou obesidade e que a probabilidade é que o quadro persista". No entanto, o médico reconheceu que a escassez de pessoal e os custos constituem um desafio.

"Outros países fizeram esse investimento no seu sistema de saúde", disse o Dr. Ian. "Nos EUA, apenas uma parte de mães primíparas e bebês primogênitos recebem visitas domiciliares. O tipo de trabalho que fizemos para a prevenção da obesidade ainda não foi incorporado em modelos baseados em evidências de visitação domiciliar, embora certamente possam ser".

Dr. Ian disse que sua equipe está esperando colaborar com outros no futuro próximo para a expansão deste programa de modelos de visitação domiciliar.

O teleatendimento, embora uma opção menos desejável em comparação às visitas domiciliares, também pode ser utilizado, disse o médico.

Sem uma intervenção abrangente, disse o especialista, muitos dos conceitos podem ser postos em prática pelos pediatras e pelos próprios pais.

Dr. Ian observou que a Robert Wood Johnson Foundation apoiou a "alimentação responsável" como a abordagem de escolha para alimentar os bebês e as crianças. A alimentação responsável – ajudando os pais a reconhecer a fome e as indicações saciedade em vez de outras indicações de angústia – constitui uma parte importante da intervenção.

"A alimentação para acalmar não é a melhor estratégia”, disse Dr. Ian. "Os alimentos, o leite e as fórmulas devem ser utilizados para saciar a fome". Isso é algo que o pediatra pode não estar deixando claro para os pais.

Os pediatras também podem orientar os pais a não usarem comida como recompensa. "Não devemos dar chocolate para as crianças para lhes ensinar a usar o vaso em vez das fraldas", disse Dr. Ian.

Resultados "promissores"

O médico Dr. Charles Wood, especialista em obesidade infantil na Duke University, Durham nos EUA, que não participou do estudo, disse que os achados são "muito promissores".

Também faz sentido que os momentos de "então é isso!" dos pais que aprendem pela primeira vez a partir da intervenção INSIGHT passariam para o segundo irmão, disse o comentarista.

Dr. Charles concordou que os custos constituem um fator relevante. No entanto, disse o médico, os custos potenciais a jusante de não prevenir a obesidade são bem mais altos. E este estudo indica que os benefícios podem continuar se espalhando com os próximos filhos.

Dr. Charles disse que acessar intervenções de obesidade fora da consulta com o pediatra também pode ajudar. A conexão dos pacientes com grupos de apoio ou nutricionistas, ou com um orientador do programa de Women, Infants, and Children pode ajudar. Contudo, a veiculação do mesmo tipo de mensagem entre os diferentes profissionais de saúde é crucial, observou o comentarista.

O grupo de pesquisa do Dr. Charles está investigando plataformas de mensagens de texto para que os pais possam obter respostas a perguntas em tempo real, como perguntas sobre comportamentos alimentares.

O médico indicou uma limitação que os autores mencionam, que é que o estudo foi realizado em famílias de mais alta renda, com grande grau de instrução e de raça branca.

"Existe um grande problema com as disparidades raciais e a obesidade", observou Dr. Charles. "Decididamente precisamos de soluções que também resolvam estas disparidades".

As mães que participaram do estudo eram primíparas e seus filhos foram incluídos após o nascimento em uma única maternidade entre janeiro de 2012 e março de 2014. Os principais critérios de elegibilidade foram que os bebés nascessem a termo (pelo menos 37 semanas de gestação), os nascimentos fossem individuais e a mães falassem inglês e tivessem pelo menos 20 anos de idade. Foram excluídos os recém-nascidos que pesavam menos de 2,5 kg ao nascer.

Os autores e o Dr. Charles Wood declararam não ter relações financeiras relevantes.

Esta pesquisa foi subsidiada pelos National Institutes of Health, National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases e pelo Department of Agriculture.

Esta notícia foi originalmente publicada no MDedge.com – Medscape Professional Network.

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Comente

3090D553-9492-4563-8681-AD288FA52ACE
Comentários são moderados. Veja os nossos Termos de Uso

processing....