Número de casos de demência no mundo vai triplicar até 2050, a menos que os fatores de risco sejam reduzidos

Kelli Whitlock Burton

Notificação

21 de janeiro de 2022

O número de pacientes com mais de 40 anos e quadro demencial irá praticamente triplicar em todo o mundo e duplicar nos Estados Unidos até 2050, a menos que sejam tomadas medidas para tratar os fatores de risco, sugere uma nova pesquisa.

Os resultados de um estudo feito em 195 países e territórios estimam que, em 2050, a previsão seja que 153 milhões de pessoas tenham demência em todo o planeta – dos 57 milhões de pessoas em 2019. Nos Estados Unidos, espera-se que o número aumente 100%, passando de 5,3 milhões em 2019 para 10,5 milhões em 2050.

Este aumento é em grande parte impulsionado pelo crescimento e pelo envelhecimento da população, mas os pesquisadores observam que a expansão do acesso à escolaridade e a resolução de fatores de risco como a obesidade, a hiperglicemia e o tabagismo poderiam diminuir o aumento dos casos.

O estudo, o primeiro do seu gênero, prevê aumentos dos casos de demência em todos os países que participaram da análise. Espera-se que o aumento mais acentuado seja registrado na África do Norte, no Oriente Médio (367%) e na África Subsaariana (357%). Os menores aumentos serão nos países de alta renda da região do Extremo Oriente (53%) e na Europa Ocidental (74%).

Embora os EUA tenham ocupado a 37ª posição de menor aumento percentual entre todos os países estudados, "esse aumento esperado ainda é grande e exige atenção dos políticos e gestores", disse ao Medscape a copesquisadora Dra. Emma Nichols, pesquisadora do Institute for Health Metrics and Evaluation at the University of Washington in Seattle nos EUA.

Os achados foram publicados on-line em 06 de janeiro no periódico Lancet Public Health.

Prevalência da demência

Para o estudo, os pesquisadores utilizaram estimativas específicas da prevalência de demência de cada país do estudo Global Burden of Diseases, Injuries, and Risk Factors Study (GBD) 2019 a fim de projetar a prevalência da demência a nível mundial, por região do mundo e por país.

Também utilizaram informações sobre as tendências projetadas de quatro fatores de risco importantes de demência (alto índice de massa corporal, hiperglicemia de jejum, tabagismo e escolaridade) para estimar como as alterações destes fatores de risco poderiam modificar a prevalência da demência entre 2019 e 2050.

Apesar dos grandes aumentos do número projetado de pessoas vivendo com demência, a prevalência nos dois sexos normalizada pela idade manteve-se estável entre 2019 e 2050, com uma variação percentual global de 0,1% (- 7,5 a 10,8).

A prevalência da demência foi mais elevada entre as mulheres do que entre os homens e aumentou com a idade, dobrando a cada cinco anos até os 85 anos de idade, tanto em 2019 como em 2050 (razão entre o sexo feminino e o masculino de 1,67 – 1,52 a 1,85).

Os aumentos projetados dos casos poderiam ser atribuídos em grande parte ao crescimento populacional e ao envelhecimento da população, embora a sua importância relativa variasse pela região do mundo. O crescimento populacional contribuiu mais para o aumento da África Subsaariana e o envelhecimento da população contribuiu mais para o aumento do Extremo Oriente

Os países com percentual mais alto previsto de alteração do número total de casos de demência entre 2019 e 2050 foram:

  • Catar (1.926%)

  • Emirados Árabes Unidos (1.795%)

  • Barém (1.084%)

  • Omã (943%)

  • Arábia Saudita (898%)

  • Cuvaite (850%)

  • Iraque (559%)

  • Maldivas (554%)

  • Jordânia (522%)

  • Guiné Equatorial (498%)

Países com percentual mais baixo de alteração prevista do número total de casos de demência entre 2019 e 2050:

  • Japão (27%)

  • Bulgária (37%)

  • Sérvia (38%)

  • Lituânia (44%)

  • Grécia (45%)

  • Letônia (47%)

  • Croácia (55%)

  • Ucrânia (55%)

  • Itália (56%)

  • Finlândia (58%)

Fatores de risco modificáveis

Os pesquisadores também calcularam como as alterações dos fatores de risco podem modificar a prevalência da demência. Descobriram que melhora no acesso geral à escolaridade reduziu a prevalência da demência em cerca de 6,2 milhões de casos em todo o mundo até 2050.

No entanto, essa diminuição seria compensada pelos aumentos previstos da obesidade, da hiperglicemia e do tabagismo, que os pesquisadores estimam que resultarão em mais 6,8 milhões de casos de demência.

As projeções baseiam-se nas tendências esperadas de envelhecimento populacional, crescimento populacional e trajetórias dos fatores de risco, mas "as projeções podem mudar se forem criadas e postas em prática intervenções eficazes para os fatores de risco modificáveis", disse Dra. Emma.

Em 2020, a Lancet Commission on Dementia Prevention, Intervention, and Care publicou uma atualização do seu relatório de 2017, identificando 12 fatores de risco modificáveis que poderiam retardar ou prevenir 40% dos casos de demência. Os fatores de risco foram baixa escolaridade, hipertensão arterial sistêmica, deficiência auditiva, tabagismo, obesidade na meia-idade, depressão, inatividade física, diabetes, isolamento social, consumo excessivo de bebidas alcoólicas, traumatismo craniano e poluição do ar.

"Os países, inclusive os EUA, devem procurar elaborar intervenções eficazes para os fatores de risco modificáveis, mas também devem investir nos recursos necessários para dar suporte aos pacientes demenciados e seus responsáveis", disse Dra. Emma.

A pesquisadora acrescentou que também é necessário haver um subsídio adicional à pesquisa e aos recursos para criar intervenções terapêuticas.

Mecanismos de simplificação excessiva?

No comentário que acompanha o estudo, o médico Dr. Michaël Schwarzinger e a epidemiologista e bioestatística Dra. Carole Dufouil, Ph.D., da Université Bordeaux Segalen na França, observaram que os esforços dos autores para construir o GBD 2019 simplificaram demais os mecanismos que causam a demência.

Os autores "apresentam de alguma forma projeções apocalíticas que não levam em conta as modificações aconselháveis no estilo de vida ao longo da vida", escreveram os editorialistas.

"Existe uma necessidade considerável e urgente de reforçar uma abordagem de saúde pública em relação à demência para melhor informar as pessoas e os gestores sobre os meios adequados para retardar ou prevenir estas calamitosas projeções", acrescentaram os editorialistas.

O estudo foi financiado pela Bill and Melinda Gates Foundation e pela Gates Ventures. Os autores e editorialistas informaram não ter conflitos de interesse relacionados com o tema. Os conflitos de interesse dos outros pesquisadores estão disponíveis no artigo original.

Lancet Public Health. Publicado on-line em 06 de janeiro de 2022. Abstract . Editorial.

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