Doença CV na meia-idade ligada a maior declínio cognitivo em mulheres

Pauline Anderson

Notificação

20 de janeiro de 2022

"Todos os homens e mulheres devem ser tratados para doenças e fatores de risco cardiovascular, mas este estudo realmente destaca a importância de um tratamento muito precoce, e talvez mais incisivo, para as mulheres com esses quadros", disse ao Medscape a copesquisadora Dra. Michelle M. Mielke, Ph.D., professora de epidemiologia e neurologia na Mayo Clinic,nos Estados Unidos.

Os achados foram publicados on-line em 05 de janeiro no periódico Neurology.

Avaliando as diferenças entre os sexos

A maioria dos estudos feitos nesta área tem se concentrado nos fatores de risco cardiovascular na meia-idade em relação à demência tardia (após os 75 anos) ou nos fatores de risco vascular tardios e demência tardia, observou Dra. Michelle.

Entretanto, alguns estudos recentes têm sugerido fatores de risco vascular que podem alterar a cognição até mesmo na meia-idade. Os pesquisadores do estudo em tela procuraram determinar se existem diferenças destas associações entre os sexos.

Eles avaliaram 1.857 participantes sem demência entre 50 e 69 anos de idade, provenientes do estudo Mayo Clinic Study on Aging. A média de escolaridade foi de 14,9 anos, e o índice de massa corporal médio (IMC) foi de 29,7.

Entre os participantes, 78,9% tinham pelo menos uma doença ou fator de risco cardiovascular, e a proporção foi maior entre os homens do que entre as mulheres (83,4% versus 74,5%; P< 0,0001).

A frequência de cada doença ou fator de risco cardiovascular também foi maior entre os homens do que entre as mulheres; e eles tiveram mais anos de escolaridade e maior IMC, mas tomaram menos medicamentos.

A cada 15 meses, os participantes fizeram uma consulta presencial e exame físico, que incluiu avaliação neurológica e um pequeno teste de memória.

A bateria neuropsicológica continha nove testes em quatro domínios: memória, linguagem, função executiva e capacidade visual. Os pesquisadores calcularam a pontuação z para esses domínios e para a cognição global.

Vários domínios cognitivos

Embora este estudo tenha avaliado vários domínios cognitivos, a maioria das pesquisas se concentrou no declínio cognitivo global e/ou no declínio em apenas um ou dois domínios cognitivos, observaram os pesquisadores.

Os autores obtiveram informações dos prontuários médicos sobre doenças cardiovasculares como doença coronariana, arritmia, insuficiência cardíaca congestiva, doença vascular periférica e acidente vascular cerebral (AVC); e fatores de risco de doença coronariana como hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus e dislipidemia.

Tabagismo e IMC

Dado o pequeno número de pacientes com AVC e doença vascular periférica, estes foram classificados como "outras doenças cardiovasculares" na análise estatística.

Os pesquisadores fizeram o ajuste por sexo, idade, anos de escolaridade, sintomas depressivos, comorbidades, medicamentos e genotipagem para a apolipoproteína E (APOE). A média de acompanhamento foi de três anos e não diferiu por sexo.

Como alguns participantes não fizeram a consulta de acompanhamento, a análise em tela foi feita com 1.394 participantes. Os participantes sem consulta de acompanhamento eram mais jovens, tinham menos escolaridade e mais comorbidades, e tomavam mais medicamentos em comparação que fizeram a consulta de acompanhamento.

Os resultados mostraram que a maioria das doenças cardiovasculares foi mais associada à função cognitiva entre as mulheres do que entre os homens. Por exemplo, a doença coronariana com declínio global foi associada somente entre as mulheres (P< 0,05).

Doença coronariana, diabetes e dislipidemia só foram associados ao declínio da linguagem nas mulheres (todas P < 0,05), mas a insuficiência cardíaca congestiva foi significativamente associada ao declínio da linguagem apenas entre os homens.

A Dra. Michelle advertiu sobre tirar muitas conclusões sobre os resultados da linguagem entre as mulheres.

"É uma descoberta intrigante e decididamente precisamos acompanhá-la", disse a pesquisadora. No entanto, "são necessários mais estudos para examinar as diferenças entre os sexos antes de começarmos a dizer que só tem efeito na linguagem".

"Tratar agressiva e imediatamente"

Os pesquisadores ficaram um pouco surpresos com os achados do estudo. Como há maior prevalência de doença cardiovascular e fatores de risco entre os homens, os autores presumiam que os homens seriam mais atingidos por essas doenças, disse Dra. Michelle.

"Mas não foi isso o que vimos; vimos o inverso. Na verdade, as mulheres foram as mais atingidas por essas doenças e fatores de risco cardiovascular", disse a autora.

Como a meia-idade é quando as mulheres entram na menopausa, a flutuação dos níveis de estrogênio pode ajudar a explicar o impactos diferenciado na cognição das mulheres. Mas Dra. Michelle disse que ela quer "ir além" de olhar somente os hormônios.

A pesquisadora ressaltou que diversos fatores psicossociais também podem contribuir para o desequilíbrio da repercussão cognitiva das doenças cardiovasculares nas mulheres.

"A meia-idade é quando muitas mulheres ainda estão cuidando de seus filhos em casa, também estão cuidando de seus pais idosos, e podem estar passando por mais estresse, enquanto continuam a trabalhar", disse Miekle.

O desenvolvimento cerebral estrutural e a genética também podem contribuir para o maior efeito na cognição entre as mulheres, observam os pesquisadores.

A Dra. Michelle ressaltou que o estudo em pauta só identifica associações. "Os próximos passos são compreender quais são alguns dos mecanismos subjacentes a isso", disse.

Contudo, esses novos resultados sugerem que as mulheres de meia-idade com aumento da pressão arterial, do colesterol ou da , "devem ser tratadas agressiva e imediatamente", disse Dra. Michelle.

Por exemplo, para mulheres com um quadro inicial de hipertensão arterial, a intervenção terapêutica deve ser imediata – e não esperar e observar.

Dentre as limitações do estudo citadas, consta o fato de a amostra ter se limitado à região de Olmsted County, portanto, os resultados podem não ser generalizáveis a outras populações. Além disso, como os pesquisadores combinaram a doença vascular periférica e o AVC em um grupo, são necessárias amostras maiores, especialmente para o AVC. Outra limitação foi que o estudo não teve informações sobre a duração de todas as doenças ou fatores de risco cardiovasculares.

Útil para adaptar intervenções?

Convidado a comentar o estudo, o Dr. Glen R. Finney, médico e diretor do Memory and Cognition Program na Geisinger Health Clinic, nos EUA, disse que os resultados são importantes.

"Quanto mais compreendemos os fatores de risco da doença de Alzheimer e das demências correlatas, melhor compreendemos como reduzir estes riscos", disse Dr. Glen, que não participou da pesquisa.

A consciência de que as doenças cardiovasculares são fatores de risco importantes na meia-idade "decididamente tem aumentado", disse Dr. Glen. "Muitos estudos inicialmente avaliavam uma fase mais tardia da vida e agora avaliam fases anteriores no processo da doença, e me parece que isso é importante".

Entender como sexo, etnia e outras variáveis demográficas influem nos riscos pode ajudar a "adaptar as intervenções" para cada paciente, disse o comentarista.

O estudo foi apoiado pelos National Institutes of Health, the GHR Foundation e Rochester Epidemiology Project. A Dra. Michelle M. Mielke presta consultoria para as empresas Biogen e Brain Protection Company e faz parte do conselho editorial do periódico Neurology and Alzheimer's and Dementia. O Dr. Glen R. Finney informou não ter conflitos de interesses.

Neurology. Publicado on-line em 05 de janeiro de 2022. Abstract

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