Uso de ventilação não invasiva pode facilitar prática de exercícios na DPOC grave

Pam Harrison

Notificação

19 de janeiro de 2022

Realizar ventilação não invasiva por meio de respirador e máscara facial completa durante a prática de exercício físico reduziu a hiperinsuflação dinâmica e melhorou a duração do exercício em pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) grave e gravíssima incluídos em um pequeno estudo randomizado e cruzado.

Além disso, o tempo de tolerância ao exercício foi maior frente ao uso da ventilação não invasiva com pressão positiva expiratória padronizada (S-EPAP, do inglês Standardized Expiratory Positive Airway Pressure) ou com a mais complexa pressão positiva expiratória titulada individualmente (T-EPAP, do inglês Titrated Expiratory Positive Airway Pressure).

"A hiperinsuflação dinâmica acontece quando um paciente é incapaz de expirar completamente antes de precisar inspirar novamente, e durante o exercício – quando é necessário respirar mais – os pacientes acabam aumentando lentamente o volume expiratório final, fazendo com que seja como tentar respirar com o pulmão cheio", disseram Clancy Dennis, estudante da University of Sydney, na Austrália, e seus colaboradores para o Medscape por e-mail.

"Quando os volumes respiratórios atingem um limiar crítico, a falta de ar aumenta exponencialmente e o exercício costuma ser rapidamente interrompido, portanto, ao usar a ventilação não invasiva para ajudar as pessoas com DPOC a respirarem com inspirações maiores e menos gasto energético, a hiperinsuflação pulmonar durante o exercício diminuiu e, em última análise, as pessoas se exercitaram mais", acrescentaram os pesquisadores.

O estudo foi publicado on-line em 21 de dezembro de 2021 no periódico Chest.

Testes de ciclo de resistência

No total, o estudo recrutou 19 pacientes com diagnóstico de doença pulmonar obstrutiva crônica e volume expiratório forçado no primeiro segundo/capacidade vital forçada (VEF1/CVF) < 0,7, VEF< 50% do previsto. Os participantes frequentavam um centro de reabilitação pulmonar ambulatorial na Austrália ou uma unidade hospitalar de reabilitação na Alemanha. Eles foram solicitados a realizar três ciclos de exercício de resistência em ordem aleatória, a 75% da taxa máxima de trabalho obtida durante o teste com ciclo gradual de exercícios.

Segundo os pesquisadores, os pacientes se exercitaram (1) sem ventilação não invasiva, (2) com ventilação não invasiva com S-EPAP e (3) com ventilação não invasiva com T-EPAP. A ventilação não invasiva com S-EPAP forneceu EPAP de 5 cm H2O para todos os participantes, enquanto a ventilação não invasiva com T-EPAP forneceu EPAP individualizado, que otimizou a capacidade inspiratória em repouso de cada participante.

"A capacidade inspiratória foi utilizada como medida alternativa da hiperinsuflação dinâmica e foi medida instruindo o paciente a inspirar completamente sem hesitação a partir do volume pulmonar expiratório final atual a cada minuto durante todo o exercício", disseram Clancy e colaboradores.

Resultados com a ventilação não invasiva

A diferença média do tempo de exercício com ventilação não invasiva & S-EPAP versus sem ventilação não invasiva foi de 152 segundos (P > 0,003). Da mesma forma, a diferença do tempo de exercício com ventilação não invasiva & T-EPAP versus sem ventilação não invasiva foi de 145 segundos (P < 0,0001) — ambas favorecendo a ventilação não invasiva. "Não houve uma diferença significativa entre a ventilação não invasiva com S-EPAP e a ventilação não invasiva com T-EPAP", observaram os autores.

Indagado sobre a dificuldade de usar a ventilação não invasiva quando os pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica precisam se exercitar, Clancy observou que, com um médico qualificado e um paciente familiarizado com a ventilação não invasiva, não costuma ser complicado. "É semelhante ao início do CPAP para a apneia do sono", observou, embora neste ensaio clínico específico ninguém tivesse usado ventilação não invasiva antes, então acabou sendo uma experiência de aprendizado.

Entretanto, "tem gente que usa CPAP e ventilação não invasiva todas as noites e as pessoas são perfeitamente aptas a usar todo o equipamento", disse o pesquisador, "e os participantes com mais hiperinsuflação disseram que a ventilação não invasiva facilitou a respiração; assim, os que a utilizam podem obter uma redução real da dispneia, que é, acredito eu, o mais importante para o paciente", enfatizou Clancy.

As limitações do estudo incluíram o fato de não ter sido utilizada nenhuma simulação de ventilação não invasiva como controle.

Efeito pequeno, porém importante?

Comentando as conclusões em um editorial, a fisioterapeuta Dra. Kylie Hill, Ph.D., da Curtin School of Allied Health, na Austrália, e Thomas Dolmage, do West Park Healthcare Centre no Canadá consideraram que o estudo em tela contribui para a compreensão da comunidade sobre a forma como a ventilação não invasiva pode melhorar a tolerância ao exercício para os pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica. Embora os editorialistas não tenham sido convencidos de que a ventilação não invasiva seja inteiramente responsável pela redução da hiperinsuflação dinâmica observada, "a implicação clínica deste (...) e de outros estudos dessa natureza é o papel que a ventilação não invasiva pode ter para melhorar a prática de exercícios", sugeriram os editorialistas.

Como explicaram Dra. Kylie e Thomas, até 40% dos pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica apresentam pouca melhora na tolerância ao exercício quando expostos à prática convencional de exercícios. "É aqui que devemos contextualizar o uso do exercício de alta intensidade e a modificação do tempo de resistência alcançado com a ventilação não invasiva neste estudo", observaram. Embora a diferença mediana de 1,5 minutos de tolerância não pareça muito, "um efeito dessa magnitude com intensidade muito alta se traduziria em um efeito importante em intensidades mais baixas que são as usadas em uma sessão de exercícios", apontaram Dra. Kylie e Thomas.

Por exemplo, um exercício que poderia ser tolerado por 10 minutos sem ventilação não invasiva, seria tolerado por mais de 15 minutos com ventilação não invasiva; e 20 minutos sem ventilação seriam tolerados indefinidamente com a ventilação explicaram os autores. Os editorialistas, portanto, consideraram razoável que programas especiais de reabilitação pulmonar ofereçam auxílios específicos, como a ventilação não invasiva, para os pacientes, caso a caso.

"Para as pessoas que estão dispostas, os médicos capacitados podem gerenciar a configuração do ventilador e a titulação da pressão durante o exercício", sugeriram Dra. Kylie and Thomas, embora tenham alertado para o fato de que a longevidade do uso da ventilação não invasiva como forma de otimizar a adaptação ao treinamento após a conclusão do treinamento ainda seja desconhecida.

Os autores e os editorialistas informaram não ter conflitos de interesses relacionados com o tema.

Chest. Publicado on-line em 1º de dezembro de 2021. Abstract

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