Produção de imunizantes, evolução da pandemia e doses de reforço: Dra. Sue Ann Clemens no INFECTO 2021

Pamella Lima (colaboraram Teresa Santos e Dra. Ilana Polistchuck)

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18 de janeiro de 2022

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Um dos momentos mais aguardados do XXII Congresso Brasileiro de Infectologia (INFECTO 2021), realizado em dezembro de 2021, foi a apresentação on-line da Dra. Sue Ann Costa Clemens, médica infectologista, professora de Saúde Global na University of Oxford e conselheira sênior e consultora da Bill & Melinda Gates Foundation. A cientista brasileira, que coordenou e participou diretamente da produção da vacina anticovídica da AstraZeneca no Brasil, abordou o processo de desenvolvimento de imunizantes e o atual momento de estudos sobre a combinação heteróloga na aplicação de doses de reforço.

A Dra. Sue Ann compartilhou algumas de suas estimativas para o futuro. A médica enfatizou o esforço histórico para a criação de mais de uma vacina em tempo recorde na história da ciência. Ela afirmou que, em 1925, era possível observar o registro de uma vacina a cada 50 anos. Até 1990, uma a cada quatro anos e, mais recentemente, até 2016, uma por ano. “Em 2020, quebramos esse paradigma, conseguindo trazer de três a cinco vacinas – com licença emergencial ou registro – em menos de um ano. E isso tudo foi feito com todo rigor e qualidade”, enfatizou a médica, se referindo sobretudo aos questionamentos públicos sobre os imunizantes desenvolvidos.

“É importante que se diga que nenhuma fase foi pulada, desde a identificação e exploração do antígeno até as fases exploratórias pré-clínicas e clínicas, incluindo a montagem e avaliação do dossiê. Foi um esforço conjunto de cientistas, como também das agências éticas e regulatórias,” [1] afirmou.

A Dra. Sue Ann descreveu os processos de monitoramento e estudos que vinham sendo realizados sobre epidemias. A infectologista disse que as epidemias de influenza e Ebola conscientizaram sobre a necessidade de investimentos no controle de futuras pandemias. Desta forma, foi elaborada uma lista de patógenos com potencial epidêmico, o que contribuiu para a criação da Coalition for Epidemic Preparedness Innovations (CEPI) em 2017 durante a Reunião Anual de Davos do Fórum Econômico Mundial.

“Essa conscientização de diferentes instituições e grupos foi importante para a criação do CEPI que tem a missão de acelerar o desenvolvimento de vacinas. O CEPI investiu em cinco patógenos, entre eles o MERS, que acelerou o desenvolvimento da vacina de Oxford, da plataforma de vetor viral, pois já havia um investimento nesse sentido”, explicou a médica.

Segundo a Dra. Sue Ann, tudo foi feito com celeridade, por meio do financiamento de várias instituições e captação de recursos no site oficial da Covax para a busca de centros e desenvolvedores. De acordo com a cientista, no Brasil, o recrutamento, realizado em centros em São Paulo (1), Rio de Janeiro (1), Bahia (1), Rio Grande do Norte (1) e Rio Grande do Sul (2), durou quatro meses, “o que demonstrou o talento brasileiro em participar de uma pesquisa internacional em larga escala”, disse.

Perspectivas: persistência e duração dos anticorpos

Para a pesquisadora, o cenário da pandemia ainda é difícil, principalmente com a chegada da variante Ômicron, que “veio para mudar o que já tínhamos de cenário em relação à Delta”. “Com o pouco que sabemos já dá para traçar alguma estratégia. Dados mostram aumento de casos, mas não de hospitalizações”, disse. Segundo ela, a chegada da Ômicron veio corroborar com a necessidade da dose de reforço. Ela citou o caso de um estudo de efetividade da vacinação, apontando que a vacina atinge níveis de eficácia moderados a altos (70% a 75%) contra infecção leve após a dose de reforço. [2]

Para a Dra. Sue Ann, os estudos que acompanham a duração dos anticorpos são tão importantes quanto os que verificam a eficácia das vacinas em relação às variantes. Ela falou sobre os desafios que persistem sobre a escassez de produção e explicou que por isso foi preciso adotar algumas estratégias, como alterar o intervalo entre as doses, a fim de, inicialmente, atingir um maior número de pessoas. Outra estratégia foi a combinação de vacinas, o que levou à realização de estudos heterólogos, que também validaram a aplicação de doses de vetor viral e ARNm em relação à reatogenicidade – capacidade de a vacina gerar reação adversa ou colateral local ou sistêmica no organismo – e à imunidade celular e humoral. [3,4]

O Ministério da Saúde brasileiro encomendou um estudo para analisar a resposta imune das vacinas. Ao ser questionada pela plateia, a pesquisadora disse não poder revelar os resultados desse trabalho. A médica disse que o resultado se tornará público em breve, adiantando que “todas apresentam uma boa resposta, o que difere é a magnitude dessa resposta”. Ela destacou também que o nível de anticorpos produzidos a partir da vacinação com imunizantes que utilizam RNA mensageiro é muito alto, porém atinge um platô e começa a cair em menos tempo do que com a imunização de vetor viral, na qual a persistência cai menos e mantém o platô por mais tempo.

Em resposta à pergunta do Medscape sobre a necessidade de reforço anual, a médica afirmou que alguns detalhes são importantes: “Demora muito tempo para o desenvolvimento de uma vacina e, em 15 meses, já observamos inúmeras variantes e algumas de preocupação. Para avaliar o reforço anual, precisamos entender qual variante vai ser prevalente de agora em diante. A Ômicron veio para mudar o que já tínhamos de cenário em relação à Delta, com mais transmissibilidade”, respondeu.

Ela acredita que, em relação a algumas faixas etárias – independentemente da cepa – talvez seja necessário fazer a imunização anual, mas qe isso ainda está sendo estudado. “É possível identificar, isolar e insertar em dias ou algumas semanas, mas ainda é preciso haver capacidade de produção e estudos de imunogenicidade. Não depende apenas do desenvolvedor e do cientista, mas da conversa com a agência regulatória, e isso não leva menos de oito meses”.

A última pergunta da plateia foi sobre a aplicação de uma dose de reforço reduzida. A Dra. Sue Ann revelou estar aprovando um estudo de meia dose com o CEPI, no qual o Brasil e outro país da América Latina serão incluídos. “Se o mundo não for vacinado, não se consegue controlar a pandemia. Por que a Novavax, que é uma vacina excelente, não está sendo distribuída e registrada? E temos escassez de produção e matéria prima. Meia dose pode ajudar a vacinar o mundo, a vacinar a África muito mais rápido. É importante que tentemos de uma forma segura aumentar o acesso a essas vacinas. Eu penso que este seja um dos caminhos”, encerrou.

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