Gastrectomia vertical e derivação gástrica em Y de Roux reduzem esteatose hepática no diabetes tipo 2

Jim Kling

Notificação

18 de janeiro de 2022

Tanto a derivação gástrica em Y de Roux quanto a gastrectomia vertical melhoram a esteatose hepática em pacientes com diabetes tipo 2, de acordo com uma nova análise de um ensaio randomizado e controlado.

Ambos os procedimentos resultaram na quase eliminação da esteatose hepática um ano após a cirurgia, mas o efeito sobre a fibrose hepática foi menos nítido. Os autores recomendaram mais estudos para examinar os efeitos em longo prazo na fibrose.

"Tanto a derivação gástrica quanto a gastrectomia vertical apresentaram resolução completa da esteatose, de acordo com os resultados da ressonância magnética. Isso é impressionante", disse o Dr. Ali Aminian, professor de cirurgia e diretor do Bariatric & Metabolic Institute da Cleveland Clinic, nos Estados Unidos, que foi convidado a comentar o estudo.

Cerca de 25% da população geral e cerca de 90% das pessoas com diabetes tipo 2 e obesidade têm doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA), que pode causar insuficiência hepática ou carcinoma hepatocelular. A esteatose hepática pode se combinar com obesidade, resistência à insulina e inflamação, aumentando o risco de doenças cardiovasculares.

A perda ponderal moderada pode eliminar a gordura hepática e melhorar a histologia da esteatose hepática, e estudos retrospectivos sugerem que a derivação gástrica em Y de Roux possa ser mais eficaz do que a gastrectomia vertical e a banda gástrica no combate à esteatose hepática e esteatoepatite.

Na verdade, o Dr. Ali foi primeiro autor de um recente artigo que descreve os resultados do estudo SPLENDOR, que analisou 650 adultos com obesidade e  esteatoepatite não alcoólica submetidos a cirurgia bariátrica em hospitais dos EUA entre 2004 e 2016, e comparou os desfechos de biópsias hepáticas aos de 508 pacientes submetidos a protocolos de perda ponderal não cirúrgicos.

Após uma mediana de acompanhamento de sete anos, 2,3% dos participantes do grupo de cirurgia bariátrica apresentaram eventos adversos hepáticos importantes, em comparação com 9,6% no grupo não cirúrgico (razão de risco ajustada, aHR, de 0,12; P = 0,01). A incidência cumulativa de eventos cardiovasculares adversos maiores (MACE, sigla do inglês Major Adverse Cardiovascular Events) foi de 8,5% no grupo cirurgia bariátrica e 15,7% no grupo não cirúrgico (aHR de 0,30; P = 0,007); 0,6% do grupo cirúrgico morreu em decorrência de complicações associadas ao procedimento no primeiro ano após a cirurgia.

Ainda assim, a questão não foi testada em um ensaio controlado e randomizado.

No estudo publicado on-line no periódico Annals of Internal Medicine, os pesquisadores, liderados pela Dra. Kathrine Aglen Seeberg e pelo Dr. Jens Kristoffer Hertel, do Sykehuset i Vestfold HF, na Noruega, conduziram uma análise secundária pré-especificada de dados de 100 pacientes (65% do sexo feminino; média de idade de 47,5 anos) com diabetes tipo 2, que foram randomizados para realizar derivação gástrica em Y de Roux ou gastrectomia vertical entre janeiro de 2013 e fevereiro de 2018.

Antes da cirurgia, a média da fração de gordura hepática (LFF, sigla do inglês liver fat fraction) foi de 19% (desvio padrão de 12%). Nos grupos gastrectomia vertical e derivação gástrica em Y de Roux, 24% e 26% dos pacientes apresentaram esteatose de baixo grau ou ausente (LFF ≤ 10%). A fração diminuiu 13% em ambos os grupos em cinco semanas, e 20% e 22% em um ano, respectivamente, sem diferença significativa entre os grupos.

Ao final de um ano, 100% do grupo derivação gástrica em Y de Roux apresentava esteatose de baixo grau ou ausente, situação verificada também em 94% dos participantes no grupo gastrectomia vertical (sem diferença significativa). Ainda em um ano, ambos os grupos apresentaram diminuições percentuais semelhantes no escore de gordura hepática DHGNA (diferença entre os grupos de -0,05) e de gordura hepática DHGNA (diferença entre os grupos, -0,3; nenhuma diferença significativa para nenhum dos dois).

No início do estudo, 6% do grupo derivação gástrica em Y de Roux e 8% do grupo gastrectomia vertical apresentavam fibrose grave, verificada pelo teste aprimorado de fibrose hepática (ELF, sigla do inglês enhanced liver fibrosis). Em um ano, as respectivas frequências foram de 9% e 15%, sem alterações estatisticamente significativas.

Houve uma grande variação nas pontuações do ELF entre indivíduos; dentro de um ano, 18% mudaram para uma categoria ELF superior e apenas 5% caíram de categoria.

As limitações do estudo incluíram o fato de ter sido realizado em um único centro e em uma população predominantemente branca. O estudo também não utilizou biópsia hepática, que é o padrão-ouro para avaliação da fibrose. Indivíduos com diabetes tipo 2 podem ter DHGNA mais grave, o que pode limitar a aplicabilidade a indivíduos sem diabetes tipo 2.

Juntos, os estudos produzem uma mensagem clínica clara, de acordo com o Dr. Ali. "Fornece evidências convincentes para pacientes e profissionais de saúde de que, se conseguirmos ajudar os pacientes a perder peso, podemos reverter a doença gordurosa hepática", disse ele.

O estudo foi financiado pela Helse Sør-Øst RHF. O Dr. Ali recebeu apoio de pesquisa da Medtronic.

Este conteúdo foi originalmente publicado em MDedge.comMedscape Professional Network.

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