O que causa o câncer? Há tanto que não sabemos...

Diana Kwon

Notificação

14 de janeiro de 2022

Ao receber o diagnóstico de câncer, muitas vezes as pessoas ficam desesperadas para saber o que causou a doença. Foi algo que fizeram? Algo que poderiam ter evitado?

Em geral, especialistas estimam que cerca de 40% dos tipos de câncer podem ser explicados por fatores de risco conhecidos, e muitas vezes modificáveis. O tabagismo e a obesidade representam os principais fatores de risco, embora uma série de outros fatores (p. ex., mutações na linhagem germinativa, bebidas alcoólicas, infecções ou poluentes ambientais como o amianto) também contribuam para o risco de câncer.

Mas e os outros 60%?

Uma nova análise sugere que, embora muitos desses casos provavelmente tenham um componente relacionado com o estilo de vida ou ambiental, os especialistas ainda não compreendem totalmente sua origem. E um número pequeno, porém significativo, pode simplesmente ser devido ao acaso.

Eis o que os especialistas suspeitam sobre essas incógnitas etiológicas e por que é tão difícil confirmá-las.

1ª possibilidade: Os fatores de risco conhecidos contribuem mais do que a gente pensa

Para alguns fatores, pode-se traçar uma linha reta até o câncer.

Fumar, por exemplo. Décadas de pesquisa ajudaram os cientistas a mapear claramente os efeitos cancerígenos do tabaco. Os pesquisadores identificaram um conjunto singular de mutações nos tumores dos fumantes que podem ser vistas quando as células cultivadas em placas de culturas são expostas aos carcinógenos existentes no tabaco.

Além disso, os especialistas conseguiram obter dados robustos de estudos epidemiológicos sobre a prevalência do tabagismo, bem como os riscos associados ao câncer e à morte, em grande parte porque a exposição ao tabaco ao longo da vida de um indivíduo é bem fácil de mensurar.

"As evidências em relação ao fumo são inacreditavelmente constantes", disse para o Medscape Dr. Paul Brennan, Ph.D., epidemiologista especializado em câncer na International Agency for Research on Cancer (IARC) da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Para outros fatores de risco conhecidos, como a obesidade e a poluição do ar, ainda restam muito mais perguntas do que respostas.

Por conta das limitações em relação à verificação desses fatores, provavelmente estamos minorando seus efeitos, disse o Dr. Richard Martin, Ph.D., professor de epidemiologia clínica da University of Bristol no Reino Unido.

Veja a obesidade. O excesso de peso está associado a um acréscimo do risco de pelo menos 13 tipos de câncer. Embora as estimativas de risco variem de acordo com o estudo e o tipo de câncer, segundo dados globais de 2012, o excesso de peso ou a obesidade representaram cerca de 4% de todos os tipos de câncer no mundo inteiro, 1% nos países de baixa renda e 8% nos países de alta renda.

No entanto, Dr. Paul acredita que "subestimamos o efeito da obesidade no câncer".

Uma razão fundamental, disse o professor, é que a maioria de estudos usa o índice de massa corporal (IMC) para determinar se alguém está com sobrepeso ou é obeso, mas o IMC é uma medida insuficiente da gordura corporal. Não diferencia entre gordura e músculo, o que significa que duas pessoas com a mesma altura e peso podem ter o mesmo índice de massa corporal, mesmo que uma seja um atleta que come carne e vegetais magros, enquanto a outra leva uma vida sedentária, consumindo grandes quantidades de alimentos processados e bebidas alcoólicas.

Além disso, os estudos costumam calcular o IMC da pessoa apenas uma vez, e uma única avaliação não informa a flutuação do peso nos últimos anos ou em diferentes fases da vida. No entanto, análises recentes sugerem que a obesidade prolongada possa ser mais relevante para o risco de câncer do que as medidas pontuais.

Além disso, muitos estudos atualmente sugerem que alterações no microbioma intestinal e altos níveis de insulina no sangue – comuns em pessoas com excesso de peso ou obesas – podem aumentar o risco de câncer e acelerar o crescimento tumoral.

Quando estes fatores adicionais são levados em consideração, o impacto do excesso de gordura corporal pode na verdade desempenhar um papel de maior relevância no risco de câncer. Na verdade, segundo Dr. Paul, "se estimarmos os efeitos da obesidade adequadamente, esta pode em algum momento se tornar a principal causa do câncer".

2ª possibilidade: Os fatores ambientais ou de estilo de vida continuam sob o radar

Pesquisadores associaram diversas substâncias que ingerimos ou às quais somos cotidianamente expostos (p. ex., poluição do ar, toxinas de resíduos industriais e alimentos ultraprocessados) ao câncer. Mas a extensão ou a contribuição dos potenciais cancerígenos à nossa volta, especialmente os quase ubíquos em baixos níveis, ainda é em grande parte desconhecida.

Uma razão simples é que os efeitos de muitas destas substâncias ainda são difíceis de avaliar. Por exemplo, é muito mais difícil estudar o impacto dos poluentes encontrados nos alimentos ou na água, em relação aos quais dada população irá compartilhar níveis de exposição semelhantes, do que o do tabaco, visto que é possível comparar uma pessoa que fuma um maço por dia com outra pessoa que não fuma.

"Se você tem exposições ubíquas, pode ser difícil discernir o papel de cada uma", disse Dr. Richard. "Há muitas causas que provavelmente são desconhecidas, porque na verdade todos foram expostos."

Por outro lado, algumas substâncias cancerígenas às quais as pessoas são expostas por períodos limitados podem não ser identificadas se não forem feitos estudos no momento da exposição.

"O que está no corpo aos 40 anos de idade pode não indicar ao que você foi exposto entre cinco e 10 anos de idade no parquinho ou no campo de futebol", disse o Dr. Graham Colditz, Ph.D., epidemiologista e especialista em saúde pública na Washington University nos Estados Unidos. "A tecnologia continua a mudar para que possamos obter melhores avaliações de sua exposição atual, mas como isso se relaciona com o que aconteceu há cinco, 10 e 15 anos provavelmente varia muito".

Além disso, os pesquisadores descobriram que muitos cancerígenos não causam mutações específicas no DNA da célula; pelo contrário, estudos sugerem que a maioria dos cancerígenos promove alterações cancerosas nas próprias células, como a inflamação.

"Precisamos pensar em como potenciais carcinógenos estão causando câncer", disse Dr. Paul. Em vez de provocar mutações, potenciais carcinógenos podem usar um "um tipo inteiramente diferente de via", explicou. Quando, por exemplo, a inflamação cronifica, pode estimular uma cascata de eventos que, em última análise, causa câncer.

Por fim, não sabemos muito sobre o que causa os tipos de câncer nos países de baixa e média renda. A maior parte da pesquisas feita até hoje foi em países de alta renda, como EUA, Austrália e partes da Europa.

"Existe uma verdadeira carência de estudos epidemiológicos robustos em outras partes do mundo, como América Latina, África, partes da Ásia", disse o Dr. Marc Gunter, Ph.D., epidemiologista molecular do IARC, para o Medscape.

3ª possibilidade: Alguns tipos de câncer são fruto do acaso

Quando se trata de risco de câncer, o acaso pode estar em jogo.

Pessoas com exposição ínfima a carcinógenos conhecidos e sem história familiar da doença podem ter câncer.

"Todos sabemos que existem pessoas com câncer que fazem uma alimentação muito saudável, nunca tiveram excesso de peso e nunca fumaram", disse Dr. Marc. "E também existem pessoas na outra extremidade que não têm câncer".

Mas qual percentual é atribuível ao acaso?

Um controverso estudo publicado em 2017 no periódico Science sugeriu que, pela rotatividade das células nos tecidos saudáveis no pulmão, pâncreas e de outras partes do corpo, apenas cerca de um terço dos tipos de câncer estaria relacionado com fatores ambientais ou genéticos. O restante, segundo os autores, ocorre por mutações aleatórias acumuladas no DNA da pessoa, ou seja, por azar.

Esse estudo provocou uma enxurrada de críticas dos cientistas que identificaram importantes falhas no trabalho, levando à superestimativa dos tipos de câncer relacionados com o acaso.

A verdadeira proporção de tipos de câncer que são fruto do acaso é muito menor, segundo Dr. Paul. "Se você olhar comparações internacionais da incidência de câncer e fizer uma estimativa conservadora, verá que talvez 10% a 15% dos tipos de câncer de fato ocorrem por acaso", disse o pesquisador.

Se alguns tipos de câncer são por azar ou por fatores de risco não identificados, ainda está em aberto.

Mas a conclusão é que muitas causas desconhecidas de câncer estão provavelmente relacionadas com o ambiente ou o estilo de vida, o que significa que, em teoria, podem ser alteradas, até mesmo evitadas.

"Haverá sempre algum elemento de acaso, mas podemos modificar nossas chances, dependendo do nosso estilo de vida e talvez de outros fatores que ainda não compreendemos inteiramente", disse Dr. Marc.

A boa notícia é que, quando se trata de prevenção, existem muitas formas de modificar o nosso comportamento, como ingerir menos carnes processadas, caminhar diariamente ou se vacinar contra vírus oncogênicos, para melhorar as nossas chances de viver sem câncer.

E, à medida que os cientistas compreendem melhor o que causa o câncer, as possibilidades de prevenção só aumentam.

"Existe uma evolução constante e lenta do conhecimento, que está diminuindo o risco global de câncer", disse Dr. Paul. "Nunca vamos eliminar o câncer, mas poderemos controlá-lo como doença".

Diana Kwon é jornalista freelancer residente em Berlim. É especializada em saúde e ciências correlatas e seu trabalho tem sido publicado em veículos como Scientific American, Scientist e Nature. Siga-a no Twitter: @DianaMKwon.

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