Prostatectomia sem biópsia pode ser viável, diz estudo alemão

Laird Harrison

Notificação

14 de janeiro de 2022

A prostatectomia radical após confirmação do câncer por meio de duas técnicas avançadas de exames de imagem, sem biópsia, é viável, de acordo com um estudo retrospectivo com 25 pacientes que recusaram as biópsias.

"Os resultados da nossa casuística podem iniciar a discussão sobre a realização da prostatectomia radical sem biópsia prévia como uma possível opção para pacientes bem selecionados", afirmaram o médico Dr. Valentin H. Meissner, e seus colaboradores da Technische Universität München, Alemanha.

As atuais diretrizes indicam a necessidade de biópsia da próstata caso o aumento do antígeno específico da próstata ou as alterações pelo toque retal sugerirem câncer. Mas biópsias podem causar complicações, como sepse, retenção urinária e hematúria, com indicação de colocação de sonda vesical.

Entretanto, a utilização da ressonância magnética multiparamétrica (RMmp) isoladamente pode não ser suficiente para o diagnóstico. Estudos revelam que a RMmp não identifica cerca de 10% dos casos de câncer de próstata importantes e tem um valor preditivo positivo baixo.

Na casuística em tela, os autores descrevem sua experiência em associar duas modalidades avançadas de imagem, a RMmp e a tomografia por emissão de pósitrons (PET, do inglês Positron-Emission Tomography) para o antígeno específico da membrana prostática, como principal ferramenta diagnóstica para identificar e tratar o câncer de próstata nos pacientes que recusaram a biópsia.

"A maior precisão da PET do antígeno específico da membrana prostática levanta a questão de se esta modalidade de exame de imagem pode complementar a RMmp, de modo a evitar a necessidade de biópsia com segurança antes da prostatectomia radical", escreveram Dr. Valentin e colaboradores na análise publicada em 06 de dezembro no periódico European Urology.

Estudos recentes já sugeriram que as duas técnicas de imagem associadas são mais precisas do que a RMmp isolada, indicando que "os homens com achados suspeitos de PET para o antígeno específico da membrana prostática e RMmp podem evitar a biópsia e fazer o tratamento definitivo", escreveram os autores.

Na casuística em tela, Dr. Valentin e colaboradores acompanharam 25 pacientes que optaram pela prostatectomia radical com base nos resultados dos exames de imagem da RMmp e da PET para o antígeno específico da membrana prostática, sem biópsia, apesar da recomendação do cirurgião para fazer a biópsia.

Os homens tinham uma mediana de 7,3 ng/m do antígeno específico da próstata ao diagnóstico, e uma mediana de idade de 71 anos. Todos apresentaram pelo menos uma lesão suspeita na RMmp e uma na PET para o antígeno específico da membrana prostática, bem como pontuação no Prostate Imaging Reporting & Data System (PI-RADS) ≥ 4 e uma pontuação na PET ≥ 4 (com mediana do valor de absorção padronizado, ou SUVmax, de 9,5).

Após a prostatectomia radical, todos os pacientes tinham câncer de próstata grau > 1 por avaliação histopatológica, usando a definição da International Society of Urological Pathology (ISUP). Mais especificamente, 8 dos 25 pacientes tinham grau 2, 15 tinham grau 3 e 2 tinham grau 5.

Tanto a RMmp como a PET para o antígeno específico da membrana prostática apresentaram sensibilidade e valor preditivo positivo de 100%. Os exames de imagem identificaram com sucesso os quatro casos de invasão da vesícula seminal, quatro de seis casos de extensão extracapsular e 13 casos de doença local. Em quatro pacientes, os pesquisadores encontraram invasão dos linfonodos no histopatológico, e a PET para o antígeno específico da membrana prostática identificou corretamente um desses pacientes no pré-operatório.

No entanto, dois pacientes com suspeita de câncer com extensão extracapsular por RMmp e PET para o antígeno específico da membrana prostática tinham doença local restrita pela histopatologia. Inversamente, dois pacientes com suspeita de câncer local restrito por exames de imagem tinham extensão extracapsular na histopatologia.

Os autores reconheceram o "risco de resultados falso-positivos, levando a uma cirurgia desnecessária". Mas ponderam que o risco pode ser mitigado pela experiência em medicina nuclear dos médicos, utilizando um ponto de corte de SUVmax validado.

"Os resultados da casuística retrospectiva em tela foram promissores e mostraram que, nos pacientes com alta suspeita de câncer de próstata por RMmp e PET para o antígeno específico da membrana prostática, evitar a biópsia da próstata antes da prostatectomia radical pode representar uma boa opção para pacientes bem orientados e selecionados", escreveram os autores.

No entanto, os pesquisadores advertiram: "Nossa casuística é limitada pelo desenho retrospectivo e pelo pequeno tamanho da amostra. Queremos deixar claro que esta prática ainda não deve ser considerada como procedimento de rotina".

Por isso, os autores falaram sobre a necessidade de um ensaio clínico com uma população maior para a validação dos achados.

Apesar de o Dr. Scott Eggener, oncologista urológico da University of Chicago, nos Estados Unidos, ter considerado o estudo instigante, e acreditar que vale a pena cogitar a prostatectomia radical sem biópsia, esta opção ainda continua sendo uma questão meramente acadêmica.

De acordo com o oncologista, os únicos pacientes que ele já viu serem submetidos a prostatectomia radical sem biópsia o fizeram em caráter profilático, por terem história familiar de muitos parentes que morreram de câncer de próstata.

Mas se muitos pacientes não fizerem biópsia, inevitavelmente alguns acabarão fazendo procedimentos desnecessários, disse Dr. Scott para o Medscape.

"Isso pode ir parar na lata de lixo da história do câncer de próstata. Mas se mais estudos forem feitos com critério, possivelmente a combinação do antígeno específico da próstata, da RM e da PET irá um dia fazer com que a biópsia não seja necessária para alguns", disse Dr. Scott, que não participou da pesquisa.

Um coautor, Matthias Eiber, informou prestar consultoria para as empresas Blue Earth Diagnostics, Progenics Pharmaceuticals, Keosys, Novartis, Telix Pharma, Amgen e Point Biopharma, e ter uma solicitação de patente com a rhPSMA. Os demais autores informaram não ter conflitos de interesses. O Dr. Scott Eggener informou não ter conflitos de interesses.

Eur Urol. Publicado on-line em 06 de dezembro de 2021. Abstract

Laird Harrison cobre ciência, saúde e cultura. Seu trabalho já foi veiculado em revistas, jornais, rádios e sites estadunidenses. Atualmente, Laird está escrevendo um livro sobre realidades alternativas na física, além de lecionar técnicas de redação no The Writers Grotto. Conheça e acompanhe o trabalho de Laird em lairdharrison.com e @LairdH

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