Alimentação rica em fibras pode melhorar resposta à imunoterapia para o melanoma

Sharon Worcester

Notificação

14 de janeiro de 2022

Uma alimentação rica em fibras pode melhorar a resposta terapêutica dos pacientes com melanoma avançado em uso de inibidores do ponto de controle imunitário, enquanto os probióticos podem reduzir a eficácia do tratamento, revela novo estudo.

Os pesquisadores identificaram que os pacientes que referiram consumir pelo menos 20 g de fibras diariamente tiveram uma sobrevida livre de progressão da doença (SLPD) significativamente maior do que os que informaram consumir uma quantidade menor de fibras por dia. Entretanto, os pacientes que haviam feito suplementação com probiótico no mês anterior apresentaram SLPD ligeiramente menor, mas estes resultados não foram estatisticamente significativos.

E, após o ajuste por fatores clínicos, cada aumento de 5 g na ingestão diária de fibras alimentares correspondeu a um risco 30% menor de progressão da doença, de acordo com a análise, que foi publicada on-line em 23 de dezembro no periódico Science.

"Nosso estudo evidencia os potenciais efeitos da alimentação dos pacientes e do uso de suplementos ao iniciar o tratamento com inibidores do ponto de controle imunitário", disse uma das líderes do estudo, Dra. Jennifer Wargo, médica e professora de medicina genômica e de cirurgia oncológica no MD Anderson Cancer Center, nos Estados Unidos, em um comunicado à imprensa. "Estes resultados trazem mais subsídios para os ensaios clínicos no sentido de modular o microbioma com o intuito de melhorar os desfechos do tratamento do câncer utilizando estratégias alimentares, entre outras".

Pesquisas anteriores sugeriram que o microbioma pode influenciar a resposta dos pacientes à imunoterapia. Uma análise recente, por exemplo, constatou que o transplante de microbiota fecal pode melhorar a resposta à imunoterapia no melanoma avançado. E uma pequena análise de 2019 feita pela Dra. Jennifer e seus colaboradores sugere que uma alimentação rica em fibras pode aumentar a capacidade de resposta à imunoterapia no melanoma avançado, enquanto os probióticos parecem amortecer essa resposta.

Mesmo assim, o papel da alimentação e dos suplementos probióticos na resposta ao tratamento ainda é pouco compreendido.

No estudo em tela, Dra. Jennifer e colaboradores avaliaram perfis de microbiota fecal e hábitos alimentares, como a ingestão de fibras e o uso probióticos, de 158 pacientes com melanoma avançado que receberam inibidores do ponto de controle imunitário.

Nesta coorte, 31% (49 de 158) dos pacientes com melanoma em estágio avançado referiram uso de algum probiótico disponível no comércio no mês anterior. Ao avaliar se o uso de probióticos influenciou os desfechos do paciente, os pesquisadores observaram uma diferença menor, porém sem significado estatístico, na SLPD entre os que tomaram probiótico (mediana de 17 meses) em comparação aos que não tomaram (23 meses).

A maior ingestão de fibras alimentares, entretanto, foi associada a aumento significativo da SLPD em um subconjunto de 128 pacientes. A equipe dividiu os pacientes em um grupo de maior consumo de fibras (aqueles que consumiam pelo menos 20 g ao dia) e em um grupo de baixo consumo de fibras (os que consumiam menos de 20 g/dia).

Os 37 pacientes que referiram maior ingestão de fibras tiveram maior SLPD em comparação aos pacientes do grupo de baixa ingestão (mediana de SLPD não atingida versus 13 meses), além de risco 30% menor de progressão da doença ou morte a cada 5 g adicionais de consumo diário.

"O efeito protetor observado na ingestão de fibras alimentares em relação à SLPD e na resposta manteve-se homogêneo entre o subconjunto de pacientes tratados com monoterapia antiproteína 1 da morte celular programada (PD-1, do inglês Programmed Cell Death Protein 1), com exclusão dos pacientes que informaram uso recente de antibióticos", observaram os autores.

Ao avaliar a ingestão de fibras e probióticos em conjunto, os pesquisadores descobriram que a resposta à imunoterapia foi maior (82%) nos 22 pacientes que referiram ingestão suficiente de fibras alimentares sem uso de probióticos vs. 59% dos 101 pacientes que referiram ingestão insuficiente de fibras ou uso de probióticos.

Globalmente, a pesquisa sugere que "consumir uma dieta rica em fibras, como frutas, legumes e vegetais, pode melhorar a capacidade de responder à imunoterapia", disse um dos líderes do estudo, Dr. Giorgio Trinchieri, médico e chefe do Laboratory of Integrative Cancer Immunology do National Cancer Institute's Center for Cancer Research, nos EUA, em uma declaração à imprensa. "Os dados também sugerem que provavelmente é melhor para pessoas com câncer que recebem imunoterapia não tomar os probióticos disponíveis no comércio".

Os pesquisadores também estudaram se a ingestão de fibra alimentar aumentou a resposta ao tratamento em modelos pré-clínicos de melanoma murino. Neste caso, os modelos murinos que receberam uma dieta rica em fibras apresentaram retardo do crescimento tumoral após o tratamento antiproteína 1 da morte celular programada em comparação aos que receberam uma dieta com baixo teor de fibras ou probióticos.

Segundo os autores, "nossos modelos pré-clínicos corroboram a hipótese de que as fibras alimentares e os probióticos modulam o microbioma e que a imunidade antitumoral fica comprometida nos murinos que recebem dieta com baixo teor de fibras e em que recebem probióticos – com supressão das respostas intratumorais do IFN-γ das células T em ambos os casos".

As fibras alimentares podem exercer efeitos benéficos ao aumentar determinados tipos de bactérias no intestino, como as Ruminococcaceae, que "produzem altos níveis de certos ácidos graxos de cadeia curta com efeito antitumoral", explicou Dr. Giorgio.

Entretanto, "o impacto das fibras alimentares e dos probióticos na microbiota intestinal é somente parte de uma perspectiva maior", disse Dr. Giorgio em um comunicado à imprensa. "Muitos fatores podem influenciar a capacidade de um paciente com melanoma de responder à imunoterapia", mas, segundo essa análise, "a microbiota parece ser um dos fatores preponderantes".

Embora o médico Dr. Jeffrey S. Weber, Ph.D., tenha aclamado a pesquisa “inovadora e interessante”, ele acredita que a população de pacientes é muito pequena para confirmar que a alimentação rica em fibras de fato contribui para melhorar a resposta à imunoterapia e aumentar a SLPD nos pacientes com melanoma avançado.

São necessários mais dados para esclarecer estas conclusões. "Eu acreditaria se pudesse vê-los replicados em um estudo maior", disse ao Medscape o Dr. Jeffrey, que é professor e diretor adjunto do Laura and Isaac Perlmutter Cancer Center, New York University School of Medicine .

A Dra. Jennifer observou que um ensaio clínico randomizado explorando como as dietas com teor variável de fibra influenciam o microbioma e a resposta imunitária está atualmente recrutando pacientes com melanoma estágio III e IV fazendo imunoterapia.

Este estudo foi subsidiado pelo Melanoma Moon Shot, entre outros. A Dra. Jennifer Wargo fez um pedido de patente nos EUA cobrindo métodos para melhorar as respostas do inibidores do ponto de controle imunitário por meio da modulação do microbioma. O Dr. Jeffrey S. Weber, colaborador regular do Medscape, informou relações com as empresas Bristol-Myers Squibb, GlaxoSmithKline, Genentech BioOncology, Merck & Co, Novartis, EMD Serono, Celdex, CytomX, Nektar, Roche, Altor, Daiichi-Sankyo e Eli Lilly, e é mencionado em pedidos de patentes de biomarcadores para o ipilimumabe e o nivolumabe .

Science. Publicado em 23 de dezembro de 2021.

Sharon Worcester é uma premiada jornalista especializada em medicina, da equipe da MDedge News – Medscape Professional Network.

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