Endoscopia alta em pacientes com doença do refluxo gastroesofágico pode reduzir mortalidade por câncer gastrointestinal

Jim Kling

Notificação

13 de janeiro de 2022

Entre indivíduos com doença do refluxo gastroesofágico (DRGE), a endoscopia digestiva alta negativa foi associada à diminuição do risco de incidência e mortalidade por câncer gastrointestinal. O benefício persistiu por cinco a 10 anos após o procedimento.

O achado é semelhante ao benefício de sobrevida observado com colonoscopia e câncer colorretal, e pode ser atribuído ao tratamento endoscópico de lesões pré-cancerosas.

“A taxa de incidência de câncer gastrointestinal superior relativamente alta em pacientes com doença do refluxo gastroesofágico indica que a endoscopia alta única pode ser benéfica”, escreveram os autores, liderados pelo Dr. Dag Holmberg, Ph.D., do Departamento de Medicina Molecular e Cirurgia no Karolinska Institutet e no Karolinska Universitetssjukhuset, ambos na Suécia.

O estudo foi publicado no periódico Gastroenterology.

A doença do refluxo gastroesofágico é a indicação mais frequente de endoscopia digestiva alta, mas os resultados costumam ser negativos. Costuma ser uma doença benigna, mas pode causar esôfago de Barrett, bem como adenocarcinoma da cárdia e do esôfago. A endoscopia digestiva alta pode identificar outros tumores de esôfago, como câncer gástrico não localizado na cárdia e câncer duodenal, que podem causar dispepsia ou sintomas semelhantes aos da doença do refluxo gastroesofágico.

Para determinar o possível benefício da endoscopia digestiva alta, os pesquisadores conduziram um estudo de coorte populacional em quatro países, que incluiu 1.062.740 indivíduos com doença do refluxo gastroesofágico na Dinamarca, Finlândia, Noruega e Suécia. Os dados foram coletados de registros nacionais de pacientes, registros de câncer e registros de causas de morte. O estudo contemplou dados de 1979 até o final de 2018.

A idade mediana foi de 58 anos e 52% dos participantes eram mulheres.

Os pesquisadores definiram endoscopia negativa como ausência de diagnóstico de câncer gastrointestinal até seis meses após o procedimento: 69,3% dos procedimentos foram negativos.

Durante o acompanhamento, 0,34% dos participantes desenvolveram e 0,27% morreram de câncer de trato gastrointestinal superior. Dentre aqueles com endoscopia negativa, 0,23% desenvolveram e 0,22% morreram da doença.

Os participantes com endoscopia negativa tiveram menos risco de serem diagnosticados com câncer gastrointestinal superior durante o acompanhamento (razão de risco ajustada, aHR, de 0,45; intervalo de confiança, IC, de 95% de 0,43 a 0,48). A redução no risco foi semelhante entre os sexos e grupos etários, mas entre os procedimentos realizados após 2008, a redução do risco foi ainda maior (aHR de 0,34; P < 0,001).

O efeito foi maior no primeiro ano após o procedimento, mas persistiu por cinco anos antes de retornar aos níveis de risco basais.

A endoscopia negativa também foi associada à redução do risco de mortalidade por câncer gastrointestinal superior em comparação com ausência de endoscopia (aHR, 0,39; IC 95% de 0,37 a 0,42). O grau de proteção perdurou por ao menos 10 anos.

O adenocarcinoma de esôfago foi diagnosticado em 0,12% dos participantes e 0,10% morreram da doença. Entre aqueles com endoscopia negativa, 0,09% tiveram adenocarcinoma e 0,07% morreram da doença (aHR vs. sem endoscopia alta, 0,33; IC 95% de 0,30 a 0,37).

O rápido retorno ao risco basal foi importante e diferente do que ocorre após colonoscopias negativas. No entanto, novos tumores podem se formar prontamente em um ano, e o risco pode refletir lesões cancerosas ou pré-cancerosas precoces que não foram visualizadas durante o procedimento.

Na verdade, uma metanálise descobriu que 11,3% dos tumores de trato gastrointestinal superior escaparam da detecção endoscópica nos três anos anteriores ao diagnóstico, e revisões de casos de pacientes com diagnóstico de câncer gastrointestinal logo após uma endoscopia digestiva alta geralmente revelam resultados suspeitos ou indeterminados perdidos pelo endoscopista ou patologista.

Os indicadores de qualidade da endoscopia digestiva alta incluem tempo de procedimento, taxa de biópsias direcionadas e detecção auxiliada por computador, mas o impacto dessas medidas nos resultados não está claro. No entanto, a maior redução de risco encontrada com endoscopias realizadas mais recentemente sugere que novos indicadores de qualidade e avanços tecnológicos podem melhorar os resultados.

A incidência relativamente baixa de câncer esofágico e gástrico nos países ocidentais desencorajou a adoção generalizada do rastreamento endoscópico, mas os pesquisadores apontam que o risco de câncer gastrointestinal entre indivíduos com doença do refluxo gastroesofágico é semelhante ao risco de câncer colorretal na faixa etária de 60 a 69 anos nos Estados Unidos, para quem a colonoscopia é recomendada.

“Este estudo indica que a endoscopia digestiva alta pode ser benéfica para pacientes com doença do refluxo gastroesofágico, mas para tornar o rastreamento mais benéfico em termos de custo em seu início, o grupo-alvo pode ser limitado a pacientes com maior risco de câncer. Os estudos de custo-efetividade anteriores indicaram que a endoscopia é custo-efetiva em homens com 50 anos ou mais com doença do refluxo gastroesofágico crônica”, escreveram os autores.

O estudo foi financiado pelo Conselho de Pesquisa Sueco (Vetenskapsradet) e pela Sociedade Sueca do Câncer (Cancerfonden). Os autores informaram não ter conflitos de interesses relevantes.

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