Tabagismo e álcool aumentam risco de segundo câncer no carcinoma espinocelular

Heidi Splete

Notificação

12 de janeiro de 2022

O campo de cancerização e subsequente segundo câncer em pacientes com carcinoma espinocelular foi significativamente associado ao uso de cigarro e álcool, com base em dados de mais de 300 indivíduos.

Fumar cigarros e consumir bebidas alcoólicas são fatores bem estabelecidos de risco de carcinoma espinocelular do esôfago e de cabeça e pescoço, segundo o Dr. Manabu Moto, médico da Universidade de Kyoto, no Japão, e seus colaboradores. "Além disso, o desenvolvimento do carcinoma espinocelular e do epitélio escamoso displásico é multifocal nesses órgãos", um fenômeno conhecido como campo de cancerização. Mas a interação do epitélio displásico múltiplo com outros fatores, principalmente se a interrupção do uso de cigarro e álcool reduziria o risco de carcinoma espinocelular, não foi bem estudada.

Em um estudo publicado no periódico Gastro Hep Advances , os pesquisadores identificaram 331 adultos com carcinoma espinocelular esofágico superficial recém-diagnosticado submetidos a ressecção endoscópica e 1.022 controles saudáveis.

O campo de cancerização foi baseado no número de lesões não coradas pelo lugol por visão endoscópica de acordo com três grupos:

  • Grau A: nenhuma lesão;

  • Grau B: de 1 a 9 lesões; e

  • Grau C: ≥ 10 lesões.

O desfecho primário do estudo foi uma avaliação dos fatores de risco de lesões não coradas pelo lugol.

"Múltiplas lesões não coradas pelo lugol estão intimamente associadas à aldeído desidrogenase 2 inativa e ao campo de cancerização", escreveram os pesquisadores. Antes de avaliar os pacientes, eles usaram um modelo animal para investigar se a ingestão de álcool e a abstinência afetariam os danos ao DNA induzidos por acetaldeído no epitélio esofágico entre indivíduos com disfunção de aldeído desidrogenase 2.

Os pesquisadores identificaram que o dano ao DNA, avaliado pelos níveis de produto de DNA derivado do acetaldeído (via N2-etilideno-dG), acumulou-se ao consumo alcoólico ao longo do tempo, mas diminuiu com a cessação do álcool no modelo animal.

Para a parte do estudo em humanos, os participantes completaram uma pesquisa de estilo de vida na linha de base, com perguntas sobre história de consumo de álcool, resposta ao consumo de álcool, tabagismo, consumo de alimentos em alta temperatura e consumo de vegetais e frutas verdes e amarelos. O consumo de álcool (uma dose: 22 g de etanol) foi dividido em cinco grupos:

  • Nunca/raramente: < 1 dose por semana;

  • Leve: de 1 a 8,9 doses por semana;

  • Moderado: de 9 a 17,9 doses por semana;

  • Pesado: ≥ 18 doses por semana; e

  • Parou de beber.

O uso de tabaco foi dividido em três grupos:

  • Nunca: 0 maço-anos;

  • Leve: < 30 maço-anos; e

  • Pesado: 30 ou mais maço-anos.

Os pacientes receberam material educativo ao início do estudo sobre a importância da cessação do uso de cigarro e álcool, bem como orientações verbais para a cessação.

Os participantes foram submetidos a vigilância endoscópica em intervalos de três meses por até seis meses após a ressecção endoscópica.

No total, o aumento do consumo de álcool foi associado a maior risco de lesões não coradas pelo lugol em todos os graus; os mais elevados foram positivamente associados ao consumo intenso de álcool, fumo, rubor facial após consumo de álcool e alimentos em alta temperatura, e negativamente associados ao consumo de frutas e vegetais.

O risco de progressão do grau de lesões não coradas pelo lugol foi mais fortemente associado ao aumento do consumo de álcool e ao relato de rubor facial após consumo de álcool. “O maior risco foi observado em pacientes com rubor facial que consumiram em média 30 unidades por semana no grau C de lesões não coradas pelo lugol”, com uma razão de chances de 534, em comparação com controles saudáveis. "Como o rubor é causado pelo acúmulo de acetaldeído devido à deficiência de aldeído desidrogenase 2, nosso resultado também significa que o acetaldeído é um forte carcinógeno nos campos de cancerização."

Os desfechos secundários incluíram a incidência de segundo carcinoma espinocelular esofágico primário e carcinoma espinocelular de cabeça e pescoço – significativamente mais prevalentes em pacientes com grau C de lesões não coradas pelo lugol (incidência cumulativa de cinco anos de 47,1% para carcinoma espinocelular esofágico e 13,3% para carcinoma espinocelular de cabeça e pescoço).

No entanto, a cessação do uso de álcool e do tabagismo reduziram significativamente o desenvolvimento do segundo carcinoma espinocelular primário do esôfago (razão de risco ajustada de 0,47 para o álcool e 0,49 para o tabagismo).

Os achados do estudo foram limitados por vários fatores, inclusive falta de randomização entre os grupos de não cessação e cessação, e inclusão de pacientes com câncer, mas não sobreviventes de câncer de longo prazo, observaram os pesquisadores.

"Acreditamos que nossos dados serão úteis para estabelecer uma estratégia de prevenção e vigilância para sobreviventes do câncer, porque o prognóstico global no câncer de esôfago e de cabeça e pescoço ainda é reservado", com sobrevida em cinco anos < 20%, e os resultados destacam a necessidade de ensinar esses sobreviventes sobre o valor da cessação do uso de cigarro e de bebidas alcoólicas, acrescentaram.

O estudo foi financiado pelo Fundo Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro de Câncer 36 do Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar do Japão. Os pesquisadores informaram não ter conflitos de interesses financeiros.

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