CPAP pode não ser eficaz em pacientes muito idosos com apneia obstrutiva do sono

Lorraine L. Janeczko

Notificação

11 de janeiro de 2022

Estados Unidos (Reuters Health) – É possível que a pressão positiva contínua nas vias respiratórias (CPAP, sigla do inglês Continuous Positive Airway Pressure) não seja eficaz em pacientes muito idosos com apneia obstrutiva do sono moderada a grave, segundo uma análise exploratória de dados de ensaios clínicos.

“Os resultados do estudo em tela sugerem que o tratamento com CPAP não é eficaz em pacientes com mais de 80 anos de idade e apneia obstrutiva do sono”, escreveu o Dr. Miguel Angel Martinez-Garcia, médico do Hospital Universitari i Politècnic La Fe, na Espanha, com colaboradores no periódico Sleep Medicine.

Dr. Miguel e colaboradores conduziram uma análise post-hoc agrupada de dois ensaios multicêntricos abertos, a fim de determinar o efeito da CPAP em 369 pacientes com 70 anos de idade ou mais com índice de apneia-hipopneia de pelo menos 15 eventos por hora. Os pacientes foram aleatoriamente designados para receber CPAP ou não por três meses.

Os pesquisadores analisaram dados de 97 participantes com 80 anos ou mais. A média de idade neste grupo foi de 81,5 anos; 47 receberam CPAP e 50 não.

Os participantes que usaram CPAP o fizeram em média 4,3 horas por noite, e 53% dos pacientes usaram o dispositivo pelo menos quatro horas por noite, o que os pesquisadores consideraram uma boa adesão.

Os pacientes do grupo CPAP melhoraram significativamente o ronco (-58%) e apneias testemunhadas (-35%), bem como o índice de apneia-hipopneia (de 41,9 para 4,9 eventos por hora). No entanto, não houve melhora clínica na escala de sonolência de Epworth (-1,2 pontos), em nenhum domínio do Questionário de Sono de Quebec, em nenhum teste neurocognitivo, depressão ou ansiedade, nem sintomas relacionados à apneia obstrutiva do sono ou na pressão arterial.

“A frequência de pacientes muito idosos com suspeita de apneia obstrutiva do sono tem aumentado nos últimos anos. Temos a tendência de tratá-los como tratamos pessoas mais jovens, e isso provavelmente não está correto”, disse o Dr. Miguel à Reuters Health por e-mail. “Quando um paciente muito idoso vai ao laboratório do sono com suspeita de apneia obstrutiva do sono, o tratamento deve ser individualizado e cauteloso.”

O Dr. Miguel e sua equipe queriam compreender o fenótipo clínico de pacientes muito idosos que se beneficiarão com a CPAP. “Para responder a esta importante questão, estamos planejando um grande ensaio clínico randomizado, com mais de 700 indivíduos a partir de 80 anos de idade com apneia obstrutiva do sono em mais de 40 centros”.

A Dra. Beth A. Malow, médica e diretora da Divisão de Distúrbios do Sono do Vanderbilt University Medical Center, nos Estados Unidos, advertiu: “Pessoas para as quais a CPAP potencialmente traga benefícios talvez deixem de receber esta intervenção por conta desses resultados. Isso é preocupante”.

“É importante manter em mente que, embora a sonolência não tenha melhorado neste grupo, a pontuação média da Escala de Sonolência de Epworth foi < 10 (na faixa normal, sem sono)”, explicou à Reuters Health por e-mail a Dra. Beth, que não participou do estudo. “Se a amostra tivesse mostrado uma pontuação mais alta na faixa de sonolência dessa escala, é possível que tivesse sido detectada uma melhora na sonolência. Da mesma forma, se as aferições da pressão arterial incluíssem aqueles sem hipertensão, talvez não fosse observada uma melhora nas aferições da pressão arterial”.

“Eu gostaria de ver mais dados sobre a eficácia da CPAP (em outras palavras, o índice de apneia-hipopneia durante o tratamento, não apenas durante o estudo de titulação)”, disse ela. “Pode ter ocorrido vazamento na máscara ou outros problemas de funcionamento da CPAP na casa dos pacientes que podem ter afetado os resultados? Com apenas 53% dos pacientes usando o dispositivo por mais de quatro horas por noite, não é uma surpresa que resultados mais robustos não tenham sido observados”.

O Dr. Atul Malhotra, especialista em medicina do sono e professor de medicina da UC San Diego Health, nos EUA, reiterou a nota cautelosa, dizendo: “Seria precipitado reagir de forma exagerada a um estudo.”

“Neste estudo, o tratamento não trouxe benefícios, mas isso não significa que a doença deva ser ignorada”, disse ele por e-mail à Reuters Health. “Idealmente, a apneia do sono deve ser diagnosticada mais cedo. Alguns pacientes se beneficiam de terapias alternativas para a apneia do sono ou precisam de suporte intensivo para tolerar bem a CPAP”.

“A apneia do sono é uma doença importante. Em idosos, a apneia do sono pode comprometer a memória e o tratamento do quadro pode melhorar esse aspecto”, acrescentou o Dr. Atul. “Precisamos de mais dados sobre a importância da apneia do sono em geral e o tratamento ideal para várias faixas etárias”.

“Se você atende pacientes, pergunte-lhes sobre alimentação, exercícios e sono como os três pilares da saúde”, aconselhou.

FONTE: https://bit.ly/3IHXGrR

Sleep Medicine. Publicado on-line em 24 de novembro de 2021.

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